Ousadia e inovação: o segredo do sucesso

Especialistas que passaram pela universidade, ou ainda estão lá, analisam o sucesso da UnB em apenas 48 anos de história

Priscilla Borges, iG Brasília |

Marcos Brandão/OBrittoNews
Estudantes caminham pelos corredores da UnB
A Universidade de Brasília tem praticamente a mesma idade de Brasília. Ousadia e vanguarda marcam os 48 anos de história da universidade. As hipóteses para que a instituição tenha ganhado tanto destaque variam. Todas, no entanto, têm origem no passado. A vanguarda, o investimento em pesquisa, os currículos mais abertos, a qualidade do corpo docente e dos estudantes são algumas das justificativas dadas por especialistas que passaram pela universidade, ou ainda formam estudantes por lá.

Primeiro, é preciso destacar a importância dos processos de seleção da UnB. Ao longo de anos de pesquisa e experiência, o Centro de Seleção e de Promoção de Eventos (Cespe) da instituição se especializou na aplicação de vestibulares e concursos. Professores e gestores são unânimes em reconhecer que os disputados vestibulares selecionam ótimos candidatos.

O Programa de Avaliação Seriada (PAS), no qual os estudantes do ensino médio têm a chance de fazer uma avaliação ao final de cada série do ensino médio, é considerado bom exemplo em todo o País. Provas integradas e que exigem conhecimentos de artes, música e teatro, além de filosofia e sociologia, avaliam estudantes mais completos.

Depois, a qualidade do corpo docente é ressaltada pelos especialistas. Dados da instituição mostram que dos 1.800 professores do quadro da UnB, 1,5 mil têm título de doutorado. A iniciativa de trazer bons profissionais para o Planalto Central, encampada por Darcy Ribeiro, ainda tem resultados.

"A visão daquele grupo de intelectuais que criou a UnB foi muito importante", acredita Joaquim José Soares Neto, presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e professor titular do Departamento de Física da UnB. Muitos quiseram ser professores inclusive por causa daqueles que passaram pela universidade.

A dedicação dos primeiros docentes, que tinham tempo para se dedicar à pesquisa e à docência em tempo integral, é uma herança que marca a atitude da instituição, na opinião de Jacques Velloso, professor emérito da Faculdade de Educação. "Fortaleceu-se também a pesquisa com a criação da pós-graduação e grupos de pesquisa interdisciplinares, que foram fundamentais", ressalta.

Além das avaliações do Ministério da Educação, exames de entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil reforçam a tese de que a UnB está entre as universidades mais conceituadas do Brasil. Nas provas realizadas para conceder a carteira de advogado aos bacharéis em Direito, o desempenho dos egressos da instituição está entre os mais altos do País.

Márcia Abrahão, decana de Graduação da UnB, conta que, no ano passado, a universidade foi considerada a melhor federal na área de Ciências Humanas pelo Guia do Estudante, ranking elaborado pela Editora Abril. Ela admite que o processo de seleção é fundamental para a seleção de estudantes com excelente potencial assumam as vagas. Mas acredita que as opções dadas pela instituição na trajetória acadêmica fazem diferença no sucesso da formação.

À frente do tempo

As inovações fizeram parte da UnB desde a sua criação, na forma como a universidade foi dividida ou na concepção dos cursos e currículos. Estar à frente de iniciativas faz parte do cotidiano de quem trabalha lá. Mesmo quando isso significa causar polêmicas, os gestores e professores garantem que vale a pena.

A UnB foi a primeira universidade federal a adotar reserva de vagas para estudantes negros, ainda em 2003. De lá para cá, milhares de estudantes cotistas entraram e muitos já se formaram. A cada semestre, 20% das vagas são destinadas aos candidatos que se declaram negros ou pardos. Além disso, desde 2004, criou um sistema específico de seleção para indígenas. 

A decana lembra que os alunos da UnB entram para o mesmo curso, mas se formam com históricos bastante diferenciados. É que os currículos de todos os cursos têm 70%, no máximo, de disciplinas obrigatórias. O restante das matérias que o universitário precisa concluir para obter o diploma deve ser escolhido por ele mesmo. A liberdade de estudar em diferentes departamentos e cursos é essencial e estimulada.

"A flexibilidade e a interdisciplinaridade dão ao aluno uma formação generalista, além disso, ele é estimulado a participar de pesquisas e extensão", afirma Márcia. O desafio da universidade agora é promover a reforma curricular em graduações que ainda precisam ser repensadas, como as licenciaturas.

Muitos cursos, inclusive, estão sendo criados à luz de uma proposta inovadora também: possuem vários donos. Em vez de um departamento ser o único responsável pela formação de determinados profissionais, a tutoria do curso está sendo dividida entre diferentes unidades.

Caso do curso de Ciências Ambientais, que é da Biologia, da Química, da Geologia, da Economia e do Centro de Desenvolvimento Sustentável. "Assim, estimulamos ainda mais a interdisciplinaridade da carreira", explica a decana.

UnB em números

4 campi estão em funcionamento (Plano Piloto, Planaltina, Ceilândia e Gama)
28 mil estudantes estão matriculados em cursos presenciais
5 mil são alunos de modalidades a distancia
89 graduações foram oferecidas no último vestibular
1.800 professores trabalham nos campi
5 mil estudantes fazem pós-graduação


Falas de professores e alunos

"A proximidade da UnB com o poder fortaleceu a qualidade do que se produzia na UnB. Além disso, ela fomentou debates políticos no Congresso Nacional, houve uma ebulição intelectual muito grande em Brasília por causa dos professores que vinham de fora. A universidade exerceu seu papel de fomentar idéias"
Octaciano Nogueira, cientista político, professor aposentado da UnB

Marcos Brandão/OBrittoNews
Antonio Teixeira

"A UnB era um mundo novo aberto para mentes inquietas. Isso me atraiu para Brasília. Na origem, ela tinha uma proposta revolucionária de buscar soluções para grandes questões nacionais, em todas as áreas do conhecimento"
Antonio Teixeira, professor da Faculdade de Medicina da UnB desde 1975 e pesquisador do Laboratório de Doença de Chagas da instituição

"Não há universidade sem corpo docente qualificado, capacidade técnica avançada com laboratórios equipados e apoio institucional para a pesquisa de base. E, claro, sem o apoio dos alunos. Os resultados da UnB são um somatório disso tudo"
Aldo Paviani, geógrafo, professor aposentado da UnB, começou a dar aulas em 1969

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Ciro Cordeiro

"Escolhi estudar na UnB pela qualidade do curso, dos professores e do ambiente acadêmico. Sonho em ser pesquisador"
Ciro Cordeiro, 23 anos, formado em Biologia pela UnB e aluno do mestrado

"Grandes nomes foram atraídos para a UnB seduzidos pela ruptura de certas estruturas tradicionais de universidade. Houve uma ruptura, com esse modelo, da grande distância entre professores e alunos. Havia a figura do professor orientador, que acompanhava o desenvolvimento do estudante. Além disso, Darcy acabou com as cátedras, criando os órgãos colegiados"
Sepúlveda Pertence, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, deu aulas na primeira leva de professores da UnB

"Acho que, no curso de biologia, há uma integração muito forte entre as aulas teóricas e a atividade prática. Isso contribui muito para a formação dos estudantes"
Mariana Hecht, 28 anos, estudante do pós-doutorado em Ciências da Saúde, pesquisa a doença de chagas

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Raul Cardoso

"A UnB nunca perdeu o espírito de resistência das primeiras pessoas que vieram para cá. É interessante porque a vocação da UnB é fazer com que as pessoas participem dela. Os espaços de convivência, sejam nos corredores ou nas salas de aula, permitem o encontro de pessoas muito diferentes, estimula a reflexão. A UnB cresce e se desenvolve junto com a cidade"
Raul Cardoso, 23 anos, coordenador do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UnB e formando do curso de ciência política

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