"Viúva negra": veja o destino dos homens que se envolveram com ela

Ministério Público considera suspeitas as mortes de outros maridos de Heloísa, embora ela só responda por um homicídio

Flávia Salme, iG Rio de Janeiro |

Heloísa Borba Gonçalves chamou a atenção do Ministério Público do Rio de Janeiro por causa da quantidade de homens que se envolveram com ela e tiveram um destino trágico. Foram sete relacionamentos, dos quais nasceram seis crianças. Cinco homens que teriam sido parceiros de Heloísa morreram - ela foi casada com quatro deles: dois assassinados, um em acidente de carro e outro de câncer, embora tivesse um dos braços quebrado. As mortes teriam rendido à "Viúva Negra" imóveis avaliados em mais de R$ 20 milhões.

Heloísa nasceu no dia 13 de março de 1950 em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Aos 19 anos deu à luz sua primeira filha, Patrícia Luciana Gonçalves Pinto, com Carlos Pinto dos Santos. No ano seguinte ao nascimento da menina, engravidou novamente e afirmou que a criança era filha do médico gaúcho Guenther Joerg Wolf, de 38 anos, morto em um acidente de carro em 1971.

Ela ingressou na Justiça pedindo anulação de partilha, sequestro de bens e investigação de paternidade na 2ª e 3ª Vara de Família e Sucessão de Porto Alegre, no inventário de Wolf.O médico era solteiro e morreu quando dirigia seu carro, um Karmann Ghia, na cidade de Taquara (RS). O carro do médico colidiu contra um caminhão, de acordo com a certidão de óbito número 7.998, registrado na folha 290 do livro C-16 da 6ª Zona de Porto Alegre.

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O médico Guenther Joerg Wolf morreu em um acidente de carro em 1971 e Heloísa entrou na Justiça alegando que estava grávida dele; ela tinha 21 anos

A filha de Heloísa e Guenther, Vitória Letícia Gonçalves Wolf, nasceu em 1972. O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul informa que, por se tratar de um processo de reconhecimento de paternidade, a ação, embora julgada, permanece em segredo de Justiça. Testemunhas dizem que ela teria herdado uma casa.

Um ano e três meses depois Heloísa teve outro bebê. Carlos Pinto da Silva Junior recebeu o nome do pai, Carlos Pinto da Silva, que seria o primeiro amante da "Viúva Negra" . O casal se mudou para Brasília, após passar por São Paulo, onde foi investigado por falsidade ideológica e estelionato. A condenação foi anunciada na década de 1980.

Antes, porém, em 1977, Carlos, Heloísa e as três crianças passaram férias em Salvador, na Bahia, onde se hospedaram no hotel Ondina. Na saída do hotel, para um passeio, Carlos foi alvo de cinco disparos feitos por um homem não identificado. Ele sobreviveu e acusou Heloísa de tentativa de homicídio. Dias depois voltou atrás e a polícia de Salvador arquivou o inquérito.

Heloísa muda para o Rio e se casa oficialmente pela primeira vez

Em 1981, com 31 anos, Heloísa deu à luz outro menino, que ela só registrou um ano depois, em 1982. A paternidade foi assumida pelo securitário Irineu Duque Soares, de 41 anos. Os dois se casaram em maio de 1983 e cinco meses depois Irineu foi assassinado enquanto passava com a mulher e o filho no município de Magé, na Baixada Fluminense. O caso foi investigado pela 70ª DP (Piabetá).

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Irineu foi morto a tiros enquanto passava com a família pela Baixada Fluminense. Heloísa contou à polícia que foi um assalto e as investigações reconheceram o latrocínio

Heloísa contou à polícia que ela e o marido tinham ido à Baixada resolver “assuntos pessoais”. Sua filha mais velha, Patrícia, então com 14 anos, o filho do casal, Daniel Gonçalves Soares, então com 2 anos, e a babá da criança estavam no veículo.

De acordo com depoimento que Heloísa teria prestado à época, um homem negro, com uma cicatriz no rosto, rendeu Irineu com uma arma e anunciou um assalto, quando a família passava pela Estrada da Tocaia. Heloísa relatou ter fugido com a babá e as crianças e quando voltou encontrou o marido morto.

O ladrão teria levado duas alianças e quatro pulseiras de ouro, além de Cr$ 176 mil em espécie e talões de cheque. A polícia concluiu que o crime foi cometido por um assaltante conhecido como Bira Cicatriz, que morreu após a morte de Irineu. Heloísa herdou apartamentos, telefones, uma sala comercial em Botafogo (zona sul), e cadernetas de poupança, conforme registro nº 40.332, do inventário na 4ª Vara de Órfãos e Sucessão.

Três casamentos em cinco anos

Documentos anexados à acusação do MP mostram que em 1985 Heloísa se casou com o policial militar Roberto Souza Lopes, de 34 anos. Neste ano, ela recebeu registro de advogada pela OAB-RJ.

Em julho 1989, aos 40 anos - e ainda casada com o PM Roberto -, Heloísa se casou com o tenente-coronel da reserva Jorge Ribeiro, de 51 anos, usando o nome Heloísa Gonçalves Duque Soares. Menos de um ano depois, em maio de 1990, a advogada selou matrimônio com Nicolau Saad, que tinha 70 anos. Nessa, usou o nome Heloísa Borba Gonçalves. Ela afirmou que estava grávida e convenceu Jorge e Saad a assumirem a criança.

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Aos 70 anos de idade, Nicolau reconhece Marcelo sem saber que a mulher também planejava registrar a criança com outro marido

As informações anexadas ao processo do MP mostram que, em 31 de julho de 1990, o comerciante libanês registrou Marcelo Fontelles Saad como seu filho e de sua mulher Heloísa Saad. Duas semanas depois, Jorge também registrou a criança como Marcelo Jorge Gonçalves Ribeiro, filho de Heloísa Gonçalves Duque Ribeiro. Em novembro Heloísa oficializou o divórcio com o PM Roberto.

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Treze dias depois de Nicolau registrar o bebê, Jorge também reconhece a paternidade do menino; Heloísa usou suas múltiplas identidades para fazer as certidões

Maridos morrem e a "Viúva Negra" herda bens

Nicolau Saad faleceu no dia 29 de dezembro de 1991. O atestado de óbito informa que ele sofria de câncer e teve uma parada cardíaca. O documento, porém, ressalta que na hora da morte ele estava com o braço direito quebrado.

Após a morte de Nicolau Saad, Heloísa transferiu apartamentos e outros imóveis que pertenciam ao comerciante aos seus seis filhos, como mostram documentos registrados nas folhas 143,145, 147, 149, 153 e 168 do livro SI - 306 do 14º Ofício de Notas, na sucursal Ipanema.

Arte/ iG
Nicolau morreu de parada cardíaca, em 1991. Tinha o braço direito quebrado, mas o óbito não diz se fora engessado (o iG pôs gesso na ilustração para sinalizar a fratura)

Um mês e meio após a morte de Nicolau, Jorge foi assassinado na sala comercial em que trabalhava em Copacabana, como registrado no Boletim de Ocorrência nº 000962/92 da 12ª DP (Copacabana). Estava com os braços amarrados para trás, a boca amordaçada, jogado no chão de barriga para baixo e com diversos golpes de marreta na cabeça.

Arte/iG
As investigações concluíram que Jorge foi morto a golpes de marreta na cabeça. Foi encontrado por um homem que procurava emprego em seu escritório, amordaçado e no chão

No dia do crime, Heloísa afirmou à polícia que o militar dormira em sua casa. Saíram juntos para o trabalho às 6h30 e tomaram um café na portaria do edifício onde Jorge trabalhava com venda e aluguel de linhas telefônicas e imóveis. Ela diz que ficou na portaria, pois esperava três pedreiros que iriam reformar dois apartamentos do casal.

Reprodução Disque-Denúncia
Familiares das vítimas contrataram detetives particulares para localizar Heloísa
Heloísa também afirmou que a vítima não tinha inimigos, mas que um mês antes de morrer teria dito que estava sendo ameaçado. Contou que Jorge carregava uma mochila com cerca de “US$ 60 ou US$ 80 mil dólares”, e que estavam separados “há um ano”.

Doze anos depois do crime, a "Viúva Negra" foi ouvida por carta precatória pela Justiça de Brasília. Seu primeiro amante, Carlos Pinto da Silva – que assim como ela é advogado –, a representou.

Diferentemente da primeira versão, Heloísa contou que passou apenas três meses casada com Jorge e que só se uniu a ele para “se mostrar” a Nicolau, com quem namorava “há algum tempo”.

Afirmou que a separação se deu porque o militar seria "agiota”, e “mentia muito”, além de “ter muitos inimigos”. Também declarou que a renda de Jorge “não era lá grande coisa” e que que havia tido prejuízo com o casamento.

Com a morte do tenente-coronel, Heloísa e o filho que ele registrou teriam recebido uma casa no Jardim Botânico (zona sul), um apartamento na Barra da Tijuca (zona oeste), uma sala comercial em Copacabana (zona sul) e uma cobertura na Ilha do Governador (zona norte).

Após a perda de dois maridos, Heloísa corteja homem de 84 anos

Arquivo pessoal
O comerciante Wagih Murad quando jovem; ele era amigo de Nicolau Saad, um dos maridos de Heloísa
Ainda em 1992, Heloísa telefonou para outro comerciante libanês, Wagih Elias Murad, de 84 anos, e se apresentou como viúva de Saad, de quem Wagih era amigo. Disse que precisava de orientação sobre imóveis, segundo o filho da vítima, Elie Murad.

Elie afirma que Heloísa e seu pai se encontraram no mesmo dia, uma quarta-feira, e na sexta viajaram para um fim de semana em comum, quando começaram a namorar.

Ele diz ainda que o pai e Heloísa viajaram para Miami e Caribe (EUA), mas romperam o romance em dezembro daquele mesmo ano. O motivo seria a descoberta feita por Wagih, por meio de um amigo policial, de que a namorada era bígama.

No dia 14 de maio de 1993, Wagih Murad e o filho de um amigo libanês, Wagner Laino, foram assassinados a tiros quando passavam pela Barra da Tijuca.

O inquérito 273/93, da 16ª DP, que investiga a morte de Murad ainda não foi concluído (depois de passar pela Delegacia de Homicídios da zona oeste, sob o número 19/2005, o inquérito foi levado para o Centro Integrado de Apuração Criminal do Rio de Janeiro, onde pode ser encontrado pelo número 53.156).

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