Abbas Kiarostami filma sem começo nem fim em "Like Someone in Love"

Rodado no Japão, formato ousado do novo longa do diretor iraniano motivou vaias em Cannes

Mariane Morisawa, enviada especial a Cannes |

Reuters
O diretor Abbas Kiarostami entre os atores Tadashi Okuno e Rin Takanashi
“Meu filme não começa nem termina. E percebi que é isso o que acontece na vida também”, disse Abbas Kiarostami sobre “Like Someone in Love” (“como alguém apaixonado”, na tradução literal do inglês), na coletiva de imprensa da tarde desta segunda-feira (21). O longa-metragem, rodado pelo diretor iraniano no Japão, foi exibido na noite de domingo (20) em sessão para a imprensa, na competição do Festival de Cannes 2012 . Houve algumas vaias.

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Kiarostami nunca foi de se conformar às convenções. Seus filmes dentro de filmes do início da carreira deram lugar a exercícios mais elaborados de pura forma, como “Cinco” ou “Shirin”. No último, “Cópia Fiel” , rodado na Itália e com uma atriz principal francesa (Juliette Binoche), havia uma quebra no realismo, e os personagens passavam para uma encenação. Em “Like Someone in Love”, também, cada personagem pensa que o outro é uma coisa, mas não é bem assim.

Os protagonistas são uma jovem garota de programa (Rin Takanashi), que estabelece uma relação com um professor solitário (Tadashi Okuno) enquanto tenta lidar com o namorado ciumento (Ryo Kase). Ao mesmo tempo em que capta muito bem a alma japonesa, o cineasta faz um filme que parece se passar em uma realidade suspensa, ou num universo quase paralelo.

Todos esses elementos combinados fazem com que “Like Someone in Love” seja uma daquelas obras que só crescem à medida em que se pensa nelas – aquilo que toda obra de arte deveria aspirar fazer. Como disse o diretor a respeito da sua falta de começo e fim, “acho que o espectador pode adivinhar o que acontece no início e no final”. Mas é bem possível que sua estranheza e ousadia não agradem à maioria do júri.

Divulgação
"Like Someone in Love", de Abbas Kiarostami: universo paralelo
Na coletiva, Abbas Kiarostami comentou que rodar no Japão sempre foi uma piada para ele, porque não poderia imaginar uma cultura mais distante da sua. Como filmar no Irã está cada vez mais difícil, “por razões meio óbvias”, ele abraçou a chance de colocar sua teoria à prova. “Mas percebi que os seres humanos são todos iguais, apesar de suas diferenças”, afirmou.

Para uma jornalista que achou seu filme muito iraniano ou persa, respondeu: “Infelizmente, não sei o que é iraniano ou persa. Não sei uma definição precisa. Acho que quando você quer fazer um filme para um público internacional, tem de pensar internacionalmente. É bem fácil ver o que deveria ser evitado: ser iraniano ou persa demais, porque nem todos podem entender, não sei nem se eu mesmo posso entender.”

Acesse o especial do Festival de Cannes

O diretor comentou que mudou algumas cenas ao conversar com o ator Tadashi Okuno. “Mas isso é detalhe. Os personagens têm de ser universais e compreensíveis para todos. O que nos distingue de outras nacionalidades são coisas que eu não retrato nem nos meus filmes iranianos. Se você entendeu meu filme, isso significa que o que você sente e como você expressa seus sentimentos também está retratado no filme.”

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