Vida do escritor Mario Benedetti foi marcada por compromisso social

MONTEVIDÉU - O escritor uruguaio Mario Benedetti deixa atrás de si uma rica obra, na qual os mais de 80 romances, ensaios, contos e poemas escritos mostram o compromisso social e a coerência de alguém que acreditou na vida e no amor, na ética e em todas essas coisas tão fora de moda.

EFE |

"Ele sempre disse que se sentia mais poeta que outra coisa", afirmou a biógrafa do escritor, Hortensia Campanella, quando apresentou, há alguns meses, o livro "Mario Benedetti. Un mito discretísimo".

Na obra, ela traça a trajetória de um dos mitos da literatura hispano-americana do século XX e talvez a consciência poética de todo um continente.

Essa poesia se transformou no único pilar para enfrentar seus últimos anos, após a morte da esposa, Luz López, em 2006, sua companheira há mais de seis décadas e a melhor crítica do poeta.

Benedetti teve "uma vida que foi perseguindo a utopia e que, por isso mesmo, encontrou na poesia sua melhor expressão, ou pelo menos, a mais querida, a mais autêntica", explicou Campanella.

Joan Manuel Serrat, Daniel Viglietti, Pedro Guerra, Rosa León, Juan Diego ou Nacha Guevara são só alguns dos cantores que deram voz aos versos de Benedetti.

A poesia, dizia Benedetti, é "um sótão de almas", uma "claraboia para a utopia" e "uma drenagem da vida/ que ensina a não temer a morte".

Foi também o martelo que lhe permitiu forjar uma carreira literária ligada às profissões mais diversas: empregado de uma oficina, taquígrafo, caixa, vendedor, contador, funcionário público, tradutor e jornalista, antes de se dedicar ao que mais gostava.

"Quando tenho uma preocupação, uma dor ou um amor, tenho a sorte de poder transformar em poesia", afirmava.

Títulos como a primeira obra do autor, "La víspera indeleble", os "Poemas de la oficina", "Rincón de Haikus", os grandiosos três "Inventarios" ou as "Canciones del que no canta" foram coroados no ano passado com seu último poemário, "Testigo de uno mismo".

Este livro era "um pouco o resumo de uma carreira poética extraordinária", com todos os grandes temas da poesia universal transbordando pelas páginas, como disse a romancista Sylvia Lago.

Além disso, nesta obra já se pressentia o final dos dias do escritor, pois ele dizia claramente que se sentia só sem sua amada Luz e com um mundo reduzido: "Chega a noite e estou só/ me aturo a duras penas/ o bom amor a morte o levou/ e não sei para quem seguir vivendo".

A poesia também deixou muito espaço para a prosa na obra de Benedetti e, assim, seu principal romance, "La tregua", é uma das luzes da literatura do continente, com mais de 140 edições em 20 idiomas desde que foi publicado, em 1960.

O poeta também dedicou tempo aos contos, nos quais "cada palavra tem valor por si só" e, sobretudo, "têm a ver com os sentimentos", como explicou em 1998.

O conto "é o gênero mais gratificante, tanto para o autor quanto para o leitor", pois, "desde tempo imemorável, as pessoas gostam de que lhes contem coisas, e alguns gostam de contá-las", dizia o autor de "Geografía", "La vecina orilla" e "Montevideanos".

Tanto a prosa como a poesia de Benedetti foram reconhecidas amplamente, e isso é atestado por prêmios Ibero-americano José Martí (2001) e Internacional Menéndez Pelayo (2005).

Em sua última aparição pública, em dezembro de 2007, Benedetti recebeu a Ordem Francisco Miranda, dada pelo presidente venezuelano, Hugo Chávez, na Universidade da República do Uruguai, aclamado pelas centenas de estudantes que reconheciam no poeta um ícone nacional.

Chávez reconheceu o autor de "Gracias por el fuego" como um ícone da esquerda latino-americana, pelo compromisso social que refletiu em sua vida, com o exílio durante a ditadura uruguaia na Argentina, em Cuba e na Espanha, e, sobretudo, em sua obra.

"A consciência é a única religião", chegou a dizer este crítico da "grande hipocrisia que rege toda a vida política" e da globalização, à qual chamou de "ditadura indiscriminada, que cada vez conduz mais ao suicídio da humanidade".

Em declarações à Agência Efe em junho de 2002, Benedetti explicava que, apesar de "os poetas não terem capacidade de influir nos Governos", "atingem o cidadão comum, e, às vezes, servem para esclarecer uma dúvida, para dar uma tímida resposta a uma pergunta de alguém".

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