RIO DE JANEIRO - Sem nenhuma parte do Airbus A 330 encontrada no oceano, sem sinais de caixa preta ou de qualquer sobrevivente do voo 447 da Air France, poucos questionamentos são respondidos pelas investigações que já começaram no Brasil e na França. Um piloto experiente, uma aeronave que passou por revisão, mas enfrentou pane elétrica ao dar de frente com uma forte tempestade. Além disso, especialistas afirmam que turbulência não derruba avião e que tempestade de gelo também não causaria o acidente.

Perguntas sem resposta são muitas e o que se sabe até agora é pouco e foi divulgado nos primeiros dias. Sem a caixa preta, a investigação sobre as causas podem durar anos e, ainda assim, não serem conclusivas.

O que se sabe até agora é que o avião passou por uma série de panes elétricas logo após entrar na forte tempestade. Vários equipamentos vitais desligaram nos quatro minutos seguintes ao início da turbulência.

Nenhuma mensagem do piloto foi recebida. O que teria acontecido que o fez ficar em silêncio. O rádio quebrou ou algo mais forte atingiu a aeronave e o fez desfalecer?

Experiente, o comandante do vôo 447 da Air France, o francês Marc Dubois, de 58 anos, entrou na companhia aérea em 1988. Em seu currículo, 11 mil horas de voo e das quais 1.700, no Airbus A330/A340.

Segundo notícia do jornal Le Monde, já confirmada pela companhia, a aeronave entrou na tempestade numa velocidade incorreta. Se o piloto é experiente, voltamos a possibilidade de falha na aeronave. Em outubro, um avião da australiana Qantas despencou durante 20 segundos devido a uma pane elétrica. O piloto conseguiu retomar à aeronave e fazer um pouso de emergência.

Nesta sexta-feira, a Airbus divulgou comunicado a todas as companhias que utilizam aviões de sua fabricação informando da possibilidade de incoerência no registro de velocidade de voo. Mas, segundo o órgão francês de investigação de acidentes e incidentes aéreos, BEA na sigla francesa, o comunicado é apenas uma precaução. Além disso, o BEA já tinha afirmado na quinta-feira que o avião estava em perfeitas condições técnicas antes decolar.

Voo 447 da Air France

Questionado se o Airbus deveria ter sido submetido a um recall, o chanceler francês, Bernard Kouchner, também afirmou na quinta-feira que a aeronave não tinha problemas.

Este avião tinha quatro anos, passou por uma revisão completa em abril e funciona como outros mil aviões no Brasil. Se fosse necessário fazer um recall, isso teria sido feito. Se não fosse um avião confiável, nenhum membro da Air France viajaria nele.

Mas um piloto da TAM relatou ter visto um clarão nos céus, naquela noite do dia 31 de maio, já na região de Senegal. Outro piloto da companhia aérea Air Comet também. No entanto, aviões enviados pelo país não encontraram nenhum destroços. Assim como os que teriam sido avistados boiando no oceano pelos aviões da Aeronáutica brasileira ainda não foram encontrados pelos navios na região.

Então, se o piloto é experiente e a aeronave segura a ponto de ultrapassar uma tempestade muito forte, sobra apenas uma última possibilidade, o atentado terrorista. A hipótese de um atentado foi levantada por um piloto da Air France ao jornal francês Le Figaro. A companhia aérea confirmou ter recebido um falso alerta de bomba no dia
27 de maio, que estaria localizada em um voo entre Paris e Buenos Aires.

As autoridades brasileiras consideram essa hipótese "improvável". Mas o ministro da Defesa francês, Hervé Morink, informa que a hipótese de  um ataque terrorista não está descartada. No entanto, é comum nestes casos, alguma organização costuma assumir o atentado logo após ele ter tido sucesso, o que não aconteceu até hoje.

Enquanto isso, no Hotel Windsor no Rio de Janeiro, dezenas de parentes tentam alimentar a expectativa de achar alguém vivo. Sempre que questionados sobre suas esperanças, a maioria responde que enquanto não houver um corpo, a esperança continua. Alguns falam em balsas e outros em ilhas.

Oficialmente, o governo brasileiro, responsável pelas buscas, não descartou ainda essa possibilidade. No entanto, o próprio ministro da Defesa, Nelson Jobim, fala em resgate de corpos. O presidente da Air France, Pierre-Henri Gourgeon, pediu que as famílias "não tenham esperança" em encontrar sobreviventes. O presidente da França, Nicolas Sarkozy, também já afirmou que estas chances são ínfimas.

Nesta sexta-feira, todos entregaram à Polícia Federal amostras de salivas para facilitar a identificação dos corpos, casos eles apareçam.

O problema é que, se o avião realmente caiu na região indicada, a corrente marinha pode afastá-los para outros pontos. Outros fatores também prejudicam o resgate dos corpos, como a profundidade do mar (de até 5 mil metros) e a presença de peixes e tubarões.

A mesma tempestade que teria ajudado a derrubar a aeronave agora prejudica as buscas. Nessa época do ano, é comum a formação de tormentas na área, conhecida como Zona de Convergência Intertropical. Nesta sexta-feira, a visibilidade na área de buscas pelo voo 447, na região de Fernando de Noronha, ficou muito reduzida.

Sem aguentar a ansiedade, parentes também exigiram serem levados a Recife para tentar entender como é feita a investigação. Outros já se reuniram com representantes da Confederação Internacional de Vítimas de Acidentes Aéreos para se preparar e enfrentar anos em busca de informações.

Dor das famílias

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