Michael Haneke volta suave ao tratar da velhice em "Amour"

Novo trabalho do diretor, que ganhou a Palma de Ouro há dois anos, trata do amor de dois octogenários

Mariane Morisawa, enviada especial a Cannes |

A esperança de que o Festival de Cannes 2012 ganhasse um candidato evidente à Palma de Ouro na manhã deste domingo (20) desapareceu com a exibição de “Amour”, de Michael Haneke, ganhador do prêmio dois anos atrás com “A Fita Branca”. Não que o filme do austríaco seja ruim, pois, goste-se ou não do cineasta, talento, ele sempre teve. Mas falta a “Amour” aquele vigor típico dos ganhadores do troféu.

Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva, 85) são um casal de octogenários muito ativo e apreciador da cultura. Um dia, ela sofre um derrame, e o amor dos dois é testado com a deterioração da saúde de Anne. Isabelle Huppert, em seu terceiro longa com o diretor, faz a filha, Eva.

Reuters
Isabelle Huppert, Jean-Louis Trintignant e Michael Haneke na sessão de fotos de "Amour" em Cannes
“Amour”, como é do feitio de Haneke, não cai no melodrama e no sentimentalismo e mantém o mesmo tom grave o tempo inteiro. Mas também não tem aquela força dramática e violenta dos longas anteriores. Pode-se dizer que é suave. Talvez “Amour” sofra um pouco da comparação com o trabalho anterior do diretor, “A Fita Branca”, um dos melhores dos últimos anos. Os atores, como tem sido comum neste festival, estão brilhantes.

Na entrevista coletiva que se seguiu à exibição, Haneke disse que o filme nasceu de preocupações pessoais, não com a necessidade de falar sobre a velhice na sociedade moderna. “Não escrevo filmes para mostrar algo. Uma vez que você alcança uma certa idade, você tem de lidar com o sofrimento de alguém que você ama, isso é inevitável, na minha vida também. Não quis falar sobre a sociedade em si.”

Divulgação
Jean-Louis Trintignant em "Amour"
Mas ele escapou de dar mais detalhes, quando uma jornalista quis saber que experiências pessoais eram essas. “Você nunca vai ser bem-sucedida em tentar me interpretar e o que eu queria dizer.”

Jean-Louis Trintignant, 82 anos de idade e há 14 sem aparecer no cinema, contou por que aceitou o convite. “Haneke me ofereceu esse papel, ele é um dos grandes diretores do mundo, então foi uma exceção”, afirmou. “Mas não vai acontecer de novo. Foi muito doloroso, mas bonito também. Prefiro o teatro porque nunca me vejo. Foi a primeira vez que fiquei confortável de me ver na tela.”

Isabelle Huppert concordou e, mais tarde, indagada se era difícil fazer os personagens sofridos do diretor, respondeu: “Os atores não sofrem, são os espectadores que sofrem”.

Em outro ponto da entrevista, Trintignant fez a plateia e o diretor rirem ao contar como foi feita uma cena com um pombo: “Foi duro, porque Michael queria dirigir o pombo! E não o achou muito bom ator. O resultado é que ficamos dois dias filmando a cena. Acho até que havia dois pombos, porque o primeiro desistiu”.

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