"La Piel que Habito" é um thriller frio de Almodóvar

Diretor espanhol experimenta em novo gênero sem a leveza, dramaticidade e o apuro visual habituais

Mariane Morisawa, enviada especial a Cannes |

Divulgação
Antonio Banderas em "La Piel Que Habito", de Pedro Almodóvar
Pedro Almodóvar sempre gostou de brincar com os gêneros. “La Piel que Habito”, exibido para jornalistas na manhã desta quinta-feira (19), na competição do Festival de Cannes , é um filme de terror. Antonio Banderas volta a trabalhar com o diretor no papel de um médico bem monstro, um tipo de Dr. Frankenstein. Ele é Robert Ledgard, um especialista em transplante de pele que mantém a paciente Vera (Elena Anaya) como refém em sua casa, com a cumplicidade de sua mãe (Marisa Paredes). Ela tem um outro filho, o brasileiro Zeca (Roberto Álamo), igualmente perturbado.

Almodóvar volta a temas caros a sua obra, como os duplos, o sexo, a violência. Mas sem a leveza dos longas antigos ou a dramaticidade dos recentes – e, de forma mais impressionante, sem o mesmo apuro visual. É sempre excitante quando o cineasta espanhol troca de gênero, mas, desta vez, o resultado é um pouco frio, o que causa estranheza para quem conhece seu trabalho.

Na coletiva de imprensa que se seguiu à exibição, o diretor comentou o trânsito por vários gêneros. “Comecei com comédia pop, passei para melodrama... Sempre é o gênero que mais me interessa no momento. O thriller reúne mais possibilidades de compartilhar com outros gêneros, porque sou incapaz de respeitar as regras. Não sei qual vai ser o próximo filme, mas é provável que volte ao thriller”, disse o cineasta, que se inspirou nas produções de Fritz Lang e pensou em rodar um longa-metragem em preto e branco e mudo.

Getty Images
Almodóvar e Banderas durante a promoção do filme em Cannes
Para Almodóvar, o personagem de Antonio Banderas não o representa. “Um diretor é o mais parecido com Deus, ele pode colocar em prática de suas fantasias, é o máximo poder que se pode ter. O personagem de Antonio pode criar uma nova pele, algo importante, que nos identifica e nos separa dos demais. É um personagem que desde o princípio é um psicopata, não tem escrúpulos. Não sou exatamente assim.”

Almodóvar explicou por que tornou irmãos Robert e Zeca, um homem brasileiro violento que entra na casa, vestido de tigre. “Eles são parte de uma família, uma família selvagem. Quis localizar essa família no Brasil porque há uma grande tradição de cirurgia plástica. A primeira vez que ouvi falar desse assunto foi com o nome do doutor Pitanguy. Nem sei se ele está vivo ainda, se estiver, é muito velho”, explicou o diretor. “A cultura dessa família não está baseada em castigo e pecado, como a que nasci e vivi. Os dois filhos são violentos e amorais.”

Mais tarde, ele comentou sobre sua fascinação com a cultura brasileira e a menção à Bahia. “Adoro, já estive quatro vezes na casa de Caetano Veloso. Só pude incluir um elemento da cultura brasileira, a canção ‘Pelo Amor de Amar’, numa gravação para a trilha do filme ‘Os Bandeirantes’, para indicar minha fascinação pela música brasileira.”

Banderas falou sobre a economia de gestos de sua atuação, em que ele abdicou de seu charme habitual. “É o ápice de uma lição aprendida, de que a criação não está nos lugares comuns, nos truques, nos artifícios, mas num espaço de caminhos muito complexos. Pedro sempre teve habilidade de me situar nesse terreno”, afirmou.

“Com o tempo sabemos que o personagem tem certo tormento, mas isso quase não aparece em frente à câmera", comentou o ator. "E isso se junta com a psicopatia do personagem. É um terror frio, algo que vai se infiltrando e que deve seguir o espectador. Pedro não me deixou sorrir muito. Agradeço e reconheço que foi difícil.” Para o ator, voltar a trabalhar com Almodóvar foi como voltar “a meu país, a minhas raízes, à minha casa”.

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