Irmãos e sobrinhos de Nicolau Saad afirmam que passaram a ser perseguidos após descobrirem detalhes da morte do tio

Cercada de casamentos, mortes, processos criminais e heranças milionárias, a história que envolve a “Viúva Negra” , uma senhora de 61 anos também conhecida por Heloísa Borba Gonçalves, se desdobra em inacreditáveis capítulos. Tramas que teriam sido articuladas por ela para herdar o dinheiro dos maridos ricos com quem se casava dão lugar a detalhes até então obscuros. Após 19 anos, a família de Nicolau Saad, terceiro marido de Heloísa, descobriu que a viúva usou uma procuração irregular para impedir os parentes do comerciante de receber um patrimônio estimado em cerca de R$ 30 milhões. “A gente a considerava herdeira até o Ministério Público nos convocar, em 2010, e esclarecer que não era bem assim”, diz Antônio Carlos Saad, sobrinho de Nicolau. "Recentemente passamos a desconfiar da morte de outra tia, Linda Saad. Embora tenha deixado testamento, o patrimônio dela foi parar com a filha da 'Viúva Negra'. Depois que descobrimos esses detalhes, começamos a receber telefonemas anônimos", acrescenta.

Antônio Carlos Saad confere os documentos anexados aos processos contra a
Léo Ramos
Antônio Carlos Saad confere os documentos anexados aos processos contra a "Viúva Negra"; com medo de represálias por parte de Heloísa, os Saad preferem não se identificar

 Com receio de possíveis ameaças de Heloísa, a família Saad diz que adotou medidas de segurança. “Tomamos algumas precauções", diz Carlos Simas, casado com uma das sobrinhas de Nicolau Saad.

A família acredita que Heloísa seja perigosa. "O óbito diz que tanto meu tio Nicolau quanto a tia Linda morreram de maneira natural. Mas para nós foi natural entre aspas”, analisa Antônio. “Ela foi atrás de mim em Nova York e disse que Nicolau morreu atropelado. Para minha irmã, contou que foi engasgado com o suco de laranja”, ele relata. “São várias versões, tudo muito estranho. A Linda, por exemplo, ela enterrou sem nos avisar”, avalia. "Ela é perigosa", afirma.

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"Viúva Negra": julgamento por homicídio marcado para o próximo dia 25 de julho
Oficialmente, Heloísa responde por apenas um homicídio. O do tenente-coronel Jorge Ribeiro, morto a golpes de marreta na cabeça, aos 58 anos, no escritório que mantinha em Copacabana. Ela será julgada por júri popular no próximo dia 25 de julho.O crime foi cometido em 1992, dois meses após a morte de Nicolau. No período, a "Viúva Negra" estava ao mesmo tempo casada com Ribeiro e Saad e convenceu os dois a assumirem um filho que ela dizia ser deles.

A família Saad conta que em 2005 Linda foi convocada pelo Ministério Publico do Rio de Janeiro, que acusou Heloísa de falsidade ideológica. O motivo seria a procuração que ela recebeu em 1987 de Nicolau para cuidar da venda de seus imóveis, e que só usou em 1992, após ele morrer. Registros no 14º Ofício de Notas mostram que ela transferiu sete imóveis no finado marido para seus seis filhos. A sentença saiu em 2007. Além da “Viúva Negra”, seus filhos Patrícia Luciana Gonçalves Pinto e Carlos Pinto da Silva também foram condenados.

Entre os bens está o apartamento onde Nicolau morava na Avenida Delfim Moreira, no Leblon, de frente para o mar. “O prédio tem uma unidade por andar, cinco quartos e três vagas na garagem. Só a sala tem 150 m2. Mas este imóvel não foi sequestrado pela Justiça”, diz Antônio. “Ela cantou Ilariê no velório. Depois foi até o caixão e disse, ‘poxa, Niquinho, nunca mais vou te chamar de narigudo’, é uma pessoa assustadora”, acrescenta a viúva de um irmão de Nicolau que estava presente ao velório.

Carlos Simas mostra a foto da família:
Léo Ramos
Carlos Simas mostra a foto da família: "O Nicolau e a Linda eram muito apegados aos parentes. Achamos que os dois foram coagidos pela

Carlos Simas, casado com uma sobrinha de Nicolau Saad, conta que após a sentença a Justiça determinou o sequestro dos bens em nome da “Viúva Negra” e seus filhos. “Ela vendeu três imóveis na Barra da Tijuca e manteve dois, que ainda consegue cerca de R$ 140 mil por mês pelo aluguel deles”, afirma Simas. Segundo ele, isso é possível porque o inventário de Saad não ficou pronto. A família recorreu ao Poder Judiciário a fim de fazer com que os atuais locatários depositem o valor do aluguel “em juízo. A 19ª Vara Criminal nos negou esse direito. Mas nós recorremos na Vara Cível”.

“A morte da tia Linda não está bem esclarecida”, diz família

Os Saad também põem sob suspeita a morte da irmã de Nicolau Saad, Linda Saad. Ela morreu aos 90 anos, segundo o atestado de óbito, de “insuficiência respiratória”. Quem declarou a morte foi Heloísa, como mostra o documento.

Atestado de óbito de Linda: Heloísa declarou a morte. Na ocasião, usou uma das várias indentidades que possui, a que assina Heloísa Saad
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Atestado de óbito de Linda: Heloísa declarou a morte. Na ocasião, usou uma das várias indentidades que possui, a que assina Heloísa Saad

A família diz que Linda, embora tenha se casado, não teve filhos. Perto de chegar aos 70 anos, ela e o marido, que era português, foram para a casa de repouso D. Pedro V, em Copacabana, bairro onde ela mantinha um apartamento de três quartos na Rua Barata Ribeiro.

Em 2005, quando a Justiça aceitou a acusação de falsidade ideológica apresentada pelo MP contra Heloísa – ela já respondia pelo homicídio do tenente-coronel Ribeiro desde 2004 – Linda foi convocada a depor. De acordo com a sentença do processo 2005.001.096042-7, Linda disse ao juiz que considerava estranha a assinatura do irmão, “muito firme” para quem tinha a saúde debilitada e idade avançada (ele tinha 70 anos). Também declarou achar estranho o irmão ter dito antes de morrer que passava por “dificuldade financeira, por causa dos problemas de saúde”, já que ele era rico.

Logo após o depoimento de Linda, Heloísa e a filha Patrícia foram à casa de repouso onde Linda estava instalada e a levaram. “A família só descobriu dias depois, quando um dos sobrinhos foi visitá-la e não a encontrou”, conta Simas.

Segundo os Saad, a clínica informou que Linda havia sido levada pela cunhada, Heloísa, mas o destino era desconhecido. Quinze dias depois, Heloísa telefonou para um sobrinho de Saad e informou que estava com a tia dele em São Paulo.

A “Viúva Negra” levou Linda para uma casa que Patrícia mantinha na Alameda Madrepérola, 713, casa 09, Alphaville, em Santana do Paraíba, São Paulo. Sete meses depois, os familiares contam que Heloísa ligou para um dos sobrinhos e disse que Linda havia morrido. “Ele pediu para ela nos passar o endereço de onde estavam porque ela havia informado em testamento que queria ser enterrada no mausoléu da família no cemitério São João Batista, no Rio. E ela desligou o telefone após dizer que já tinha feito o enterro”, diz Simas.

Trecho do testamento de Linda em que ela deixava imóveis para irmãos e sobrinhos, e pedia para ser enterrada no cemitério São João Batista, no Rio
Léo Ramos
Trecho do testamento de Linda em que ela deixava imóveis para irmãos e sobrinhos, e pedia para ser enterrada no cemitério São João Batista, no Rio

“Descobrimos que, enquanto estava em São Paulo, a Linda ‘doou’ o imóvel que tinha em Copacabana para a Patrícia, filha mais velha da Heloísa. Ora, ela tinha um testamento em que deixava o apartamento para oito sobrinhos, incluindo o Marcelo, filho que Heloísa disse ser do Nicolau e do tenente-coronel Ribeiro”, revolta-se Simas. “Achamos que ela foi coagida. Até porque, a Heloísa a fez assinar uma declaração registrada em cartório na qual Linda afirmava que era bem tratada por ela. E quem é bem tratado precisa assinar declaração?”, indaga.

Os Saad também pedem à Justiça que anule o casamento de Heloísa com Nicolau Saad e exigem teste de DNA em Marcelo, filho que a “Viúva Negra” registrou tanto com Saad quanto o tenente-coronel Jorge Ribeiro.

Convocado pela Justiça, Marcelo, hoje com 21 anos, não compareceu. “O Nicolau tinha câncer de próstata e fez uma operação para combater o problema. Naquela época, a medicina não era tão avançada e ele ficou infértil. Não acreditamos que o filho seja dele”, diz Simas.

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