Vannuchi diz que capitão do Exército poderia ter evitado morte de jovens na Providência

BRASÍLIA - O ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH), Paulo Vannuchi, disse nesta quinta-feira que o capitão do Exército Leandro Ferrari poderia ter evitado a morte dos três jovens moradores do Morro da Providência, no Rio de Janeiro.

Redação com Agência Brasil |


Os rapazes foram entregues por militares, no dia 14 de junho, a traficantes do Morro da Mineira, controlado por uma facção de traficantes rival à que atua na Providência. No dia seguinte, os jovens apareceram mortos em um aterro sanitário, na Baixada Fluminense.

Apesar de o oficial superior ter mandado liberar os jovens após uma revista, um tenente determinou que eles fossem colocados em um caminhão e levados para o Morro da Mineira, onde foram entregues a traficantes.

O capitão também erra quando percebe sinais de descumprimento da ordem [para liberar os jovens], disse o ministro, após participar de reunião do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH), no Ministério da Justiça.

Para Vannuchi, que preside o conselho, o capitão Ferrari poderia ter dado voz de comando como qualquer capitão do Exército sabe dar para um tenente que começa a negociar a soltura de detidos.

Claro que daí a dizer que ele tem co-autoria vai uma longa distância, mas realmente podia ter determinado a libertação ali na frente dele. Não teria havido assassinato dos três, completou Vannuchi. O capitão Ferrari não está entre os militares presos e sob investigação.

O relatório parcial apresentado nesta quina por uma comissão especial do CDDPH que acompanha o caso confere acentuada gravidade e complexidade ao assassinato dos jovens.

Segundo o documento, um total de 46 disparos foram efetuados. Wellington Gonzaga Ferreira, 19 anos, foi morto com 26 disparos. David Wilson da Silva, 24 anos, morreu com 18 disparos. Marcos Paulo Campos, 17 anos, foi morto com dois disparos e foi o primeiro a morrer, enquanto tentava fugir. A comissão aponta que, além das marcas de disparo, dos corpos evidenciavam sinais de tortura.

Depoimentos

AE
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Tenente Vinicius chora durante depoimento

Acusado de ser o responsável pela entrega de três jovens do Morro da Providência que foram assassinados por traficantes do Morro da Mineira, o tenente Vinícius Ghidetti de Moraes Andrade chorou muito ao ser interrogado pelo juiz Marcello Granado, da 7ª Vara Criminal Federal. Em seu depoimento, ele disse que sofreu pressão de seus subordinados ¿ os outros 10 militares envolvidos no caso ¿ e resolveu dar um susto nos jovens.

Ele contou não ter imaginado que os traficantes da Mineira ¿ morro controlado pela facção Amigo dos Amigos, rival a Comando Vermelho, da Providência ¿ fossem matar os três jovens. Além do tenente, os sargentos Leandro Maia Bueno, Bruno Eduardo de Fátima e Renato de Oliveira Alves, e os soldados Jose Ricardo Rodrigues de Araujo e Julio Almeida Ré serão ouvidos nesta quinta.

Indenização

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, anunciou que um projeto de Lei do Executivo será enviado ao Congresso Nacional para estipular que tipo de indenização os familiares dos três rapazes do morro da Providência, centro do Rio, assassinados por traficantes de um morro rival após serem entregues por membros do Exército, devem receber.

De acordo com Jobim, a idéia é oferecer um salário mínimo (R$ 415) por mês para cada uma das famílias. O ministro não deu detalhes sobre o tempo em que o benefício será concedido.

Na ocasião Jobim defendeu o uso do Exército em ações sociais, negou um possível caráter eleitoral nas obras do programa e lamentou a determinação da Justiça eleitoral em suspender as obras na Providência. Para ele, quem mais saiu perdendo foi a população local.

Entenda o caso

AE/Marcos DPaula
Policiais do Exército e moradores em confronto
Marcos Paulo da Silva, de 17 anos, Wellington Gonzaga Costa, 19, e David Wilson Florença da Silva, 24, moradores do Morro da Providência, na zona Portuária do Rio, teriam sido entregues no sábado, dia 14, e mortos, menos de 12 horas depois, por traficantes do Morro da Mineira, no Catumbi.

Em depoimento ao titular da 4ª Delegacia de Polícia, delegado Ricardo Dominguez, alguns dos suspeitos teriam confessado o crime. Os jovens foram detidos pelos militares às 7h30 do sábado, quando voltavam de táxi de um baile funk, por desacato. Porém, o comandante da tropa determinou que eles fossem liberados após serem ouvidos.

Testemunhas afirmam que os rapazes ficaram sob o poder dos militares até as 11h30 e depois foram entregues a traficantes de uma facção rival a do Morro da Providência, onde os rapazes moravam, no Morro da Mineira, onde foram executados. Há denúncias de que as vítimas teriam sido vendidas por R$ 60 mil.

De acordo com o laudo do Instituto Médico Legal (IML), Wellington teve as mãos amarradas e o corpo perfurado por vários tiros. David teve um dos braços quase decepado e também foi baleado. Marcos Paulo morreu com um tiro no peito e foi arrastado pela favela com as pernas amarradas. Os corpos foram encontrados no lixão de Gramacho, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

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