'O corpo me pedia para arriscar', reconhece Almodóvar

Cineasta espanhol fala sobre "A Pele que Habito", filme apresentado em Cannes

EFE |

Divulgação
Antonio Banderas em "A Pele que Habito"
O imprevisível sempre foi parte de seu universo, mas com "A Pele que Habito" Pedro Almodóvar dá um salto em sua trajetória para um cinema sóbrio e obscuro que o posiciona para a tão aguardada Palma de Ouro no Festival de Cannes 2011 .

"O corpo me pedia para arriscar e é um luxo que me dei", justificou o diretor. Almodóvar, sempre com vários projetos em mente, tinha fascinação pela história que se concretizou 10 anos depois que o diretor espanhol lesse "Tarântula", o romance de Thierry Jonquet, na qual o projeto se baseou.

"Via a vertigem no rosto de todas as pessoas em torno do meu estafe ao ler o roteiro, mas eu gostei muito e queria fazer este filme. Até agora me deixei levar pelo meu instinto e aqui estou", explica em entrevista à agência Efe.

O "aqui" é Cannes, festival no qual participa pela quarta vez e onde tentará finalmente conquistar a Palma de Ouro com o 18º trabalho de sua carreira. Complexo, perturbador e com inumeráveis reviravoltas no roteiro, o filme vai desvendando a profundidade desses personagens que mudam, literal e figurativamente, suas próprias peles.

"A Pele que Habito" se centra na "magnitude da vingança de um médico contra quem ele supõe ter estuprado sua filha" , disse Almodóvar, que com este projeto se reencontra com Antonio Banderas e que também tem no elenco Elena Anaya, Marisa Paredes e Roberto Álamo.

"Queria que a família do filme fosse muito selvagem, muito independente moralmente falando, que não tivesse tido a mesma educação que qualquer espanhol. Que sua cultura não estivesse baseada no castigo e no pecado como a cultura na qual eu nasci e vivi", disse Almodóvar.

Esse território sem referências de punição é composto por uma mãe "que leva a loucura em suas entranhas" e "dois filhos paralelos que são muito mais loucos do que ela, extraordinariamente violentos e amorais", explicou. Tal imoralidade é o fio narrativo ao qual Almodóvar se agarra com força, reinventado seu cinema e seu antigo ator preferido, Antonio Banderas. "Ser diretor de cinema é o mais parecido com Deus. O privilégio que ele tem de pôr de pé suas fantasias e de que haja uma equipe artística e técnica à sua disposição para torná-las realidade, é o máximo poder que se pode ter", afirmou.

"A Pele que Habito" é uma "pele nova, artificial, de um novo cultivo" que veste Elena Anaya e que serve a Almodóvar para criar um discurso sobre os perigosos caminhos da ciência e o poder salvador da arte.

A atriz retorna a um longa de Almodóvar, após "Fale com Ela", e explica à agência Efe a experiência única de "poder construir um personagem desde o interior até a superfície, com muitas camadas, com muitas reviravoltas. É um papel que tem uma ação constante sob sua aparente inatividade. Espera pacientemente uma mínima fenda para que consiga sua libertação", reconhece.

Almodóvar se posiciona como um nome forte para a Palma de Ouro que será entregue no domingo. "Isso não depende de mim", reconhece prudentemente. Mas obviamente e por sua renovada capacidade de romper moldes, Antonio Banderas quis parabenizá-lo. "É emocionante ver que um homem como Pedro, que pagou um preço alto por criar um código narrativo diferente dos primeiros filmes, depois de tanto tempo reinventar-se e propor algo diferente".

O ator, fetiche de Almodóvar em sua época mais radical, reaparece não por acaso com um personagem "mais maduro, mais econômico, mais 'monotônico' e mais heavy", reconhece em entrevista à Efe, rompendo com a imagem de "simpático e barroco" do ator, em palavras de Almodóvar durante um encontro com um pequeno grupo de jornalistas.

Mas "A Pele Que Habito", aproximação minimalista e contida a uma trama absolutamente explosiva, é também para Almodóvar um exercício de nudez. "A austeridade do filme é para mim uma das grandes novidades. Fui o mais austero que poderia ser", concluiu um diretor cuja pele, diz, está "com ferimentos mais ou menos cicatrizados", mas que "o que não quer é ser nostálgico".

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