Zuleika Kenworthy e seu baú de histórias vivas

Zuleika Kenworthy e seu baú de histórias vivas Por José Maria Tomazela Sorocaba, ,SP (AE) - Tenho suco e vinho do Porto, mas tome suco porque você está trabalhando. A frase, com a exata dimensão do que é mais correto, não deixa dúvida.

Agência Estado |

Estamos diante de uma promotora pública. E de uma pessoa que se transformou num livro vivo, de tantas histórias. Hoje com 97 anos, Zuleika Sucupira Kenworthy foi a primeira mulher a ingressar no Ministério Público, numa época em que a carreira era exclusivamente masculina. Pioneira em São Paulo, no Brasil e na América Latina, foi também a primeira procuradora do Estado em São Paulo.

A três anos de comemorar seu centenário, morando em Sorocaba, a 92 Km de São Paulo, Zuleika é uma mulher forte e lúcida. Um pouco surda, conversa de frente para ler os lábios do interlocutor. Os olhinhos esverdeados, muito vivos, às vezes brilham com as lembranças dos 32 anos de promotoria, dez deles nos "cafundós" do interior.

"Uma vez comi até sopa de barata. Foi em Capivari, 1945. Eu era promotora interina, estava numa pensão horrível. Vi coisas estranhas na sopa, eram pernas de barata." Quando foi transferida, ficou sabendo que as mulheres proibiram os maridos de falarem com ela. "Achavam que mulher estudante de Direito, advogada, não era boa coisa, era mulher livre."

Em outra ocasião, promotora em Martinópolis, teve de intervir na briga do juiz com um tabelião. "O juiz socou o tabelião e o ameaçou com uma arma, mas o tabelião bem que merecia." Em Pirajuí, ajudou a pôr na cadeia outro juiz que se envolvia com menores.

Mas na cidade de Piraju sua coragem foi posta à prova. Sozinha, enfrentou 200 trabalhadores rurais que pretendiam saquear a cidade porque não tinham recebido os salários. "Pus o revólver na bolsa e fui de caminhão até a fazenda onde estavam reunidos, armados com porretes. Eles tomaram um susto. Mostrei que o dinheiro estava no fórum."

Zuleika não precisava ter passado por isso. Os Kenworthy, industriais de Manchester, na Inglaterra, tinham vindo ao Brasil fundar um império têxtil, conjunto de fábricas de tecidos mais tarde conhecido como Companhia Nacional de Estamparia. Ela nasceu rica, tornou-se bonita e culta, falava várias línguas. Ao invés de viajar pelo mundo, como lhe sugeriam, preferiu enfrentar o preconceito. "Promotor era profissão de homens, mas era o meu sonho."

Zuleika prestou concurso três vezes. Tinha saído formada da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco com boas médias, "mas não era uma super aluna", diz. No primeira tentativa, fez uma prova tão boa que um dos examinadores ficou desconcertado. "Ele não esperava aquele desempenho de uma mulher." Não entrou. No segundo concurso, com 12 vagas, ficou em 13º lugar. "Diziam para desistir, pois não era lugar para mulher. Mas eu disse vou conseguir, nem que seja com 60 anos."

No terceiro, foi perfeita. "Quando vi meu nome na lista, quase explodi de alegria." Depois de aprovada, ainda teve de ouvir de um procurador que, se ele estivesse na banca examinadora, ela não teria passado. "Respondi: o senhor ainda vai ver como uma mulher pode ser um bom promotor. Era João Batista de Arruda Sampaio, que depois se tornou um grande amigo."

HISTÓRIA
Tudo começou na Inglaterra do século 19, vai lembrando ela. Com a saúde abalada pelo clima frio, o avô John Kenworthy decide vir ao Brasil com um amigo. "Desembarcaram no Rio e deram com uma epidemia de febre amarela. O amigo tratou de voltar à Inglaterra, mas meu avô disse: gostei, vou ficar."

Após montar fábricas de tecidos para outros empresários em Tatuí e em Jundiaí, onde ela nasceu, ele decidiu construir a sua, em Sorocaba. "É a fábrica Santo Antônio, um prédio inglês, imenso, que ainda existe. Ele fez tudo, desde o alicerce."

Na sala com móveis franceses elegantes, que acompanham a família há 80 anos, ela vai lembrando dos detalhes. Quadros de artistas famosos dividem a parede com retratos e diplomas, como um assinado pelo imperador Pedro II, entregue pessoalmente a Carolino Bolivar d’Araripe Sucupira, avô materno da promotora. "Ele ganhou o diploma depois de lutar com bravura na batalha do Avaí, na guerra do Paraguai." Carolino era do Ceará. Conta Zuleika que seu bisavô, "um patriota" o entregou pessoalmente ao imperador, como voluntário. "D. Pedro olhou para o rapazinho de 16 anos e comentou que ele não tinha porte para guerrear. Meu avô respondeu rápido: tenho bons dentes, majestade, posso morder cartuchos." Na época, era preciso abrir o cartucho com o dente para carregar as armas.

A casa da aposentada, de estilo inglês, fica imersa num jardim que faz fundos com a casa da sobrinha, Monica. É quase uma mansão, mas seu patrimônio veio da família, não dos 32 anos de Ministério Público. Com a morte do pai, George, em 1921, a mãe de Zuleika, Mary Powell Kenworthy, se mudou para São Paulo com os sete filhos. Ela morava na Aclimação e estudou num colégio interno. "Quis ser promotora de tanto ver fitas de júri. Quando o filme estava quase terminando, o advogado descobria alguma coisa e soltava o réu. Saía danada de raiva do cinema."

Já na profissão, ajudou a condenar muitos bandidos, mas nunca foi ameaçada. "Conversava com eles, tentava ajudá-los. Perguntava se estavam com raiva da promotora, eles diziam que não." Em 1954, passou a ser curadora de menores em São Paulo. "Tinha só um promotor, eu era auxiliar. Atendíamos mais de 20 crianças por dia, envolvidas em todo tipo de problema." Seu trabalho foi reconhecido: em 1963,representou o Brasil no encontro sul-americano sobre criminologia e prevenção da delinquência promovido pela Organização das Nações Unidas.

Dois anos depois foi convidada para o congresso da ONU sobre o tema em Estocolmo, Suécia. "Paguei minha passagem", lembra. Na última sessão, escolhida para fazer o relatório final, surpreendeu os presentes discursando em francês.

Após se aposentar em 1978, três anos após ser promovida a procuradora da Justiça, dedicou-se à música, como regente de corais, e ao magistério. Depois vieram as honrarias: o Colar do Mérito Judiciário, o Colar do Mérito Institucional do Ministério Público paulista, convites para homenagens.

Com tantas atribuições, só há pouco tempo conseguiu realizar um sonho de criança: ser escoteira. Em 2003, foi admitida em solenidade realizada no Batalhão da Polícia Militar de Sorocaba. "Estava de uniforme completo, inclusive as calças curtas. E o prefeito me entregou o lenço azul e vermelho."

Engana-se quem pensa que o uniforme foi para um baú. "Está aqui, guardadinho, pronto para ser usado."

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG