"Kerouac mostrava que é preciso viver à flor da pele", afirma Walter Salles

Depois de exibir "Na Estrada" em Cannes, diretor brasileiro falou com o iG sobre o filme com Kristen Stewart e Viggo Mortensen

Mariane Morisawa, enviada especial a Cannes |

Um dia após a exibição para a imprensa e da sessão de gala seguida de seis minutos de aplausos de “Na Estrada” no Festival de Cannes 2012 , Walter Salles recebeu jornalistas brasileiros para um bate-papo sobre o filme, que levou oito anos para ficar pronto.

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A seguir, os principais destaques da conversa da qual o iG participou.

As outras versões do projeto
“Houve mais de 15 roteiros escritos desde 1950, que sempre terminavam com a morte e, portanto, punição de Dean (personagem inspirado em Neal Cassady). Nós não podíamos utilizar adaptações prévias, por questões de direitos autorais. O (roteirista) José Rivera não leu nenhuma, para não ficar influenciado.”

Como as entrevistas feitas antes da filmagem mudaram o roteiro
“Elas influenciaram bastante, inclusive nos diálogos. O contato acabou ampliando a postura original do livro. Muita gente diz que o Kerouac fez um relato da realidade, e acho que isso apequena o livro, um encontro entre o que foi dito e o que foi imaginado.”

Getty Images
Walter Salles e Kristen Stewart em Cannes
A escolha de Kristen Stewart muito antes de “Crepúsculo”
“O (compositor) Gustavo Santaolalla e o (diretor) Alejandro González Iñarritu falaram dela assim que viram um primeiro corte de ‘Na Natureza Selvagem’. Tive de anotar seu nome, porque nunca tinha ouvido falar de Kristen Stewart. Marquei um encontro, e ela me disse que era seu livro de cabeceira e que faria qualquer coisa para viver Marylou. Achei curioso a Kristen ter 16, 17 anos na época, a mesma idade da personagem, e uma identificação tão grande. Ela é uma atriz sensível e inteligente que segue qualquer ideia, não recusa a possibilidade de pular de para-quedas.”

Leia também: "Na Estrada" é redondo, mas não chega a empolgar

A participação pequena, mas fundamental, de Viggo Mortensen
“Ele é um renascentista, tem uma visão polifônica do mundo. E é apaixonado pela cultura beat. Trouxe as roupas, inclusive o chapéu e as armas, a máquina de escrever, uma pilha de livros infantis da década de 1940 para seus filhos no filme. Ele foi um parceiro ideal.”

Como foi convencer pessoas como Steve Buscemi a fazer pequenos personagens
“Eu parto do princípio de que não existe filme independente sem Steve Buscemi. Ele improvisou muitas coisas, que estarão no DVD. O livro, certamente, é um grande ponto de conexão, os atores sabiam que era papéis interessantes.”

Veja fotos e cartazes de 'Na Estrada - On the Road'

Por que gosta de filmes de estrada
“Eu talvez me repita dizendo que ‘Passageiro: Profissão Repórter’, de Antonioni, foi o que me levou ao cinema. Depois, me encantei com Wim Wenders e ‘Bye Bye Brasil’, uma apresentação do Brasil. Os filmes de estrada falam de onde você vem, quem você é e quem pode vir a ser. Em geral, o personagem está em crise existencial. E como instrumento cinematográfico é muito atraente, e a filmagem também, porque nenhum dia é como o outro. Se neva durante o verão na Patagônia, você tem de incorporar a neve.”

EFE
O diretor brasileiro Walter Salles sorri na coletiva de imprensa
Se o conservadorismo do cinema atual influenciou na maneira de rodar cenas de sexo e drogas
“Como filmamos de forma independente, não sentimos qualquer pressão. Nunca penso naquilo que deveria ser aceitável, penso apenas naquilo que estou sentindo. Tivemos muitas reuniões com distribuidores americanos que queriam que cenas fossem cortadas, aí não teve conversa. A vantagem de estar numa produção assim é que o diretor tem o corte final.”

Por que Jack Kerouac está tão na moda
“Ele mostrava que é preciso viver à flor da pele para despertar a consciência. É o oposto de viver em frente à TV, por exemplo. Hoje há essa impressão de imobilismo, ao mesmo tempo em que temos movimentos como Occupy Wall Street, Indignados e Primavera Árabe.”

Próximos projetos
“Quero dizer que nunca faço mais de um filme fora do Brasil ou da América Latina. Nunca viajo sem passaporte, para poder voltar. O cineasta é mais forte quanto mais próximo de suas raízes. Tenho dois projetos com a Fernanda Montenegro, além de outro com o Gael García Bernal e o Ricardo Darín, na Argentina.”

Assista ao trailer de "Na Estrada - On the Road":

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