Zé do Caixão assombra Virada Cultural e critica atual cinema brasileiro

SÃO PAULO ¿ José Mojica Marins, criador e alter ego do personagem Zé do Caixão, fará uma atividade macabra nesta Virada Cultural. Em ¿Contos de Terror com Zé do Caixão¿, neste sábado (2/5), o personagem vai caminhar do Teatro de Arena do CCJ até o cemitério de Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte de São Paulo, contando histórias assustadoras.

Bruno Rico, repórter do Último Segundo |

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José Mojica Marins

José Mojica Marins

O diretor conversou com a reportagem do  Último Segundo sobre a Virada Cultural, revelou que fechou contrato para filmar sua biografia Maldito, criticou a panela do Rio de Janeiro que fica com toda a verba do Estado, reclamou da falta de bons diretores no País ¿ apesar de elogiar Cidade de Deus e Tropa de Elite ¿ e afirmou que, hoje, um 38 na cabeça mete mais medo do que o mundo dos mortos e dos espíritos de Zé do Caixão.

O diretor começou a fazer filmes ainda jovem, aos 10 anos. Seu pai trabalhava em uma sala de cinema no centro de São Paulo e ele passou a filmar pequenos curtas e projetá-los para pagar as despesas da produção. Desde então, grande parte de sua obra foi feita com pouca verba. Em muitos títulos, trabalhou com atores amadores, aos quais dava aulas de atuação antes de gravar. Essa lógica pautou sua produção durante 60 anos de carreira e consagrou um estilo próprio de fazer cinema. Minha única regra é agradar o público, não os críticos. Trabalho para o povão.

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José Mojica Marins

Zé do Caixão continua na ativa e em breve volta aos cinemas

Por essa e outras características, Mojica é cultuado como símbolo do cinema marginal e visto por críticos e produtores como um artista de invenção e de vanguarda. O diretor Rogério Sganzerla, autor de O Bandido da Luz Vermelha (1968), afirmou que trocaria 20 anos de cinema paulista pelos 20 segundos em que Zé do Caixão, fugindo na floresta de papelão, abre os braços, a capa e grita: 'A quem pertence a Terra? A Deus? Ao Demônio? Ou aos espíritos descarnados?'.

Mas sua trajetória nunca foi elogiada pela crítica. Pelo contrário, parecia assombrada. Após 60 anos produzindo, nunca tive apoio dos críticos. Só agora. Em 2008, seu mais recente filme, Encarnação do Demônio, ganhou o 1º Festival de Cinema de Paulínia. A produção venceu nas categorias melhor filme de ficção, fotografia, montagem, edição de som, direção de arte e trilha sonora. Levou ainda o prêmio da crítica como melhor longa-metragem.

Durante a Ditadura Militar, o cineasta teve muitos filmes proibidos. Me censuravam porque não entendiam o que eu fazia. Diziam que, através dos meus filmes, eu tinha uma camuflagem política. Usavam isso como desculpa. 40 anos depois, ainda não acharam o que diziam que eu escondia. Nem eu!

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José Mojica Marins

Zé do Caixão na pele de seu
criador, José Mojica Marins

O cineasta revelou à reportagem do Último Segundo que fechou contrato com a produtora Ioiô Filmes para filmar sua biografia, baseada no livro Maldito, de Ivan Finotti e André Narcinski. Para interpretar o jovem Mojica, cogitam chamar o ator Matheus Nachtergaele. Não quero fazer um mero documentário. Quero inserir ficção. Mexer com a mente do público. O longa-metragem só deverá começar a ser produzido em 2010. No momento, o roteiro está sendo escrito.

Mojica criticou o cinema brasileiro atual. Não há bons diretores. Ele entende que a Agência Nacional de Cinema (Ancine) não está investindo em novos talentos. Tem uma panela do Rio de Janeiro que fica com toda a verba do Estado. Temos que inovar, nem que seja fazendo filmes menores. Apesar disso, elogiou Cidade de Deus, Tropa de Elite e Meu nome não é Johnny. Gosto do realismo do momento. Tem uma mensagem que a gente tem que mostrar. A violência, o tráfico e a polícia. A coisa está ficando complicada.

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José Mojica Marins

José Mojica Marins

A estética dos filmes de Zé do Caixão, no entanto, nunca foi realista. Pelo contrário, seus filmes sempre apostaram na imaginação do público. Os clássicos "À Meia-Noite Levarei sua Alma" (1964) e Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver" (1967) são filmes que estimulam o medo através do misticismo. Gosto de mexer com a mente das pessoas. Ela é o caminho para o medo, que é o maior sentimento do homem.

Em "Encarnação do Demônio", o diretor optou por mostrar cenas de terror e tortura explícitas. O filme é mais violento que os anteriores. Perguntado se acha que a figura de Zé do Caixão não assusta mais, Mojica responde: nos dias atuais, um 38 na cabeça mete mais medo do que o mundo dos mortos e dos espíritos. Hoje, o Zé impõe mais o medo pela violência do que pelo misticismo. As pessoas ficaram mais realistas. 'Encarnação do Demônio' expressa isso. Eu queria, inclusive, fazê-lo mais violento ainda, mas não deixaram.

Atualmente, Mojica está apresentando o talk-show O Estranho Mundo de Zé do Caixão, no canal Brasil, à meia-noite das sexta-feiras.

Após o cortejo de Zé do Caixão na Virada Cultural, será realizada a terceira edição do projeto Cinetério (sessão de cinema ao ar livre com interferências sonoras), que traz o lendário filme "O Massacre da Serra Elétrica" e conta com interferências do músico Rogério Skylab.

Contos de terror com Zé do Caixão
- Sábado, dia 2 de maio, às 23h00
Zé do Caixão apresenta os mais tenebrosos contos de terror de todos os tempos numa performance aterrorizante que começa no Teatro de Arena do CCJ e termina no cemitério de Vila Nova Cachoeirinha
Endereço: Av. Deputado Emílio Carlos, 3641 (ao lado do terminal Cachoeirinha)
Espaço: Teatro de Arena
Informações: (11) 3984-2466

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