Viúva Negra: o incrível caso que desafia a Justiça

Procurada pela Interpol, Heloísa Borba Gonçalves é acusada de falsidade ideológica, bigamia e assassinato

Flávia Salme, iG Rio de Janeiro |

Reprodução Disque Denúncia
Aos 61 anos, Heloísa Borba Gonçalves passou a integrar a lista de foragidos da Interpol, a polícia internacional
Procurada pela Interpol, a advogada Heloísa Borba Gonçalves, a “Viúva Negra”, de 61 anos, é protagonista de uma intrincada trajetória onde há mortes, estelionatos, poligamia e dinheiro. Muito dinheiro. Oficialmente ela só é acusada, e será julgada daqui a dois meses, em um dos vários casos em que teve o nome envolvido. Mas a lista de suspeitas que envolvem a viúva não é pequena. “O primeiro marido foi assassinado e ela herdou bens; o segundo foi assassinado e ela herdou bens; o terceiro morreu, e ela herdou bens. É coincidência demais para ser só coincidência”, diz Paulo Ramalho, advogado que entrou recentemente no caso como assistente de acusação do MP.

Após a morte de seus companheiros, Heloísa teria herdado pelo menos sete apartamentos em Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro; três no Leblon (um deles na praia, de frente para o mar); duas casas no Jardim Botânico; três lojas e um apartamento na Barra da Tijuca (zona oeste). Estima-se que os bens herdados por ela cheguem ao valor de R$ 20 milhões.

A história “amorosa” de Heloísa começou em 1969. Porém as suspeitas contra ela só começaram a dar frutos após a morte de seu terceiro marido, o tenente-coronel Jorge Ribeiro. O Ministério Público do Rio de Janeiro tenta driblar a defesa de Heloísa e convencer 12 jurados de que ela matou o militar do Exército e ainda era bígama.

Acusação de homicídio por "motivo torpe"

Segundo a polícia, o tenente-coronel foi torturado e atingido por diversos golpes na cabeça enquanto estava imobilizado com as mãos amarradas para trás, no dia 19 de fevereiro de 1992. O motivo seria sua herança. O julgamento está marcado para o dia 25 julho.

Com base na denúncia do MP, a “Viúva Negra” - apelido que recebeu dos investigadores em alusão a um tipo de aranha que mata o macho após a cópula - teria contratado uma terceira pessoa, ainda não identificada, para matar o marido.

A promotora Patrícia Glioche sustenta que ela não só teria planejado o crime como também auxiliado e facilitado a fuga do assassino.

O militar foi encontrado na sala comercial que mantinha em Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro, deitado no chão com a barriga para baixo, a boca amordaçada e o rosto envolto por uma corda de nylon. As diversas marretadas lhe provocaram traumatismo craniano.

Veja aqui o destino dos homens que se envolveram com a "Viúva Negra"

Arte/iG
As investigações concluíram que Jorge foi morto a golpes de marreta na cabeça. Foi encontrado por um homem que procurava emprego em seu escritório, amordaçado e no chão

Heloísa ainda responde por falsidade ideológica (nove acusações) e bigamia. Na época do crime, estaria casada com três homens: o tenente-coronel Jorge Ribeiro, o comerciante Nicolau Saad, e o policial militar Roberto de Souza Lopes. De acordo com o MP, a “Viúva Negra” aproveitava a falta de comunicação entre cartórios para selar os matrimônios. Também usava diversas identidades para burlar a lei.

O casamento com o PM teria sido realizado em 1985, num cartório em Copacabana. Pouco tempo depois, segundo mostram as investigações, ela teria conhecido Nicolau, de quem se tornou advogada, e, posteriormente, Jorge, a quem teria sido apresentada por uma amiga.

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Certidão de casamento entre Heloísa e o PM Roberto realizado na Quinta Circunscrição do Registro Civil de Pessoas Naturais do Rio de Janeiro; na época ela tinha 35 anos

Documentos anexados ao processo mostram que o casamento com Jorge teria sido realizado em junho de 1989, na cobertura em que ele morava na Rua Rainha Guilhermina, no Leblon (zona sul), por um oficial de registro civil de um cartório na Freguesia, em Jacarepaguá (zona oeste).

Ela teria apresentado documento de identidade como Heloísa Gonçalves Duque Soares, sobrenome que recebeu após casar com seu primeiro marido, em 1983, Irineu Duque Soares. Ele morreu assassinado cinco meses depois do casamento, num caso que a polícia considerou latrocínio.

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Casada com o PM, Heloísa e o tenente-coronel Jorge Ribeiro se unem na 12ª Circunscrição do Registro Civil, como mostra a certidão; Ela tinha 39 anos e Jorge, 51

Com Saad, Heloísa teria se casado em maio de 1990. A documentação foi certificada por um oficial de registro de um cartório no Centro do Rio, que teria recebido de Heloísa documentos que ela usava quando ainda era solteira e carregava o sobrenome dos pais: Borba Gonçalves.

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Dez meses depois de casar com Jorge - e ainda casada com o PM Roberto -, Heloísa se casa com Nicolau Saad; ela com 40 anos e ele, 70


Além das provas apuradas no inquérito policial que investigou o assassinato do militar, a acusação vai tentar mostrar aos jurados que Heloísa obteve vantagem em todos os seus relacionamentos amorosos. Casou-se quatro vezes e namorou outros três homens. Cinco morreram. Segundo o MP, com seis deles teria tido filhos e herdado bens.

“Uma pessoa de bem, inocente, não foge como ela fugiu”, diz Paulo Ramalho, advogado que representa a filha do tenente-coronel Ribeiro.

Defesa tenta barrar júri à revelia

Procurado pelo iG , o advogado de Heloísa, Matusalém Lopes de Souza, não atendeu as ligações nem retornou os recados deixados com sua secretária. Porém, nos processos que correm no Tribunal de Justiça ele argumenta que sua cliente não pode ser submetida a júri popular, de acordo com o Código Penal brasileiro. O primeiro julgamento foi marcado para janeiro de 2008, mas Heloísa não compareceu. De lá para cá, a Justiça adiou o julgamento outras cinco vezes.

O juiz Fábio Uchôa, titular do 1º Tribunal do Júri, já deixou claro, em decisões anexadas ao processo, que aceita a tese do MP, que alega que a Reforma Processual permite que julgamentos sejam feitos à revelia, ou seja, sem a presença do réu. A defesa de Heloísa levou a discussão para o Superior Tribunal de Justiça, que ainda não se manifestou. Enquanto isso, o júri está marcado.

“Se fosse inocente não teria fugido”, diz advogado

Reprodução Disque-Denúncia
Familiares das vítimas contrataram detetives particulares para localizar Heloísa
Investigações particulares, financiadas por familiares das supostas vítimas da "Viúva Negra", indicam que ela estaria nos Estados Unidos, onde viveria em luxuosos apartamentos em Boca Raton, na Flórida, cujos aluguéis mensais custam entre US$ 4 mil e US$10 mil. "Se fosse inocente não teria fugido da maneira que fugiu", diz o advogado Paulo Ramalho, que representa a filha do tenente-coronel Jorge Ribeiro.

Os detetives também descobriram que depois da morte de seu último namorado, em 1993, ela se casou mais uma vez, no Brasil, com o empresário peruano Vicente Lopez Haman. A união foi registrada no dia 12 de julho de 2002, no 24º Ofício de notas, na Barra da Tijuca.

“Não acreditamos que tenha sido um casamento de verdade. Até onde sabemos, Haman possui green card (visto de permanência) e ela se uniu a ele para ter direito ao documento e viver livremente nos EUA”, diz Ramalho. 

Promotora: "No shopping, ela veio me cumprimentar"

A promotora Patrícia Glioche chama a atenção para o comportamento da "Viúva Negra". “É uma sedutora. Anda muito bem vestida, se apresenta como juíza federal e ninguém desconfia. Atitudes, que, aliás, são típicas de todo estelionatário”, diz Glioche.

“Para se ter uma ideia da cara de pau que ela tem, certa vez eu caminhava em um shopping na Barra da Tijuca e ela veio falar comigo. Muito simpática e sorridente. Só depois que ela se despediu que eu atentei para quem era”, relembra a promotora, que na época não poderia ter determinado a prisão de Heloísa porque ela respondia em liberdade.

Rio oferece R$ 11 mil de recompensa por "Viúva Negra"

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