Nascida sob o signo da polêmica, Brasília tornou-se consenso

Principal fato político do governo Juscelino Kubitscheck (1955-1960), a transferência do governo federal para Brasília foi uma decisão, na época, bastante polêmica. Enquanto a maioria do País defendia a mudança, a classe política do Rio de Janeiro posicionou-se radicalmente contra. Acreditava-se que a Cidade Maravilhosa seria esvaziada e perderia seu protagonismo nacional.

Adriano Ceolin, iG Brasília |

Cinquenta anos depois a discussão praticamente acabou. Há hoje quase que um consenso de que foi correta a decisão de se transferir para o cerrado central a sede do governo que viria abrigar a oitava economia mundial. Nem mesmo os políticos do Rio de Janeiro ousam criticar a mudança, enquanto seus colegas do Norte e do Centro-Oeste exaltam a mudança.

Militante do então Partido Republicano no fim dos anos 50, o hoje senador Paulo Duque (PMDB-RJ), 83 anos, foi um dos que se posicionaram radicalmente contra a ideia de JK. No Rio todo mundo era contra e eu não podia ser diferente. O povo ficou entristecido. A cidade deixaria de ser capital, ficaria esvaziada, disse.

Dois anos após a transformação da antiga capital em Estado da Guanabara, Duque elegeu-se deputado estadual. Ficou no cargo por oito mandatos consecutivos. Chegou a Brasília em 2007, como segundo suplente de senador. Ganhou a cadeira após a eleição de Sérgio Cabral (PMDB) para governador.

Brasília foi criada pelos candangos, mas principalmente pelos cariocas. Deu certo? Deu! De fato, o desenvolvimento do interior do Brasil ocorreu, disse Duque. E o Rio de Janeiro não deixou de ser importante. Ao contrário. Tornou-se um Estado que equilibrou a federação, até então dividida entre São Paulo e Minas, completou.

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A senadora Kátia Abreu
A senadora Kátia Abreu
A senadora Kátia Abreu (DEM-TO) afirmou que o Brasil foi redescoberto a partir da transferência da capital para Brasília. Isso ocorreu no momento na industrialização do País, em que houve migração do campo para a cidade, disse. Na década seguinte (1970), provamos que o cerrado podia ser uma potência agrícola, completou Kátia, que é também presidente da CNA (Confederação Nacional de Agricultura).

Senador pelo DEM do Goiás, Demóstenes Torres é ainda mais radical ao falar da importância da nova capital para o seu Estado. Se não existisse Brasília, Goiás seria um Estado mais pobre que o Piauí. Com capital, conseguimos dar impulso social, econômico e financeiro para o povo goiano.

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O deputado Fernando Gabeira
O deputado federal Fernando Gabeira
O deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ) era estudante no fim dos anos 50. Na época, sua preocupação era com os gastos exorbitantes para a construção da capital. Temia-se o impacto inflacionário por conta do tamanho dos investimentos públicos, disse. Também tinha gente que achava que a cidade ficaria vazia.

Hoje pré-candidato ao governo do Estado do Rio, Gabeira afirma que objetivo de mudança da capital foi alcançado. O deputado, no entanto, pondera que Brasília não é exatamente o que se desenhou do ponto de vista social.

A realidade é muito mais forte. Aquele projeto inicial de que ricos e pobres viveriam em conjunta no plano piloto (região central da capital) não existe, disse. Não contaram com as pessoas, com a enorme migração do Nordeste e o crescimento das cidades satélites, completou.

O senador Francisco Dornelles (PP-RJ) estudava nos Estados Unidos quando ouviu pela primeira vez que Brasília se transformaria na nova capital. Eu não acreditei. Achava que isso não concretizaria, disse. Do ponto de vista estratégico, era a favor. O Rio perdeu a mudança, mas o Brasil ganhou.

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Presidente do Senado José Sarney
Senador José Sarney
O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), estava em seu primeiro mandato como deputado federal (assumiu como primeiro suplente) quando a discussão sobre a criação da nova capital entrou em pauta. Ele era do PSD, partido de JK. Depois, migrou para UDN - sigla que fazia oposição ao presidente.

Hoje, Sarney avalia que a mudança de capital foi acertada. A mudança foi um imperativo dos tempos, uma decisão política que mostrou ser acertada. Aos trancos e barrancos, Brasília está cumprindo sua finalidade, disse. 

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