Palma de Ouro foi para o melhor filme do festival

Júri foi ousado e decidiu premiar produções que tivessem olhar benevolente sobre o mundo e a humanidade

Mariane Morisawa, enviada especial a Cannes |

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O cineasta Apichatpong Weerasethakul recebe a Palma de Ouro por Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives
No fim, deu tudo certo. O júri presidido por Tim Burton escolheu o melhor filme do 63º Festival de Cannes para levar a Palma de Ouro, na noite do domingo (23), sem ter medo da ousadia de premiar um longa-metragem de voz própria e totalmente fora dos padrões cinematográficos preponderantes no mundo.

Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives ( Tio Boonmee que Pode se Lembrar de Suas Vidas Passadas , na tradução literal do inglês), do tailandês Apichatpong Weerasethakul, transporta o espectador para outro mundo ao falar de forma sensível do mais temido dos assuntos, a morte. A floresta inebriante envolve pelas cores e pelos sons, e a memória de um tempo passado entra por todos os fotogramas do longa-metragem, às vezes com algum humor e sempre com muita poesia e fantasia, seja por meio dos macacos-fantasmas de olhos vermelhos e brilhantes ou do bagre falante.

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Tim Burton: presidente do júri desta edição
A premiação foi coerente com a própria carreira de Burton, que sempre leva o público para outros universos, embalado pela fantasia. “Foi como estar num sonho estranho e bonito que não vemos tão comumente”, disse Burton na coletiva do júri após a cerimônia. O diretor Shekhar Kapur destacou que era um filme “cheio de compaixão”.

Provavelmente foi esse o ponto de contato entre a Palma de Ouro e o Grande Prêmio do Júri, concedido a Des Hommes et des Dieux ( De Deuses e Homens , na tradução do francês), de Xavier Beauvois, cujo tom é bastante diferente de Uncle Boonmee. O longa-metragem intimista e realista focado no cotidiano de um monastério na Argélia em meio a conflitos entre grupos islâmicos armados e o governo é baseado em fatos verídicos – os frades foram sequestrados e assassinados em circunstâncias ainda não totalmente explicadas. É um caso parecido com o Prêmio do Júri concedido a Un Homme qui Crie , de Mahamat-Saleh Haroun, também fechado na história do pai que entrega o filho para o exército, com pano de fundo da guerra no Chade. Talvez tenha sido a falta de compaixão que tenha assustado o júri em filmes como My Joy , de Sergei Loznitsa, de esperança nula no mundo.

A premiação de Juliette Binoche como melhor atriz por Copie Conforme está longe de ser surpreendente, devido à quantidade de nuanças de sua interpretação. Também não é nada chocante o troféu para Javier Bardem – sem ele, Biutiful não seria o filme que é. A surpresa aqui foi que ele tenha dividido o prêmio com o italiano Elio Germano, de La Nostra Vita (ainda que se trate de belíssima atuação).

O júri explicou que achou interessante premiar dois atores em filmes sobre paternidade e família e que eram tão diferentes no estilo de trabalhar. Os dois entraram na sala de coletiva de imprensa brincando. Bardem disse que “tudo bem, porque a Espanha vai ganhar a Copa do Mundo. A última vez foi a Itália”. Depois, ele disse que estava muito feliz de dividir o prêmio com Germano. “Acho ótimo que se compartilhem troféus, porque assim menos pessoas perdem”, brincou. “É uma honra representar o filme, não tomo como algo pessoal”, disse ele, que ainda agradeceu ao diretor Alejandro González Iñárritu, porque trabalhar com ele “representou uma mudança no jeito de atuar”.

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Os atores Javier Bardem e Juliette Binoche exibem seus prêmios na cerimônia de entrega do festival
Germano respondeu a uma jornalista italiana que perguntou sobre seu discurso de conteúdo político, que talvez as pessoas não tivessem entendido. “Não penso que era muito político”, afirmou em italiano. “Só disse que, como os artistas na Itália são sempre acusados de falar mal do país, então eu ia falar bem. Que o prêmio era para a Itália e os italianos e que são eles que fazem de tudo para fazer da Itália um país melhor, não obstante nossa classe dirigente”, completou. Javier Bardem disse que assinava embaixo.

A escolha de Poetry ( Poesia , na tradução do inglês), de Lee Chang-dong, como melhor roteiro, não chega a incomodar. O prêmio verdadeiramente polêmico da noite foi o de melhor direção para Mathieu Amalric. Tournée ( Turnê , na tradução do francês) é bastante simpático e traz à tela personagens-artistas incríveis do novo burlesco, mas é parecido demais com coisas demais para realmente mostrar um cineasta de voz original.

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