Os seis projetos que poderiam criar uma outra Brasília

Calçadas rolantes e prédios de 300 metros estavam previstos em projetos que perderam para a ideia de Lúcio Costa e Niemeyer

Pedro Alexandre Sanches, colaborador iG Cultura |

Esqueça-se por um instante de Brasília como todo mundo a conhece. Imagine que outra cidade foi construída na região Centro-Oeste, às margens do lago Paranoá, e que a capital do Brasil é constituída por sete "subcidades" iguais umas às outras. Cada "miniBrasília" agrupa cerca de 72 mil habitantes de variadas classes sociais, tem formato circular e é autossuficiente, com seus próprios centros comerciais, de lazer, educação, saúde, e assim por diante.

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Plano piloto do projeto de M.M.M. Roberto

Devido às curtas distâncias dentro de cada unidade, em seu interior os automóveis são desnecessários para o transporte de pessoas. Pode-se chegar ao coração central de uma subBrasília numa caminhada de 15 minutos, mas mesmo assim um sistema de calçadas rolantes facilita o deslocamento dos pedestres. As unidades são delimitadas por parques e matas, e a comunicação entre elas é feita por pontos de ônibus e estações de metrô (ou melhor, monorail) localizadas no coração de cada subcidade, todos ao nível do subsolo. O centro cívico, com a Praça dos Três Poderes, se espreme numa das margens do lago, ao lado do círculo mais central.

Essa Brasília não existe porque o projeto original concebido pelo escritório M.M.M. Roberto perdeu para o de Lúcio Costa, inventor da Brasília que todo mundo conhece, no Concurso Nacional do Plano Piloto da Nova Capital do Brasil, promovido entre 1956 e 1957 pelo governo Juscelino Kubitschek. As diversas possibilidades para a Brasília que poderia ter sido e não foi estão agora reunidas no livro O Concurso de Brasília: Sete Projetos para uma Capital (Cosac Naify), de Milton Braga, que apresenta e compara cada um dos sete premiados como primeiros colocados numa competição entre 26 propostas apresentadas.

A leitura e a contemplação de plantas, maquetes e projeções convidam a dar asas à imaginação, mesmo a quem não tenha familiaridade com os conceitos do urbanismo e da arquitetura. Se o concurso tivesse sido vencido pela equipe do arquiteto Rino Levi, por exemplo, os edifícios de Oscar Niemeyer teriam de se espalhar por uma Brasília completamente diferente do que é. Superblocos de 300 metros de altura (com dois niveis de garagem no subsolo, térreo e 20 andares habitáveis) dominariam a paisagem e concentrariam uma parte da população em grupos de cerca de 16 mil moradores.

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Maquete do projeto de Rino Levi

O texto de Milton Braga observa: "Nesse ponto, a proposta da equipe de Rino Levi é a grande exceção, tendo optado (...) por uma verticalização radical, a fim de incorporar o cerrado no dia a dia da cidade. A concentração de moradias próximas ao centro urbano e administrativo favoreceria o deslocamento a pé - nisso teríamos também uma Brasília oposta à que existe de fato e é famosa pela dificuldade que oferece à locomoção de pedestres".

Projetada por Borouch Milman e equipe, a Brasília que ficou em segundo lugar teria a forma geral de um L e seria uma cidade toda construída às margens do Paranoá, com o máximo de fachadas bem iluminadas voltadas para o lago, a fim de usufruírem o melhor cenário. Cada zona residencial alternaria casas e edifícios, uns de três andares, outros de doze. As penínsulas do lago, hoje ocupadas por mansões seria exclusiva de edifícios de vinte pavimentos.

O projeto de Milton Ghiraldini e equipe foi imaginado como um conjunto de quatro retângulos dispostos em torno de uma zona central (onde ficariam centro governamental, ministérios, embaixadas, centro cultural e comercial), e se preocupava especialmente com o aspecto humano da cidade. Seriam construídas superquadras 15 a 20 vezes maiores que um quarteirão comum, que teriam parques internos correspondentes à metade de sua área total. Veredas ligariam os núcleos de cada superquadra às suas casas e às superquadras vizinhas, por passagens superiores ou inferiores às ruas principais - o trânsito de pedestres seria livre e totalmente independente do de automóveis.

Completam a lista de finalistas esmiuçados no livro os projetos de Vilanova Artigas e da dupla Henrique Mindlin e Giancarlo Palanti. Todos tinham de atender à condição dada pelas regras do concurso de que a capital projetada tivesse no máximo cerca de 500 mil habitantes. Houve quem previsse a construção de satélites urbanos (caso de Borouch Milman) e quem imaginasse um crescimento ordenado e programado - as sete subcidades dos irmãos M.M.M. Roberto seriam progressivamente ampliadas a até 14, dispostas de modo mais periférico em relação ao lago Paranoá.

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Plano piloto do projeto de Borouch Milman

A Brasília real, como ela é hoje, está rodeada pelos bolsões de pobreza das cidades-satélite e soma cerca de 2,6 milhões de habitantes, segundo o IBGE. A grande omissão do plano piloto vencedor parece ser a falta de considerações quanto ao crescimento futuro da cidade, ou à criação de novos núcleos urbanos, afirma o texto de Braga. Em seguida, ele relativiza a questão: No entanto, esse não parece ser um problema intrínseco ao projeto vencedor do concurso, e sim um fruto da ausência de planejamento continuado após a inauguração da cidade, e, principalmente, do aumento da pobreza brasileira nas últimas décadas. A precariedade urbana da periferia de Brasília não difere em nada das imensas periferias surgidas nas demais grandes cidades brasileiras a partir dos anos 1960.

Além da recuperação dos projetos da Brasília que não houve, a aventura de O Concurso de Brasília contempla uma introdução escrita por Guilherme Wisnik, que dá mais asas à imaginação ao documentar, por exemplo, que a mudança da capital do país era cogitada por governantes desde ao menos 1808. E que a capital até então hipotética foi batizada sucessivamente como Nova Lisboa (à época da mudança da corte portuguesa para o Brasil), Cidade Pedrália (na declaração da independência), Imperatória (durante o período imperial), Tiradentes (na proclamação da República) e Vera Cruz (sob o Estado Novo de Getúlio Vargas), antes de virar Brasília para sempre.

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