Voz feminina no comando das decisões

Voz feminina no comando das decisões Por Ciça Vallerio São Paulo, 11 (AE) - Em um período de 13 anos, o porcentual de mulheres em altos cargos corporativos passou de módicos 10,39% para 21,43% no País, segundo levantamento recente da Catho Online, entre as 89 mil empresas cadastradas no site, especializado em recolocação profissional. Sim, mais mulheres assumiram os postos de presidente e CEO.

Agência Estado |

O acesso a vice-presidências também aumentou: em 1996, representava 10,82% e, agora, chega a 17,47%. O porcentual de diretoras saltou de 11,6% para 26,29%.

Um exemplo dessa escalada irreversível, que jamais se poderia imaginar em décadas passadas, é a executiva Nadir Moreno, de 40 anos. Em 2007, ela alcançou o posto máximo na UPS do Brasil, empresa mundial de transporte e logística. Como presidente, tornou-se a primeira brasileira a sentar-se na cadeira que, até então, havia sido ocupada apenas por homens.

"Senti uma certa resistência nos primeiros meses, mas hoje isso não existe mais", conta Nadir, que, há dois anos, comanda os 600 funcionários da UPS no País. "Sou ambiciosa, mas com equilíbrio, e enxerguei essa barreira inicial como um desafio. Com humildade, mostrei como a mulher complementa as habilidades masculinas."

A questão dos gêneros, aliás, continua atual em corporações do mundo inteiro. Para corresponder aos anseios femininos, algumas poucas (ainda) empresas desenvolveram políticas internas, a fim de estimular o acesso das mulheres ao alto escalão, predominantemente masculino. A própria UPS, que está em 200 países, criou o Programa de Desenvolvimento de Liderança Feminina (WLD, na sigla em inglês). A intenção é oferecer à ala gerencial da empresa, composta por 40% de mulheres, oportunidades para o desenvolvimento de lideranças e habilidades profissionais.

"No posto em que estou, enxergo como minha atribuição assegurar oportunidades para que outras funcionárias sigam esse caminho", ressalta Nadir. Como resultado, a empresa já conta com outras presidentes mulheres, nas sedes do Equador, República Dominicana, Peru e Bolívia.

MODESTAS
Há, porém, uma longa jornada a ser seguida. Segundo a sócia da Accenture da América Latina, multinacional que atua no ramo de consultoria de gestão e serviços de tecnologia, Denise Damiani, as mulheres ainda sonham pequeno. "Diferentemente dos homens, que planejam sua ascensão profissional e se empenham para alcançar postos de comando, fazendo lobby, as mulheres esperam que alguém reconheça o seu trabalho", atesta. Na sua opinião, elas não conquistam mais espaço porque não confiam na própria força.

A Accenture passou a realizar pesquisas periódicas para entender por que pouquíssimas conseguiam evoluir na carreira e também o motivo pelo qual as funcionárias abdicavam de seus postos com maior frequência do que os homens. O estudo tinha como objetivo principal aumentar a presença feminina no alto escalão, o que estava se tornando também uma exigência do mercado.

"Há clientes cuja empresa é formada basicamente por mulheres, que sentiam falta de uma representante feminina para poder negociar de igual para igual", explica a executiva Denise, de 48 anos, casada e mãe de dois adolescentes. "Eram situações em que o pragmatismo masculino poderia dificultar a comunicação."

De acordo com o levantamento deste ano, realizado pela Accenture - com 3,6 mil profissionais de ambos os sexos, em 18 países da Europa, Ásia, América do Norte e do Sul, e África -, 65% das brasileiras disseram que não se sentem desafiadas o suficiente em suas vidas profissionais. O índice só fica atrás das indianas, cujo porcentual foi de 66%.

No Brasil, constatou-se ainda que 64% das mulheres já pediram aumento, contra 54% de homens. Com relação a pedidos de promoção, elas foram mais contidas e empataram com eles (51%). "No geral, as trabalhadoras desejam crescer, mas não sabem como", afirma Denise. "Mas a força feminina está aí, só precisa ser chacoalhada."

Para dar um bom empurrão, Denise tornou-se líder do comitê de iniciativas para as mulheres da empresa. O programa inclui encontro anual com as líderes dos demais países que fazem parte do Comitê Mundial. Foi criada também a intranet, que funciona como rede social, para que as funcionárias troquem experiências pessoais e profissionais.

Com isso, a inclusão feminina nos altos postos da multinacional aumentou. Se o porcentual de executivas era de 3% em 2003, agora chega a quase 10%. Mas a meta é atingir 30%. Outro bom sinal: em 1999, Denise era a única sócia mulher da América Latina. Agora elas já somam 17. "O importante é saber que não estamos sozinhas", acredita Denise, formada em Engenharia. "Na nossa cultura, somos desestimuladas, pois sempre ouvimos que quem cresce na profissão não se casa, fica acabada e não pode ter filhos."

SACRIFÍCIOS
Laura Ullmann, diretora de marketing da HSM, multinacional que organiza fóruns internacionais dirigidos à gestão e conhecimento para altos executivos, comemora o ingresso expressivo da mulher no "clube do bolinha", o que vem ocorrendo nos últimos cinco anos. O Expo Management - um dos grandes eventos anuais promovidos pela HSM, voltado para altos executivos - contava apenas com 7% de participação feminina. Hoje, esse porcentual saltou para 23%.

Argentina radicada no Brasil, Laura foi a primeira mulher diretora na HSM mundial. A conquista veio após 12 anos de labuta no grupo, sacrificando sua vida pessoal. Antes de se mudar definitivamente para o Brasil, Laura passou uma temporada no México e nos Estados Unidos. Quando chegou aqui, até que tentou manter o namoro com um conterrâneo. "Viajava todo fim de semana para Buenos Aires", conta a diretora, de 36 anos. "Mas aí não teve jeito."

Apesar de ter investido pesado na carreira, Laura não descuida de seus momentos de lazer. Costuma se divertir com o grupo de executivas e empresárias que se autointitulam "A liga das que se ligam no Prosecco". A turma formada por 15 mulheres de diversas idades reúne-se periodicamente para passeios culturais, sem deixar de lado um brinde com a bebida oficial do grupo. "Uma acolhe a outra, pois encontramos algumas barreiras", diz Laura. "Não é fácil se apresentar como uma mulher do alto escalão entre os homens. Para não espantá-los, evito falar da minha posição."

Megaexecutivas deparam-se com problemas até mesmo dentro de casa. Cobranças de cônjuges e filhos não são raras. Algumas, porém, têm a sorte de encontrar um companheiro que lhes dá apoio. É o caso da nutricionista Yara Baxter, que, quando assumiu o cargo de diretora de oncologia da empresa farmacêutica Novartis, em 2005, fez um pacto com seu marido e seu filho. "Pedi aos dois um ano e meio de tolerância", lembra Yara, de 48 anos. "Na minha posição, viaja-se muito e, se surgissem cobranças, ficaria muito difícil." Passada a turbulência inicial, reserva os fins de semana para surfar com a dupla no litoral norte de São Paulo, onde tem casa.

MATERNIDADE
As executivas colocam em xeque a velha ideia de que maternidade é um entrave à ascensão profissional. Cristina Adib, de 44 anos, vice-presidente da Value Team, empresa multinacional de consultoria, costuma dizer que faz parte do time das que acreditam que o fato de ser mãe só melhora a atuação profissional. "Depois que me tornei mãe, mudei minha maneira de atuação", conta. "Aprendi a escutar mais e a humanizar ainda mais as relações de trabalho."

Casada há 20 anos e com uma filha de 6, Cristina assumiu a vice-presidência quando a garota tinha apenas 3 anos. Em vez de enfrentar conflitos, somou sua experiência de mãe, mulher, esposa e administradora do "ministério doméstico", como costuma dizer, para colher mais frutos. Na sua opinião, à medida em que a mulher vai galgando na vida, mais desafios tem pela frente. Mas isso, acredita, só enriquece o patrimônio profissional. "Dessa forma, a mulher está pavimentando hoje a estrada do futuro", resume.

Sem dúvida, as líderes do mundo corporativo atual sabem que uma vida particular equilibrada reflete positivamente na profissão. E que quantidade, com excessos de horas extras e dedicação exclusiva à empresa, não significa qualidade. Essa é a opinião da engenheira Teresa Vernaglia, de 43 anos, diretora-geral da AES Eletropaulo Telecom, empresa de telecomunicações. "Precisamos encontrar o equilíbrio", observa. "Para isso, é necessário muita disciplina, pois somos facilmente tragadas pelo trabalho."

Desde 2001 no atual posto, Teresa mostrou que tem nervos de aço. Assumiu esse cargo na empresa para desenvolver estratégias de expansão. Mas com a "bolha da internet", crise que atingiu em cheio o mercado de telecomunicações em 2002, foi obrigada a mudar os planos. Em vez de focar no crescimento, teve de fazer a empresa sobreviver.

Foi justamente em meio à turbulência que uma mulher assumiu a direção da AES Eletropaulo Telecom. "Estava tão focada para que as coisas dessem certo que, se aconteceu algum problema relacionado a preconceito, passou batido", afirma a diretora-geral, casada e mãe de Gabriel, de 2 anos. "Imagino que minha promoção deva ter causado certo impacto. Mas hoje as profissões estão menos polarizadas. O avanço feminino nos altos postos é um caminho sem volta."

Boxe:
CLUBES DA LULUZINHA
Elas estão formando grupos que funcionam, basicamente, como redes de relacionamento entre a fina flor das lideranças femininas. Além de se fortalecerem, a ideia é aumentar o acesso aos postos mais cobiçados do mercado.

Um desses grupos é o 85 Broads, com sede nos Estados Unidos, mas espalhado por vários países, inclusive o Brasil. Fazem parte mulheres com MBAs internacionais, que atuam em cargos gerenciais (ou mais), falam fluentemente inglês e são formadas por universidades de "primeira linha". O clube é fechado, e já conta com 150 participantes. Só entra quem é convidada.

"O princípio é da ajuda mútua. É um meio de conhecer mulheres competentes e, assim, poder indicá-las para algum cargo que geralmente seria preenchido por homens", explica uma das fundadoras do 85 Broads no Brasil, Violeta Noya, de 38 anos, casada e com dois filhos. Nos eventos, cuja programação inclui de desfile de moda a palestras, o que vale é o networking.

Há também o Lidem - Grupo de Mulheres Líderes Empresariais, lançado oficialmente em 2006, cujo objetivo é promover debates e direcionar as mulheres para cargos de liderança, atendendo às exigências do mercado atual. É formado por 88 executivas, de 56 empresas nacionais e multinacionais.

Outro grupo é o Business Professional Women (BPW), ou simplesmente Associação de Mulheres de Negócios e Profissionais, que está presente em mais de 100 países e agrega mais de 40 mil mulheres. Tem como meta construir "um celeiro de lideranças femininas." "Apesar do maior número de mulheres em postos de liderança, esse movimento deve ser estimulado, pois ainda somos uma minoria", conclui a executiva Marlene Ortega, de 50 anos, conselheira da BPW.

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