SÃO PAULO (Reuters) - O grupo francês Tereos, um dos líderes globais em produção de açúcar e etanol, anunciou nesta segunda-feira o agrupamento de seus ativos no Brasil (Açúcar Guarani) com outros situados na Europa e também na região do Oceano Índico, o que deve fortalecer a companhia para participar do processo de consolidação do setor sucroalcooleiro brasileiro. A operação formará a Tereos Internacional, terceira maior processadora de cana-de-açúcar do mundo, com moagem de 18 milhões de toneladas em 2008/09, segundo o grupo. A empresa, que terá sede em São Paulo, planeja posteriormente lançar ações nas bolsas de São Paulo e Paris, dependendo das condições do mercado.

Por volta das 12h40 (horário de Brasília), as ações da Açúcar Guarani registravam alta de 2,2 por cento, enquanto o Ibovespa subia 1,4 por cento.

"A gente acredita que é um mercado (o de cana do Brasil) que ainda vai ser consolidado. O que a Tereos está se preparando é para ser efetivamente um dos consolidadores", afirmou a analistas Jacyr Costa, presidente-executivo da Guarani e responsável pelas operações brasileiras do grupo.

Questionado em teleconferência se há alguma aquisição à vista, ele disse que não.

Empresas estrangeiras estão participando fortemente do processo de consolidação do setor no Brasil, ainda bastante pulverizado.

Na safra que se encerrou, as cinco maiores empresas tinham 27 por cento da produção do país, segundo dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), contra 12 por cento registrados há cinco anos. Na nova temporada, mais de 20 por cento das companhias do setor terão participação estrangeira, segundo a Unica.

"Em bioenergia, há uma tendência favorável de crescimento no curto e médio prazos. O mercado de etanol nos oferece uma grande oportundade de crescimento graças aos mandatos de uso e regulamentações", afirmou Costa.

Segundo ele, a expectativa é de que os mercados de etanol americano, europeu e brasileiro dobrem de tamanho.

Ele destacou que a companhia, que já tem presença forte em cogeração, elegeu esse segmento, que deve crescer cinco vezes no Brasil, a segunda prioridade da empresa em bioenergia.

"Claramente, o primeiro foco vai ser participar da consolidação do mercado brasileiro... claro que a cogeração vai ser um foco importante, tem um potencial muito grande", completou André Trucy, o presidente da Tereos Internacional, ex-diretor da Rhodia Brasil.

Embora seja uma das líderes em açúcar e etanol no mundo, a maior parte da receita da Tereos vem de suas unidades produtoras de alimentos e bebidas (52 por cento), com os segmentos de etanol/energia respondendo por 26 por cento do faturamento.

Essa divisão de receitas, no entanto, pode mudar no futuro. "O que a gente espera é pouco crescimento na Europa e um crescimento significativo no Brasil e em outros países", ressaltou Costa.

OFERTA DE AÇÕES

A oferta de ações deve fortalecer a companhia nesse processo de expansão, mas os executivos evitaram falar sobre recursos que poderão ser obtidos.

"Ainda é cedo demais para responder a esta pergunta, mas o objetivo é proporcionar recursos para o crescimento futuro da empresa e, junto com isso, que a Tereos mantenha uma participação majoritária dentro do grupo", disse Alexis Duval, diretor financeiro da Tereos.

A nova empresa terá receita líquida anual proforma de 2,5 bilhões de dólares e Ebitda (lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação) de 366 milhões de dólares, além de mais de 11 mil funcionários, combinando a companhia brasileira com ativos de cereais na Europa e de cana-de-açúcar no Oceano Índico.

A Tereos vai incorporar as ações da Guarani na Tereos Internacional juntamente com os ativos na Europa e Oceano Índico.

A expectativa é que entre abril e maio a relação de troca de ações seja determinada por um comitê independente, enquanto a assembleia de acionistas para aprovar a transação acontecerá no final de junho, com ofertas públicas de ações sendo realizadas depois disso.

A Tereos divulgou em uma transação anterior com produtores parceiros de cereais, anunciada em 9 de março, uma relação de troca implícita com a Guarani de 40-60 por cento. Nessa operação, em que a Tereos espera finalizar até o final de junho, os ativos da Guarani foram calculados em 686 milhões de euros, enquanto os da Tereos EU, que reúne ativos do Oceano Índico e de cereais na Europa, em 1,021 bilhão de euros --incluindo 393 milhões apenas para ativos de trigo.

Com base nessa transação do início do mês, a companhia informa em apresentação que o prêmio implícito sobre o preço de fechamento da ação da Guarani na sexta-feira --de 4,83 reais-- seria de 21 por cento.

(Por Alberto Alerigi Jr. e Roberto Samora, com reportagem adicional de Sybille de La Hamaide em Paris)

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