Dono de locadora leva curta a Cannes

¿Ir ao festival é como ganhar na loteria¿, comemora Cavi Borges, diretor do filme

Mariane Morisawa, enviada especial a Cannes |

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Dirigido com Gustavo Melo, curta-metragem A Distração de Ivan é resultado de "cinema de parceria"
Cavi Borges era judoca quando se machucou, pouco antes de ir para a Olimpíada de Atlanta, em 1996. Resolveu então investir num novo negócio e abriu a Cavídeo, locadora que criou fama no Rio de Janeiro por investir em eventos e em filmes difíceis de encontrar em outros lugares. Depois de um tempo convivendo com gente do cinema, Carlos Vinícius sentiu vontade de dirigir. Aos 33 anos, já produziu 42 curtas e 3 longas, quase sempre com prêmios recebidos por outros filmes, apoios de empresas e dinheiro próprio – somente dois curtas tiveram dinheiro de editais. Agora, prepara-se para desbravar o Olimpo do cinema, o Festival de Cannes. Seu curta A Distração de Ivan , dirigido em parceria com Gustavo Melo, está na mostra paralela Semana da Crítica. Cavi falou ao iG sobre o filme e a carreira:

iG: Como nasceu A Distração de Ivan ?
Cavi Borges: Não sou um bom roteirista e queria inscrever um roteiro no edital da Petrobras. Pedi “emprestado” para meu amigo Gustavo Melo, do grupo Nós do Morro, algum roteiro que já estivesse pronto – o Gustavo é um grande roteirista e sempre escreve histórias legais. Ele tinha essa história que falava da sua infância em Brás de Pina, subúrbio do Rio. Mostrava de forma poética um momento de passagem da infância para a adolescência desse menino de 11 anos.

O que sentiu quando soube que tinha sido selecionado para a Semana da Crítica em Cannes?
Realmente demorei para acreditar. São cerca de 2 mil filmes para serem selecionados apenas 7. É como ganhar na loteria. Reli o e-mail de seleção umas dez vezes para ter certeza de que era verdade.

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Dos tatames para trás das câmeras: "Fazer cinema é um vício", diz Cavi Borges
Qual sua expectativa em apresentar o filme lá?
Não gosto de criar muita expectativa. Sempre que espero algo, não ganho nada. Só a visibilidade que o filme vai ter já é uma grande vitória. Meu objetivo é que ele seja visto pelo máximo de pessoas possível, que essa seleção em Cannes leve o filme para muitos outros festivais.

Você era judoca quando abriu uma videolocadora. Por que resolveu arriscar neste negócio?
Quando me machuquei e não pude ir à Olimpíada de Atlanta em 1996, fiquei meio deprimido e resolvi que precisava de outra atividade. Sempre fui empreendedor e já vendia material de judô que trazia de viagens internacionais. Naquela época, a televisão por assinatura estava chegando ao Brasil, e uma série de locadoras estava fechando. Essas locadoras vendiam seus filmes por 2 reais. Comecei a comprá-los e acabei ficando com uma coleção de 200 filmes. Também tinha voltado de uma viagem a Nova York e vi muitas lojas com artigos de cinema (pôsteres, CDs, postais, camisas). Resolvi abrir uma loja que fosse metade locadora e metade lojinha. Nessa época não entendia nada de cinema. Era uma coisa para ganhar dinheiro mesmo.

Que tipo de filme assistia?
Só blockbusters mesmo. Também gostava muito de filmes de artes marciais.

Como a abertura da locadora mudou seu gosto para cinema?
A locadora era frequentada por artistas. Sempre pediam por filmes “de arte”. Percebi o grande interesse por esse tipo de filme e achei que poderia ser um diferencial. Cada pessoa que ia pedir um filme de um diretor (tipo Fellini, Tarkovski, Cassavettes), eu anotava, pesquisa e tentava ver o que tinha lançado no Brasil. Comecei a me interessar por esses filmes e a frequentar os cinemas de arte do Rio. Inicialmente era uma verdadeira tortura, mas fui me acostumando com o tempo dos filmes e passei a gostar. Achava que nunca iria gostar de diretores como Truffaut e Godard. Mas tudo é um grande exercício. Você vai vendo, aprendendo, entendendo e gostando. Leva um tempinho. Com todo mundo é assim. Quando você está acostumado a ver só filme americano e pega um desses, é um saco. Hoje, as coisas se inverteram. Tenho achado chato ver esses filmes enlatados.

Você produz muito. Como faz para conseguir produzir tanto?
Fazer cinema é um vício. Eu acabo um filme e já entro em outro. Hoje, estou envolvido em vários projetos ao mesmo tempo. Enquanto escrevo o roteiro de um, estou filmando outro e finalizando outro. Não consigo ficar anos trabalhando em um único projeto. De tanto fazer, e sempre sem grana, juntamos uma turma que ajuda um no filme do outro. Uma espécie de cooperativa. Com muito pouco dinheiro, fazemos um filme. Não precisamos esperar aparecer um patrocínio ou ganhar um edital. Chamo isso de “cinema de parceria”.

Está mais fácil fazer filmes hoje em dia?
Depende muito do filme que você quer fazer. Com certeza, as novas tecnologias baratearam muito e facilitaram esse processo. Mas fazer filme não é só ter dinheiro ou meios. Acho que o que ajudou muito também foram as várias faculdades e cursos que começaram a surgir nos anos 2000. O acesso à informação e a formação são fundamentais para esse crescimento.

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