Palma de Ouro para “Amour” mostra júri conservador

Nanni Moretti admite que houve divisão no júri na premiação que privilegiou cinema realista

Mariane Morisawa, enviada especial a Cannes |

A vitória de Michael Haneke reflete um júri conservador. O diretor é um mestre, verdade, mas veio ao Festival de Cannes 2012 com um filme menor, uma peça de câmara em vez de uma obra para orquestra ousada tematicamente e esteticamente, como deveria ser uma vencedora de Palma de Ouro. Mas é preciso lembrar que o próprio presidente do júri, Nanni Moretti, ganhou o mesmo prêmio com um longa-metragem belo e convencional, “O Quarto do Filho”.

A sua preferência ficou insinuada na coletiva do júri após a cerimônia de premiação, na noite do domingo (27). Pelo que deu a entender, por ele, “Amour” teria levado muitos outros troféus, não fosse a proibição de conceder um segundo prêmio aos ganhadores da Palma de Ouro, do Grande Prêmio do Júri e de melhor direção.

Os longas mais ousados, como “Post Tenebras Lux” , de Carlos Reygadas, que acabou escolhido melhor diretor, e “Holy Motors” , de Leos Carax, queridinho da crítica francesa, geraram muita controvérsia entre os jurados, junto com “Paradies: Liebe” , de Ulrich Seidl, admitiu Moretti.

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Michael Haneke, diretor que recebeu a Palma de Ouro em Cannes
“É impossível uma unanimidade para todos os prêmios. Nenhum dos membros do júri está totalmente contente, é preciso encontrar um caminho do meio”, disse o presidente. No caso do troféu de melhor diretor para Reygadas, ele comentou: “Digamos que, como nos outros prêmios, havia alguns jurados que gostaram da linguagem cinematográfica original e do risco que o realizador correu e acharam que as imagens e emoções do filme continuaram a crescer. Outra parte dos jurados não entrou na proposta. Fizemos um esforço enorme para acomodar todas as sensibilidades.”

Por sua fala, dá para imaginar que ele era um dos que não entraram na proposta, uma coleção de imagens de sonhos e memórias. Por duas vezes, ele passou a palavra para Raoul Peck e Andrea Arnold discutirem a premiação da produção destruída pela crítica francesa. “É um filme corajoso, terno, cheio de amor, um dos poucos que ousaram falhar”, disse a cineasta inglesa.

Quando indagado sobre a preferência do júri por um cinema mais realista, Moretti falou: “O estilo de Ken Loach me parece muito diferente do estilo de Haneke, que me parece muito diferente do estilo de Reygadas, que é muito diferente de Mungiu etc. etc.”.

Leia também: "Amour", de Michael Haneke, ganha a Palma de Ouro de Cannes

Mas o jornalista que perguntou tinha razão. Tanto “Amour” quanto “Dupa Delauri” , de Cristian Mungiu, vencedor de roteiro e atuação feminina, “The Angel’s Share” , de Ken Loach, prêmio do júri, e “Jagten” , de Thomas Vinterberg, ganhador do merecido troféu de interpretação masculina para Mads Mikkelsen, estão no registro realista e são pouco ousados em termos de linguagem – Moretti disse que alguns cineastas estavam “encantados demais com seu próprio estilo”.

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Mads Mikkelsen, de "Jagten", considerado o melhor ator de Cannes
O fraco “Reality” , de Matteo Garrone, surpresa como Grande Prêmio do Júri, mistura fantasia e realidade, mas só Carlos Reygadas realmente apostou num cinema mais poético e de risco. No fim, a premiação também é um reflexo de uma seleção morna e pouco ousada em termos de linguagem.

Cannes decepcionou por não se mostrar o farol que aponta caminhos novos para o cinema, papel esperado do festival mais importante do mundo, e o júri também preferiu algumas obras mais convencionais do que “V Tumane” , de Sergei Loznitsa, por exemplo.

Todo sorrisos na coletiva após a cerimônia, Michael Haneke aceitou a definição de uma jornalista de que, no fim, é um romântico. “Se você quiser, sou um romântico”, disse, sorrindo. “É um filme sobre o amor. Os jornalistas gostam de rotular. Antes eu era especialista da violência, agora sou especialista em amor. Não é uma questão do cineasta, mas do tema.”

Carlos Reygadas posou com o diploma de melhor diretor na cabeça e disse que o prêmio não era uma revanche contra as críticas negativas recebidas pelo filme. “Agradeço tanto os jornalistas que amam quanto os que odeiam. Ambos são muito importantes para mim”, afirmou. “Quis partilhar minha vida, meus sonhos, com meus irmãos e irmãs, que são vocês.”

O ator Mads Mikkelsen provocou aplausos entusiasmados na coletiva de imprensa. “Foi surpresa, sei que houve muitas performances fantásticas neste ano. Acima de tudo, fiquei muito tocado, o que não é normal para mim, porque normalmente sou relax. Quase chorei. Foi um grande momento para mim e para o filme. Você não pode ser bom num filme ruim, isso aconteceu porque Thomas Vinterberg fez um trabalho maravilhoso.”

A coprodução França-Brasil “Na Estrada” , dirigida por Walter Salles, foi ignorada pelo júri. 

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