Godard comemora 80 anos em Cannes

Cineasta símbolo da Nouvelle Vague chega ao festival com Film Socialisme

Ricardo Calil, colunista do iG |

Divulgação
Cena do misterioso Film Socialisme , filme que o cineasta Jean-Luc Godard lança no Festival de Cannes

Jean-Luc Godard não combina com efemérides. Afinal, o cineasta franco-suíço tornou-se, ao longo de sua carreira, sinônimo de inconformismo, de iconoclastia, de inquietude intelectual – um espírito de vitalidade contrário à ideia de estagnação contida nas datas comemorativas. Mas, para o séquito de adoradores do diretor, 2010 é tempo de dupla celebração: Godard chega aos 80 anos de vida (em 3 de dezembro), ao mesmo tempo em que Acossado , seu essencial longa-metragem de estreia, faz cinco décadas de lançamento. Para completar a festa, a maior e melhor biografia do cineasta – escrita por Antoine de Baecque, co-autor da biografia de François Truffaut – acaba de ser lançada na França.

Como convém a um cineasta que sempre foi jovial (mas que, desde a infância, lembra fisicamente um velho, paradoxo sabiamente notado pela mulher de um amigo), Godard pretende celebrar olhando para a frente – e não pelo retrovisor. Ele lançará seu novo filme, Socialisme , no Festival de Cannes que começa este mês. Não há muitas informações sobre o trabalho. Aparentemente, o cineasta junta personagens diversos como a cantora americana Patti Smith, o filósofo francês Alain Badiou e o historiador palestino Elias Sanbar em uma viagem de navio para promover uma reflexão sobre a falência das ideologias neste início de século 21 – exercício parecido ao que havia feito em Nossa Música , seu longa anterior, de seis anos atrás.

Reprodução
O cineasta francês Jean-Luc Godard
De qualquer forma, o que importa, num filme de Godard, nunca é o “sobre”, e sim o “como”. É a maneira que ele adota para abordar uma questão qualquer que torna sua obra única na história do cinema. Que faz com que seus seguidores – um grupo cada vez mais restrito, infelizmente, mas sempre fiel – esperem cada novo filme com o mesmo tipo de ansiedade e excitação despertado por Acossado 50 anos atrás.

Com a cinefilia ostensiva e os cortes descontínuos de seu primeiro longa, Godard tornou-se, da noite para o dia, o principal ícone da revolução cinematográfica promovida pela turma da mítica revista Cahiers du Cinema que criaria o movimento batizado de “nouvelle vague” (Truffaut, Eric Rohmer, Jacques Rivette, Claude Chabrol e outros). Mas, em vez de abraçar o cinema narrativo ou se adequar a um estilo reconhecível, como seus colegas fariam ao longo de suas carreiras, Godard se impôs a obrigação de continuar a revolução em cada um de seus filmes posteriores.

Foi assim nos agridoces anos de nouvelle vague na década de 60, com os românticos filmes protagonizados pela musa dinamarquesa Anna Karina, então sua esposa. Foi assim nos engajados anos de cinema marxista a partir do Maio de 68, com experimentalismos de linguagem ainda mais radicais e questionamentos da autoria da obra de arte (que o levaram a trocar a assinatura individual pela do coletivo Dziga Vertov). Foi assim também nas suas obras de maturidade dos anos 80, 90 e 00 – que, em meio à hegemonia dos blockbusters hollywoodianos e pelo desinteresse do cineasta em adular o público, colaram em Godard a fama de difícil, de hermético, de radical.

Godard tem uma bela frase sobre a produção cultural contemporânea que ajuda a definir seu cinema: “Existem normas e exceções. A cultura pertence à norma e a arte, à exceção. Todas essas coisas pertencem à norma: cigarro, computador, camisa, televisão, turismo, guerra. Nada pertence às exceções”. Godard, claro, é excepcional, no sentido original do termo. 2010 é um ano perfeito para celebrar a exceção, até para que ela não seja engolida de vez pela norma. Happy birthday, monsieur Godard.

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