Lars Von Trier volta com "final feliz" em "Melancolia"

Diretor dinamarquês, que fez piada com nazismo em coletiva, acredita mais na vida em seu filme menos cruel com os personagens

Mariane Morisawa, enviada especial a Cannes |

Divulgação
Kirsten Dunst em "Melancolia": uma noiva nem um pouco feliz com o casamento
Lars Von Trier está sendo irônico, lógico, quando diz que “Melancolia”, apresentado na manhã desta quarta-feira (18) para jornalistas na competição do Festival de Cannes , tem um final feliz, mesmo que seja sobre o fim do mundo. Mas, de maneira estranha, ele tem razão. O diretor dinamarquês parece acreditar mais na vida e no ser humano neste que é seu filme menos cruel com os personagens. Ninguém faz exatamente mal a ninguém, apesar de conflitos existirem aos montes.

Inspirado pelos românticos alemães, ele volta às imagens deslumbrantes e músicas grandiloquentes de seu trabalho anterior, “Anticristo”, exibido para o choque das plateias em Cannes dois anos atrás. Depois das cenas de abertura, que mais parecem mesmo quadros em movimento, passa-se à ação – e a primeira cena é engraçadíssima, com uma limusine tentando passar numa estrada tortuosa e estreita.

Getty Images
Lars Von Trier promove "Melancolia" em Cannes
Justine (Kirsten Dunst) é a noiva e acaba de se casar com Michael (Alexander Skarsgård). Sua irmã Claire (Charlotte Gainsbourg, que ganhou o prêmio de melhor atriz em Cannes por “Anticristo”) faz questão de toda a cerimônia. Mas as coisas começam dar errado, porque evidentemente a noiva não está nada feliz. No segundo capítulo, o filme dedica-se a Claire, a irmã controladora e apavorada de Justine, enquanto o planeta Melancolia aproxima-se perigosamente da Terra.

Como sempre, Von Trier mistura referências e trata de tantos assuntos que as interpretações podem ser variadas. Mas o diretor mostra que talvez esteja mesmo recuperado da depressão que o acometeu – e que, certamente não por coincidência, acomete Justine – e que tem um coração. Não há como ficar imune ao impacto do filme.

A coletiva de imprensa que se seguiu à exibição foi bem mais leve do que a de “Anticristo”, quando um jornalista começou pedindo a Lars Von Trier para explicar o filme. “O longa não é tanto sobre o fim do mundo, é sobre um estado mental. Passei por estágios melancólicos na minha vida. Estou feliz de estar aqui.”

Indagado se acha que seu trabalho é forte candidato à Palma de Ouro, respondeu, com ironia: “Sim, ah, sim!”. Ele também falou sobre seus comentários de que não teria ficado feliz com “Melancolia”. “Talvez tenha sido essa inspiração romântica que colocamos. Quando vi as fotos, eu rejeitei um pouquinho. Eu não tenho certeza. Talvez seja uma merda. Claro que eu espero que não. Mas existe uma grande possibilidade de que não valha a pena.”

AFP
Charlotte Gainsboug e Kirsten Dunst no festival
Von Trier provocou gargalhadas ao dizer que, no segundo trabalho com Charlotte Gainsbourg, a conhece muito bem, “de todos os ângulos”. Depois, disse que fez uma escolha óbvia colocando Udo Kier como homossexual. “E ele fez fantasticamente. Não sei de onde tira isso”, afirmou sobre o ator, abertamente homossexual. Provocou dizendo que seu próximo filme será pornô, estrelando Kirsten e Charlotte novamente. “Fizemos essa cena em que a Kirsten aparece nua, mas eu disse que ela não se encaixava neste filme. Kirsten insistiu, sabe como são as mulheres. No filme pornô, estou querendo conversar sobre os diálogos, mas elas disseram que não se importam, querem fazer algo bem hardcore. Vai ter 3 ou 4 horas, assim a coletiva vai ser um pouco mais tarde para a gente poder dormir um pouco mais”, afirmou.

No final, fez mais provocações sobre a influência da cultura germânica em sua vida. “Eu achava que era judeu, era muito feliz por isso. Mas aí descobri que era nazista, quer dizer, minha família era alemã”, começou. “Eu entendo Hitler. Claro que ele fez algumas coisas erradas. Mas eu o compreendo. Claro que não sou a favor da Segunda Guerra, não sou contra judeus, nem Susanne Bier (a diretora de “Em um Mundo Melhor”), Israel é complicado. Mas e agora, como termino essa frase?” Sua última resposta foi se gostaria de fazer algo em escala maior, em Hollywood. “Nós nazistas temos tendência em fazer as coisas em escala maior. Talvez eu pudesse ser persuadido.” Mais tarde, o diretor pediu desculpas públicas pela brincadeira com Hitler.

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