"Nunca me considerei um artista", afirma Woody Allen

Filme de abertura do festival, "Meia-Noite em Paris" proporciona volta ao passado glorioso da cidade

Mariane Morisawa, enviada especial a Cannes |

AP
Rachel McAdams, Woody Allen e Owen Wilson, de "Meia-Noite em Paris", no Festival de Cannes
O lugar mudou, como tem sido nos últimos anos para Woody Allen. Depois de Londres e de Barcelona, agora o diretor filmou a capital francesa, em “Meia-Noite em Paris”, o delicioso longa-metragem de abertura do Festival de Cannes 2011 , exibido na manhã desta quarta-feira (11) para jornalistas. A produção passa fora de competição e tem estreia marcada para o próximo dia 17 de junho no Brasil.

O acaso, o saudosismo e os toques surrealistas, temas recorrentes na obra do cineasta, reaparecem com força aqui. Owen Wilson é Gil, um roteirista de Hollywood que está tentando escrever seu primeiro romance. Ele vai a Paris na companhia da noiva, Inez (Rachel McAdams), e dos pais dela. De cara, como é comum nos filmes do diretor, dá para perceber que a relação está um tanto fora do lugar. Eles encontram um casal de conhecidos, o pedante Paul (Michael Sheen) e a simpática Carol (Nina Arianda). Inez fica encantada com o jeito intelectual de Paul. Uma noite, Gil, que prefere outros tempos, principalmente a Paris dos anos 1920, vê-se chamado para um carro antigo e levado para uma festa, na companhia de ninguém menos que F. Scott Fitzgerald. Ao longo desta e das próximas noites, ele conhece Ernest Hemingway, Salvador Dalí, Gertrude Stein, Man Ray, Luis Buñuel, Pablo Picasso – e, principalmente, sua amante, Adriana (Marion Cotillard).

“Meia-Noite em Paris” é cheio de diálogos afiados, especialmente entre Gil e os personagens do passado – mas é verdade que eles fazem mais sentido para quem conhece os artistas que aparecem na tela. Allen faz uma grande homenagem a Paris, sua história e as pessoas que fizeram dela a cidade mítica que é, com belas imagens que fazem viajar. Ultimamente, tem sido preciso comparar os filmes recentes do cineasta, uma produção irregular e longe do brilhantismo do passado, mas ainda capaz de momentos adoráveis, divertidos e acima da média. Dito isso, “Meia-Noite em Paris” é bem superior ao anterior, “Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos”, exibido em Cannes no ano passado .

Na coletiva de imprensa que se seguiu à exibição, o diretor disse que não gostaria de voltar ao passado. “Todos querem escapar da vida que vivem agora. Mas, se você pensa em tempos passados, você pensa nas coisas maravilhosas. Só que não tinha Novocaína, não tinha ar-condicionado, nada das coisas que tornam a vida de hoje tolerável. Parece sedutor, mas é uma armadilha.” Os atores destacaram a liberdade que tiveram para trabalhar. “Não ficava preso em falar cada palavra de forma precisa”, disse Owen Wilson. Michael Sheen concordou. “Foi incrível, ouvi dizer que não haveria muita direção e havia muita. Mas talvez eu precisasse mais do que os outros. Houve observações que eu usarei em tudo o que fizer de agora em diante.”

null

Getty Images
Woody Allen: "Tenho talento, mas, quando você vê Kurosawa, Fellini, Buñuel, claro que não sou artista"
Woody Allen disse que o modo de trabalhar não muda mesmo filmando em outra cidade ou país. “Paris é muito excitante, eu a conheci da mesma forma que os americanos, pelos filmes. Só fui a Paris em 1965, e a Paris que eu conhecia era a do cinema. Eu quis mostrar Paris de forma emocional, o jeito como vejo Paris, de forma subjetiva.” O cinema francês e europeu em geral foi grande influência em sua carreira, mas o diretor disse não se considerar um artista. “Eu considero um cineasta muito sortudo. Nunca me considerei artista. Eu aspirava ser, mas nunca achava que tinha o que era necessário. Tenho talento, mas, quando você vê Kurosawa, Fellini, Buñuel, é claro que não sou artista. Fiz muitos filmes, alguns foram bons, outros melhores e outros ruins.”

O cineasta também comentou o convite a Carla Bruni, que faz uma ponta como a guia do Museu Rodin. “Numa manhã, estava tomando café com os Sarkozys, ela entrou na sala e achei que era muito bonita, charmosa e carismática. Só perguntei se ela queria se divertir, num papel pequeno. E Carla disse que gostaria de estar num filme para contar aos netos. Apesar de ser casada com um político, ela é uma artista e fez seu papel de maneira adorável.”

null

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG