5x Favela: visão de dentro e otimismo

Exibido fora de competição, filme de cinco episódios dirigidos por cineastas vindos de comunidades cariocas tem roteiro redondinho

Mariane Morisawa, enviada especial a Cannes |

Divulgação
Cena de um dos filmes dirigidos pelos jovens da nova versão de 5x Favela
A exibição para imprensa de 5x Favela – Agora por Nós Mesmos atraiu pouca gente na manhã desta terça-feira (18) – a sessão oficial foi às 17h. Mas o filme em episódios, que passa em sessão especial, fora de competição em Cannes, tem qualidades enquanto cinema.

Em 1961, 5x Favela representou um dos marcos iniciais do cinema novo e inaugurou a carreira de cinco jovens cineastas, ainda na universidade: Cacá Diegues, Leon Hirszman, Joaquim Pedro de Andrade, Miguel Borges e Marcos Farias. O filme foi feito pelo Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes e apresentava novas visões sobre a favela.

Quase 50 anos mais tarde, sete jovens cineastas também estão sendo revelados numa outra versão. Só que esses sete jovens cineastas não são jovens de classe média, mas moradores de comunidades cariocas. Estava mais do que na hora de dar visibilidade a esse olhar vindo de dentro.

Apesar de ser um filme em episódios, o produtor Cacá Diegues e os diretores Manaíra Carneiro e Wagner Novais ( Fonte de Renda ), Rodrigo Felha e Cacau Amaral ( Arroz com Feijão ), Luciano Vidigal ( Concerto para Violino ), Cadu Barcellos ( Deixa Voar ) e Luciana Bezerra ( Acende a Luz ) conseguiram alcançar uma unidade rara nesse tipo de produção.

Os cinco capítulos de roteiro redondinho procuram evitar os estereótipos dos filmes de favela, mostrando a realidade dura sem abdicar da alegria e do humor, traços afinais fundamentais do povo brasileiro. A violência e a pobreza, obviamente, estão presentes em todos, mas procurando a sensibilidade e quase sempre buscando soluções esperançosas e remediadoras.

É verdade que algumas vezes parecem um tanto ingênuas, embora a intenção seja legítima. Em Fonte de Renda , por exemplo, quase tudo dá errado quando o garoto (Silvio Guindane), um aluno brilhante na Faculdade de Direito, apela para conseguir a grana para livros e transporte. No divertido Arroz com Feijão , um garoto tenta arrumar um frango para o jantar de aniversário do pai e acaba cometendo um delito, mas se corrige.

O mais violento é mesmo Concerto para Violino , em que um policial (Samuel de Assis) vê-se confrontado com os amigos de infância, o traficante Jota (Thiago Martins) e a namorada dele, Márcia (Cintia Rosa), numa invasão da favela por um grupo rival.

AFP
Os diretores: Luciano Vidigal, Wagner Novais, Manaíra Carneiro, Luciana Bezerra, Cadu Barcellos, Cacau Amaral e Rodrigo Felha
À tarde, os sete cineastas estavam animados num bate-papo com os jornalistas brasileiros antes da sessão oficial do longa-metragem. Luciana Bezerra – vencedora do Candango de melhor curta de ficção no Festival de Brasília de 2004, por Mina de Fé – disse que sua intenção era mesmo fazer um filme para cima. “Queria mostrar que pobre é alegre. Todo o mundo acha que pobre é triste, mas minha família é pobre, e todos são alegres”, afirmou. Luciano Vidigal, ator e diretor do grupo Nós do Morro e dono do filme mais denso, contou que seu grande desafio era “humanizar os estereótipos que existem sobre favelas”.

Já Wagner Novais, que faz seu primeiro filme, estava preocupado com a questão da representação. “Queria colocar um pouco de mim no filme. Um pouco, não, muito”, disse. “Tinha de pensar que minha avó, meus amigos de infância iam ver. A gente está ali representado. Mas não queria fazer nada depressivo.”

Os sete diretores vieram de comunidades diferentes e estão ligados a diversas organizações chamadas a participar das oficinas de roteiro e de produção, de onde saíram os textos, a equipe e boa parte dos atores dos cinco filmes. Luciana Bezerra e Luciana Vidigal são do Nós do Morro, do Vidigal. Manaíra Carneiro saiu de Higienópolis, enquanto Cacau Amaral veio de Duque de Caxias. Rodrigo Felha é da Cidade de Deus, Wagner Novais mora na Taquara, mas foi criado na Cidade de Deus, e Cadu Barcellos vive no Complexo da Maré.

“A gente também quis mostrar que favela não é tudo igual. Nenhum lugar é como nenhum outro lugar, há coisas que são próximas e outras que diferem”, disse Luciana. Não necessariamente, porém, eles rodaram em suas comunidades. Cadu queria filmar na Maré, mas acabou na Cidade de Deus. Todos foram unânimes em dizer que não existiu imposição nenhuma por parte de Cacá Diegues. “É um filme de autor”, disse Wagner.

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