Walter Salles volta a olhar para a periferia em ¿Linha de Passe¿

SÃO PAULO ¿ ¿Linha de Passe¿ nasceu quase que para atender um capricho. Ansiosos por trabalharem juntos novamente, Walter Salles e Daniela Thomas ¿ que antes haviam dividido a direção em ¿Terra Estrangeira¿ (1996) e ¿O Primeiro Dia¿ (1998) ¿ se uniram ao ator Vinícius de Oliveira, revelado em ¿Central de Brasil¿, e deram início ao projeto que culminou no prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes para Sandra Corveloni. O público brasileiro vai finalmente poder conferir o desempenho da atriz a partir de sexta-feira (04), quando o filme chega às telas do país.

Marco Tomazzoni |

Daniela Thomas e Walter Salles juntos nas
filmagens nas ruas de São Paulo / Divulgação

Durante coletiva em São Paulo para promover Linha de Passe, Salles confirmou, ao lado do elenco principal, que o longa-metragem nasceu de fato por razões afetivas, da busca por promover o reencontro do par criativo que forma ao lado de Daniela. Como em Central do Brasil, o diretor direcionou sua câmera para a periferia, não mais no Rio, mas na capital paulista. A partir daí, criou uma história urbana que acompanha a jornada de quatro irmãos, filhos de pais diferentes, e sua mãe, empregada doméstica grávida de outra criança.

O embrião do roteiro surgiu em 2002, depois que João Moreira Salles, irmão de Walter, produziu uma série de documentários para a televisão, abordando a ascensão das igrejas evangélicas e o difícil ingresso de jovens no mundo do futebol profissional. Ele mostrava um contracampo ao futebol milionário, cheio de glamour, globalizado, pelo funil que esses garotos têm que enfrentar para chegar lá. E em Santa Cruz [que acompanhou a construção de uma igreja evangélica no Rio] a mesma coisa, trazia uma maneira diferente de olhar para aquele território.

Filme naturalista

Essa inspiração documental aparece de forma clara no filme, conferindo uma aura naturalista aos personagens, até mesmo pela intensa preparação do elenco. João Baldasserini, que interpreta o irmão mais velho, Dênis, trabalhou numa agência de entregas durante uma semana e recebeu ajuda de profissionais experientes para entrar no espírito do personagem, um motoboy. Além disso, teve que aprender a dirigir uma moto, dificuldade que Salles também enfrentou em Diários de Motocicleta ¿ assim como Baldasserini, Gael García Bernal também não sabia dirigir o veículo.

Já Vinícius de Oliveira foi mais longe para se preparar para Dario, o aspirante a jogador de futebol que luta para conseguir um lugar num time profissional. O ator ¿ que desde Central do Brasil participou de outros filmes, curtas, novelas e hoje, aos 23 anos, é estudante de Cinema ¿ se matriculou na escolinha do Zico, no Rio, e treinou um mês nos juniores do Santo André e São Paulo para não fazer feio nos gramados (e nas telas). Antes eu só fazia graça em peladas, essa foi uma experiência muito importante, garante.

O círculo de irmãos se fecha com José Geraldo Rodrigues, o evangélico Dinho, e com o garoto Kaíque dos Santos, selecionado na ONG paulistana Casa do Zezinho, depois de uma série de testes. Na trama, Kaíque faz o papel de Reginaldo, o caçula da família, que faz de tudo para tentar encontrar o pai, um motorista de ônibus. A história do personagem foi inspirada em um caso real, quando um menino seqüestrou um ônibus e dirigiu por mais de três horas pelas ruas de São Paulo.

Vinícius de Oliveira aspira jogar futebol profis-
sionalmente em "Linha de Passe" / Divulgação

A cidade, aliás, foi escolhida como pano de fundo da história, além de ser visualmente interessante graças aos diferentes níveis conferidos pelos túneis e viadutos, por nunca ter sido filmada por Salles. Fernando Pessoa dizia que você só conhece bem uma cidade quando se perde nela, e tínhamos essa coisa de colocar a câmera onde não tínhamos colocado antes, explicou o diretor. Salles também defendeu que gigantesca São Paulo possibilita uma busca por identidade, já que a própria extensão da cidade ajuda nessa tarefa e permite se reinventar nessa geografia.

Depois de uma expedição bandeirante, segundo Daniela, para encontrar todas as locações necessárias ao filme, a equipe decidiu estabelecer a família de Linha de Passe no bairro Cidade Líder, na zona leste da capital. O elenco se mudou para uma casa simples na Rua Laranja da Bahia e morou junto um tempo antes das filmagens, para se ambientar ao local e conviver com a comunidade. Salles, aliás, adianta que não foram contratados figurantes: religiosos são religiosos, jogadores são juniores e os convidados de uma festa de aniversário, por exemplo, eram todos vizinhos de rua.

Cannes e parceria sem prazo para terminar

Ainda um pouco assustada e incrivelmente tímida com a premiação em Cannes, Sandra Corveloni disse que sua rotina não mudou tanto assim, a não ser o problema no ouvido de tanto falar no telefone, disse, brincando. A atriz, cujo berço é o teatro, confessou que o prêmio de melhor atriz serviu justamente para poder divulgar os espetáculos do grupo Tapa, da qual é integrante, e outros trabalhos nos palcos paulistanos, que hoje, por sua causa, ganham um destaque que não receberiam normalmente. Sandra disse ter adorado a experiência no cinema, mas adiantou que a sétima arte não é sua prioridade. Claro que quero fazer outros [filmes], mas calma, cada coisa a seu tempo. Gosto muito de dar aula, trabalhar com jovens. Quero fazer tudo, não sei se vai dar tempo.

Realizado sem incentivos fiscais, Linha de Passe custou cerca de R$ 4 milhões, financiados por distribuidoras independentes internacionais, que compraram os direitos do longa. No futuro, Walter Salles pretende filmar Pé na Estrada ¿ On the Road, clássico beatnik de Jack Kerouac, e deixou claro quais são os projetos que lhe interessam. Como cineasta, você se complementa com o outro. Me interessa o que eu não conheça. A parceria com Daniela Thomas, por sua vez, que se renova a cada oito anos, mais ou menos, ainda não tem prazo para acabar. Se os deuses fílmicos permitirem que a gente alcance o [centenário diretor português] Manoel de Oliveira, ainda temos uns quatro ou cinco filmes pela frente, concluiu Salles, bem humorado.

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