No Estado onde o desmatamento disparou no mês passado, governos estadual e federal querem reduzir taxa a zero a partir de agora

No dia seguinte à derrota na votação do Código Florestal na Câmara dos Deputados, a cúpula do governo federal foi a campo verificar os esforços feitos nos últimos dias contra o desmatamento que ocorre em ritmo acelerado em Mato Grosso. Segundo agricultores e o próprio governo, o resultado da votação e a tramitação do Código, entre outros motivos, levaram a uma aceleração do desmate.

O iG acompanhou a comitiva da ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, e do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e viu o estrago causado por um “correntão” em uma área de desmatamento ilegal. A ação foi resultado do gabinete de crise , criado após se perceber crescimento de um quarto do desmatamento em nove meses.

O “correntão” é um instrumento que passou a ser usado recentemente por produtores rurais na Amazônia. Trata-se de uma corrente de aço, que pesa toneladas, usada para atracar navios em grandes portos. No campo, elas são puxadas por dois tratores, um de cada lado, para acelerar o desmatamento.

“Do ‘correntão’ não escapa nada, nem fauna, nem árvore”, diz o diretor de Proteção Ambiental do Ibama, Luciano Menezes Evaristo. Segundo dados de satélites coletados pelo Inpe, 80% do desmatamento na Amazônia Legal ocorreu no Mato Grosso em abril, ou seja, 480 quilômetros quadrados.

No vídeo abaixo é possível ver os 120 hectares que dois tratores causaram em Sinop, no Norte do Mato Grosso, em menos de uma semana. Os tratores e a corrente foram descobertos por uma operação do Ibama no domingo. Desde então, fiscais do órgão ambiental, da Força Nacional de Segurança e da Polícia Federal montam guarda no local para evitar que os equipamentos sejam roubados.


O governo embargou a propriedade, chamada Fazenda Santa Maria, e multou seu dono em R$ 600 mil. Ele responderá pelo crime, porque não tinha licença estadual para o desmate.

Durante a visita dos ministros a Sinop ontem, o governador do Estado, Silval Barbosa (PMDB), foi pressionado a decretar o fim do uso do “correntão” no Estado. Isso porque, diferentemente de outros Estados da Amazônia legal, o “correntão” era aceito em áreas legais no Mato Grosso.

Operação encontrou tratores puxando correntão em Sinop (MT), na noite de domingo
Danilo Fariello, iG
Operação encontrou tratores puxando correntão em Sinop (MT), na noite de domingo
O governador anunciou, ainda, que o Estado vai informar ao Banco Central quem são os desmatadores da região, para evitar a concessão de crédito a eles. O governo federal já possui essa política de restringir empréstimos a quem não tenha licenças.

Conflito federativo

O governo federal vê no governo do Estado de Mato Grosso um dos principais desafios para a redução do desmatamento. Há poucos dias, o governo local aprovou sua lei de zoneamento econômico-ecológico, que, segundo o Ministério do Meio Ambiente, impõe riscos à Natureza e alivia o controle sobre o desmate.

O MMA e o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) podem rejeitar o texto que foi aprovado na assembleia matogrossense, por não coincidir com o Marcozoneamento Nacional, publicado no início deste ano por Decreto Presidencial.

Segundo Barbosa, porém, o zoneamento foi extremamente discutido no Estado, em 15 seminários ao longo de 12 anos e ordena bem o território do Estado. “O zoneamento nosso é muito mais restritivo do que o Código Florestal (recém-aprovado).”

Meta é desmatamento zero

Apesar da aceleração dos cortes no Estado, que, apenas em abril, significaram a metade do total do ano passado, segundo Izabella, governos federal e estadual miram o desmatamento zero nos próximos meses, em operação especial que vai durar até o fim de julho. Essa operação vai unir Ibama, PF, Força Nacional, Exército e Polícia Rodoviária.

Apesar do crescimento do desflorestamento na região central de Mato Grosso, a ministra lembra que 62% dos municípios do Estado reduziram seus níveis de desmatamento neste ano e apenas 15% tiveram elevação. “O governo federal vem se unir ao estadual para conquistarmos o desmatamento zero nos próximos meses”, diz Izabella.

* O repórter viajou a convite do Ministério do Meio Ambiente

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.