Alain Resnais discute a arte, o amor e a morte em trabalho intelectual

Veterano cineasta francês volta ao teatro em seu novo filme, "Você Ainda Não Viu Nada"

Mariane Morisawa, enviada especial a Cannes |

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O diretor Alain Resnais (à esquerda) durante entrevista coletiva em Cannes
O veterano Alain Resnais volta ao teatro em “Vous N’avez Encore Rien Vu” (“Você Ainda Não Viu Nada”, na tradução literal do francês), exibido na manhã desta segunda-feira (21) dentro da competição do Festival de Cannes 2012 . O filme é uma junção das peças “Eurydice” e “Querido Antoine”, de Jean Anouilh.

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Começa com uma excelente abertura em que grandes atores – Michel Piccoli e Mathieu Amalric entre eles – recebem ligações telefônicas chamando-os para a leitura de testamento e funeral do seu amigo dramaturgo Antoine d’Anthac.

Chegando à sua casa numa vila no topo de uma montanha, os atores-personagens (todos mantêm seus próprios nomes) assistem a uma encenação filmada de “Eurydice” por um jovem grupo de teatro, ao mesmo tempo em que rememoram as suas participações nas peças de Antoine e começam a reencenar o texto também, mesmo sem ter as idades apropriadas para os papéis.

Não importa, pois Resnais estabelece um espaço não-realista para discutir como o amor, a morte, a memória e a arte em suas várias encarnações. É um trabalho intelectual, como sempre, mas sem o mesmo frescor de “Ervas Daninhas”, sua obra anterior.

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Sabine Azema e Pierre Arditi em "Vous N'avez Encore Rien Vu", de Alain Resnais
No início da tarde, Alain Resnais falou sobre seu fascínio pelo teatro. “Há algo que tenho pensado muito nos últimos dez anos, as pessoas normalmente dizem que existe uma diferença completa entre cinema e teatro, que um ator não trabalha no cinema da mesma maneira que no teatro e vice-versa. Que o teatro é nobre, e o cinema não é. Ouço isso desde que tinha 14 anos de idade. E falando como se ainda tivesse 14 anos, por que não se pode ter a mesma sensação no cinema?”

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Prestes a fazer 90 anos, o diretor francês Alain Resnais ergue a bengala e os braços
Segundo o cineasta, o curioso título começou como uma brincadeira. “Virou uma espécie de ditado, era o que estava escrito nas caixas e nos rótulos relacionados ao filme. Tem várias formas de interpretar. Por exemplo, o que nós terrestres sabemos com o que acontece na Terra e com nossa visão? Não podemos nem ver infravermelho. Se soubéssemos o que acontece realmente, poderíamos dizer: ‘Você ainda não viu nada’. Mas cada espectador pode ter sua versão do título. Ele apenas ficou, não foi nada muito pensado.”

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Os atores comentaram sobre seu trabalho com o diretor. Sabine Azema, mulher e parceira do cineasta há muito tempo, disse que não se preocupou com os outros atores. “Apareci no set, procurei Pierre Arditi (os dois fazem uma das versões de Eurídice e Orfeu, a outra é feita por Anne Consigny e Lambert Wilson). Nunca pergunto o que ele quer fazer, gosto de ser surpreendida. É uma personagem maravilhosa, não queria ouvir e ver o que Anne estava fazendo. Nunca soube o que ela estava fazendo ou o que outro casal estava fazendo.”

Hyppolyte Girardot, que trabalha pela primeira vez com o cineasta, pensou ser piada quando soube que ia fazer um filme de Alain Resnais. “Aí no roteiro estava lá meu próprio nome como nome do personagem. Só que o personagem dizia coisas horríveis das mulheres! Mas não me importo. Obrigado, Alain Resnais, por dizer: Girardot = pessoa horrível!”

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