"As crianças mentem para agradar aos adultos", diz Vinterberg

Diretor dinamarquês é aplaudido em Cannes com "Jagten", sobre professor injustamente acusado de abuso sexual

Mariane Morisawa, enviada especial a Cannes |

Reuters
O diretor Thomas Vinterberg (esq), durante entrevista em Cannes
Em 1998, o diretor dinamarquês Thomas Vinterberg assombrou o mundo com “Festa de Família”, um dos filmes do movimento Dogma-95. Depois disso, ele foi ladeira abaixo. Mas recuperou um bocado de vigor com “Jagten”.

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A sessão de imprensa aconteceu na noite do sábado (19) e teve a recepção mais calorosa até agora, provocando inclusive uma reação com aplausos num determinado momento-chave da trama.

Vinterberg pesquisou vários casos de pessoas acusadas injustamente de abuso sexual, como contou na entrevista coletiva do filme, no final da manhã deste domingo (20). O longa é um dos 22 competidores pela Palma de Ouro na 65ª edição do Festival de Cannes.

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“Mas depois tivemos de sair da vida real e caminhar em direção do drama. É tudo ficção. Acho importante dizer que num caso como este as crianças são as vítimas, a criança mente para agradar aos adultos.” Em seguida, ele continou: “Há uma convenção de que as crianças sempre dizem a verdade. Dizemos que elas às vezes mentem e que mentem para agradar aos adultos”.

O protagonista é interpretado por Mads Mikkelsen, de “Fúria de Titãs”, um ator normalmente chamado para interpretar papéis viris. Mas seu Lucas é um cara legal, que se submete a todas as vontades da ex-mulher e tenta se reerguer depois de um divórcio feio trabalhando como professor numa escola infantil.

Divulgação
Mads Mikkelsen, o protagonista de "Jagten", de Thomas Vinterberg
Seu único traço mais masculino é participar de caçadas. Um dia, uma das suas alunas – e também filha de seu melhor amigo – conta para a diretora que ele a molestou. Uma mentira, como fica claro o tempo inteiro, que cresce como bola de neve e afeta a vida de Lucas em todos os sentidos. Parece muito o caso da escola Base, em São Paulo.

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Indagado sobre como trabalhou com a atriz-mirim Annika Wedderkopp, que faz a menina Klara, que acusa o professor de abuso, Vinterberg afirmou: “Ela é um talento natural. Todos os outros atores ficavam com medo. Não é porque eu sou um gênio, mas foi tudo ela. Claro que só contamos parte da história para ela”.

“Jagten” começa dando um pouco de medo, forçando a mão em algumas situações. Depois, no entanto, engrena com a clássica história do homem acusado injustamente, inclusive pelos amigos de infância. Mads Mikkelsen oferece uma das melhores performances do festival. O filme de Vinterberg não dá pinta evidente de ser um sério candidato à Palma de Ouro, mas pode muito bem levar algum outro prêmio.

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