História e historietas da construção

Na época da construção de Brasília, duvidava-se da capacidade de encher o Lago Paranoá

Severino Motta e Fred Raposo, iG Brasília |

"José Bonifácio, em 1823, propõe a transferência da capital para Goiás e sugere o nome de Brasília".

Assim o Lúcio Costa iniciou o texto de apresentação de seu projeto, em março de 1957, para o chamado Plano Piloto da nova capital. Nele, o urbanista argumentava que sua proposta nasceu do gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse: dois eixos cruzando-se em ângulo reto, ou seja, o próprio sinal da cruz.

Antes mesmo de José Bonifácio, em 1761, o primeiro-ministro de Portugal, Marquês de Pombal, já havia proposto mudar a capital do império para o interior do Brasil.

E, em 1813,  o jornalista Hipólito José da Costa, fundador do Correio Braziliense, primeiro jornal brasileiro, editado em Londres, redigiu artigos em defesa da interiorização da capital do País, para área "próxima às vertentes dos caudalosos rios que se dirigem para o norte, sul e nordeste".

Mas foi o Patriarca da Independência, a primeira pessoa, de fato, a se referir à futura capital do Brasil, como "Brasília".

Desde a primeira Constituição Republicana, de 1891, havia um dispositivo que previa a mudança da Capital Federal do Rio de Janeiro para área "pertencente à União, no Planalto Central da República, uma zona de 14.400 quilômetros quadrados, que será oportunamente demarcada, para nela estabelecer-se a futura Capital Federal".

A pergunta que fez surgir a capital

Então candidato à Presidência da República, Juscelino Kubitschek, decidiu encampar em 4 de abril de 1955 o sonho dos primeiros constitucionalistas. Foi por inspiração de um eleitor em Jataí (GO), no primeiro comício de sua campanha.

Lá, um vendedor de seguros de 29 anos - que estudava a Constituição pois queria passar no concurso para tabelião - perguntou se Juscelino mudaria a capital para o interior do País.

Pego de surpresa com a pergunta, JK, que em seus comícios prometia cumprir a Constituição de forma integral garantiu que sim. E seu plano de Metas, que tinha 30 propostas, passou a ter a 31ª: a construção de Brasília.

A mensagem do botequim

Em abril de 56, um ano depois do comício de Jataí, já eleito, JK decidiu assinar sua mensagem ao Congresso.

Nela, proporia a abertura da Novacap, empresa pública responsável pela construção da capital.

O presidente voava para Manaus com alguns ministros. Pretendia fazer uma rápida parada em Goiânia, e assinar o documento.

No aeroporto, o governador Juca Ludovico e uma multidão o esperavam, mas o mau tempo impediu que o avião da comitiva pousasse.

Sobrevoaram a área por mais de duas horas e resolveram mudar o rumo. Foram para uma pista de pouso em Anápolis, perto de Goiânia.

Chegando lá, a única coisa aberta era um botequim. Nele, Juscelino assinou a mensagem junto a uma comitiva de cerca de 25 pessoas.

O que deveria se chamar Mensagem de Goiânia entraria para a história como a Mensagem de Anápolis. Só deixaram de fora mesmo foi o botequim.

Se faltar água, vai no cuspe

Durante a construção da capital, Juscelino fez diversas viagens a Brasília. Algumas delas com jornalistas.

Numa, um repórter mineiro, ao ouvir o presidente falar sobre o Lago Paranoá, comentou:

"Presidente, não há água para encher esse lago que o senhor fala..."

Obstinado e cansado de pessimismo, JK retrucou:

"Não tem importância, se não houver água encheremos no cuspe."

Encheu, viu?

O escritor Gustavo Corção, crítico ferrenho a Brasília, aproveitava-se de seu diploma de engenheiro para escrever artigos dizendo que, por ter o solo muito poroso, o Lago Paranoá nunca seria cheio.

Um dia chega à sua casa um telegrama da presidência da República com a singela pergunta: "Encheu, viu?".

Derrotado no Lago, Corção passou a dizer que devido à localização de Brasília os cabos telefônicos do Rio de Janeiro não chegariam à capital.

No dia 17 de abril de 1960, quando os cabos chegaram, JK pediu a um assessor que ligasse para a casa do escritor: "Os fios chegaram. Viu?".

Escapando da cusparada

Eram idos de dezembro de 1956. Numa manhã, ao se deparar com o futuro aeroporto de Brasília em obras, JK trocou o tradicional bom humor por uma expressão carregadíssima: apenas 800 metros de um total de mais de dois quilômetros de pista havia ficado pronto.

Chamado na presença de Juscelino para explicar o atraso, o engenheiro responsável, Atahualpa Prego, adiantou-se: "Senhor presidente, eu lhe informo que nós faremos a pista", e balançou as mãos, como se dissesse "senão eu dou no pé e sumo daqui".

Enfezadíssimo JK, de chapéu e colete, virou a cabeça para trás num gesto largo. O engenheiro pensou: "Bom, agora ele vai cuspir em cima, ele vai me dar uma cusparada na cara".

Para a surpresa de Prego - e dos demais presentes - o presidente, espantado com o olhar de Prego, soltou foi uma bela gargalhada. De vasilha nas mãos.

Falta dágua que une ricos e pobres

Conta-se que no início da construção de Brasília um dos reservatórios de água quebrou.

A empresa francesa que venceu a licitação para o abastecimento teve de mandar um funcionários aos Estados Unidos para buscar a peça que resolveria o problema.

A falta de água que assolou Brasília por 10 dias fez com que deputados, senadores e funcionários do alto escalão do governo tivessem de enfrentar filas ao lado de trabalhadores da construção civil e empregadas.

Com vasilhas nas mãos aguardavam a chegada de caminhões pipas que abasteciam as primeiras residências nas chamadas superquadras do Plano Piloto.

Os "sem-sapato"

A inauguração dos prédios da Esplanada dos Ministérios, na noite de 20 para 21 de abril de 1960, ganhou contornos de espetáculo. Faltando três dias para a festa, cerca de 900 jornalistas de rádio, televisão, jornal e revista, do Brasil e do exterior, haviam se credenciado para cobrir o evento.

A curiosidade era grande principalmente em relação a três obras: o Palácio do Planalto, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal.

O governo credenciou uns poucos jornalistas para conhecer as instalações dos prédios. Com uma condição: era preciso tirar os sapatos e entrar só de meias.

Mesmo com suas principais edificações terminadas, Brasília era, ainda, um canteiro de obras - o barro e a poeira impregnavam todos os sapatos.

Até mesmo os parlamentares que, antes da inauguração, foram conhecer o Congresso tiveram que entrar descalços no novo prédio.

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