Briga pela Palma de Ouro do Festival de Cannes é imprevisível

Michael Haneke e Cristian Mungiu são apontados como favoritos ao prêmio máximo do evento

Mariane Morisawa, enviada especial a Cannes |

O júri presidido por Nanni Moretti vai ter muito trabalho para escolher a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2012 . Não porque haja disputa demais ou de menos, mas porque, simplesmente, não existem candidatos óbvios para levar o prêmio principal do evento, cuja cerimônia de encerramento acontece no domingo (27).

É a primeira vez em cinco anos que isso acontece. Em 2011, “A Árvore da Vida”, de Terrence Malick, foi vaiado e tudo, mas era claramente o filme mais ambicioso e brilhante da competição. Não deu outra: levou o troféu do júri presidido por Robert De Niro. A Palma de Ouro também ficou evidente logo que foi exibida em 2010, com “Tio Boonmee, que Pode Recordar Suas Vidas Passadas”, de Apichatpong Weerasethakul, em 2009, com “A Fita Branca”, de Michael Haneke, e em 2008, com “Entre os Muros da Escola”, de Laurent Cantet.

A Palma de Ouro ideal une ousadia estética, tema forte e realização próxima do perfeito, com algo de arrebatador. E isso não houve nesta seleção de vários filmes bons de ver no cinema, mas poucos de ganhar prêmio em festival.

Um dos problemas foi a expectativa: a maior parte dos diretores mais aguardados do festival veio com filmes assumidamente menores ou menos impactantes do que seus trabalhos anteriores. Foi o caso de Michael Haneke e seu “Amour”, de Jacques Audiard e seu “De Rouille et d’Os”, de Abbas Kiarostami e seu “Like Someone in Love”, de Matteo Garrone e seu “Reality”, de Cristian Mungiu e “Dupa Dealuri”, de Sergei Loznitsa e seu “V Tumane”. De qualquer maneira, o Festival de Cannes é um universo fechado de 22 filmes, e o júri vai ter de escolher entre os longas que foram apresentados, mesmo sem unanimidades.

Dois dos favoritos da crítica durante o evento, “Amour”, de Michael Haneke, e “Dupa Dealuri”, de Cristian Mungiu, certamente são concorrentes fortes. O primeiro é um drama nada sentimental sobre o amor e a morte, e o segundo, um filme sobre amizade, religião e oportunidade. Na comparação, é uma disputa entre a execução perfeita de Haneke, vencedor da Palma de Ouro em 2009, e a complexidade da narrativa de Mungiu, ganhador do prêmio em 2007.

Fez barulho também a maluquice de Leos Carax em “Holy Motors”, sobre um homem vivendo vários papéis durante o dia. É original, mas também um material que divide opiniões, na linha “ame-o ou deixe-o”. Difícil apostar que possa realmente levar a Palma de Ouro, a não ser que alguém bata o pé e ganhe a briga. É mais provável que termine com um troféu de consolação, que pode até ser o segundo lugar, ou Grande Prêmio do Júri.

“De Rouille et d’Os” pode não ser o que se esperava de Jacques Audiard depois do contundente “O Profeta”, mas cresceu ao longo da semana, com sua história de amor em tempos de crise.

Mas o filme que realmente parece ser capaz de tirar a Palma de Ouro das mãos de todos esses é “V Tumane”, de Sergei Loznitsa, sobre os efeitos da guerra nas vidas privadas e no posicionamento dos indivíduos em relação ao mundo, por meio da história de um homem acusado injustamente durante a invasão da Bielorrússia pelos nazistas, em 1942. É um longa-metragem que reúne um tema importante, ambição estética, mesmo sendo mais clássico do que o trabalho anterior do diretor, “Minha Felicidade”, e realização sem falhas gritantes.

“Jagten”, a volta de Thomas Vinterberg à forma, é outro que pode ganhar algum troféu, mas dificilmente a Palma de Ouro, com outro viés da história do homem acusado injustamente, na Dinamarca de hoje. Mads Mikkelsen é forte candidato ao prêmio de melhor ator. Seus concorrentes mais fortes são Jean-Louis Trintignant (“Amour”) e Aniello Arena (“Reality”). Há muito menos concorrentes ao troféu de melhor atriz – um dos temas evidentes da seleção era masculinidade e violência, e em vários filmes quase não há mulheres à vista. As grandes favoritas, e praticamente únicas candidatas, são Marion Cotillard (“De Rouille et d’Os”), Emmanuelle Riva (“Amour”) e Cosmina Stratan (“Dupa Dealuri”).

“Na Estrada”, do brasileiro Walter Salles, tem poucas chances de Palma de Ouro, mas pode levar algum prêmio na distribuição dos troféus – normalmente, não são concedidos vários prêmios para um mesmo filme. É de se imaginar que seu tipo de cinema agrade ao presidente do júri, autor de filmes como “O Quarto do Filho” e “Habemus Papam”.

Os outros integrantes são os diretores Andrea Arnold (Reino Unido), Alexander Payne (EUA) e Raoul Peck (Haiti), o estilista Jean-Paul Gaultier (França) e os atores Hiam Abbass (Palestina), Emmannuelle Devos (França), Diane Kruger (Alemanha) e Ewan McGregor (Reino Unido). Eles anunciam na noite do domingo (tarde de domingo no Brasil) a Palma de Ouro, o Grande Prêmio do Júri e os troféus de direção, roteiro, ator, atriz e prêmio do júri.

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