"Não me julgo um ícone de Brasília", diz Niemeyer

Aos 102 anos, o arquiteto afirma que o que mais gosta em Brasília é a "visão geral do Palácio do Congresso"

Andréia Sadi, iG Brasília |

Aos 102 anos, o arquiteto Oscar Niemeyer vai comemorar de longe o cinquentenário de Brasília, cidade que ajudou a projetar, no dia 21 de abril. Atualmente, Niemeyer mora no Rio, onde dribla os problemas de saúde naturais da idade e cumpre a sua rotina profissional. Conta com a ajuda de Dona Vera, sua ex-secretária e atual mulher, com quem casou aos 98 anos, para dar sequência a seus projetos. "Quando ele não vem ao escritório, por conta de alguma dor ou mal-estar, ele trabalha de casa e a dona Vera ajuda", disse um funcionário que trabalha no escritório, que fica na Avenida Atlântica, em Copacabana.

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Niemeyer em seu escritório, quando completou 100 anos

Assim como os prédios públicos que desenhou, Niemeyer é considerado patrimônio de Brasília. Deixou sua marca em diversas obras da cidade. No entanto, rejeita o rótulo de ícone da capital federal. "Gostaria de ser lembrado como um dos arquitetos que contribuíram para concretizar o sonho predileto do presidente JK", disse Niemeyer ao iG .

O arquiteto relembrou os tempos de trabalho na capital federal. Em 1956, foi nomeado pelo presidente Juscelino Kubitschek diretor do Departamento de Arquitetura da Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap), empresa encarregada da construção de Brasília. Em parceira com Lucio Costa, responsável pelo plano piloto da cidade,  trabalhou para desenhar a cidade.

Niemeyer também realizou projetos no exterior. Passou pelo Líbano, Portugal, França, Itália, Inglaterra e Argélia. Em 1967, exilou-se em Paris, onde projetou a sede do Partido Comunista Francês (1971). De volta ao Brasil, se dedicou ao Sambódromo e aos Centros Integrados de Educação Pública (Cieps), no Rio.

Nos anos 80 e 90, o arquiteto foi o responsável, em São Paulo, pelo Memorial (1987) e o Parlamento da América Latina (1991), e o MAC de Niterói (1991), no Rio.

Na véspera do aniversário da cidade, Niemeyer falou à reportagem. Confira:

iG: O aniversário de 50 anos de Brasília vai se aproximando e é inevitável fazer a ligação entre o nome do senhor e a cidade.  Por conta do papel exercido na construção de Brasília, o senhor se considera um ícone da capital?

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Congresso Nacional

Oscar Niemeyer: Estou muito consciente do carinho, do apreço que os brasilienses têm por mim. Isso me sensibiliza de modo especial. Afinal, é nesta capital que há meio século venho realizando os meus projetos, foi aí que me foi possível criar, nos inícios de tudo, os principais prédios públicos da nova capital. Mas não me julgo um ícone de Brasília. Gostaria de ser lembrado como um dos arquitetos que contribuíram para concretizar o sonho predileto do presidente JK.

iG: O que o senhor mais gosta na Brasília de hoje e o que mudou tanto que o decepcionou?

Oscar Niemeyer: Talvez a visão geral do Palácio do Congresso, a se destacar na Praça dos Três Poderes. Constatar como o palácio se integra nessa praça, graças à decisão que tomei de manter a sua cobertura no nível das avenidas, possibilitando àqueles que se aproximassem ver, por cima desta, entre as cúpulas projetadas, essa praça monumental. Com tal solução as cúpulas do Senado e da Câmara se fizeram mais imponentes, monumentais, exaltando a importância hierárquica que no conjunto representam. Um desamor pela nova capital, um certo descaso de alguns homens públicos permitiram que muita coisa fosse desvirtuada em Brasília. Penso sobretudo nos edifícios medíocres nela construídos, que vieram a desmerecer a unidade urbana tão desejada.

iG: Se o senhor pudesse refazer os planos de Brasília, o que mudaria?

Oscar Niemeyer: O autor do Plano Piloto, que considero muito bem concebido, é Lucio Costa. Sou, sim, o responsável pela criação dos principais palácios e demais edifícios públicos da nova capital. Foram todos desenhados com o maior interesse e entusiasmo: as soluções encontradas nos pareceram as mais adequadas na época em que foram projetados. Assim sendo, acredito que não modificaria nada de maior importância.

iG: O que o senhor acha da política brasileira hoje e como ela afetou a cidade?

Oscar Niemeyer: Como muitos brasileiros tenho me decepcionado bastante com a nossa classe política, com sua falta de compromisso com o destino do País. E essa postura reprovável tem desmerecido a gestão de Brasília e de outras cidades.

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