Uma semana após confrontos, moradores de Paraisópolis ainda tentam retomar rotina

Manhã de segunda-feira em Paraisópolis, e o movimento nos corredores da Associação de Moradores é intenso. Nas salas, adultos e crianças usam os computadores, recebem aulas e orientações profissionais e jurídicas. Do lado de fora, grupos conversam nas esquinas, em frente aos bares e às muitas lojas da região. Tudo parece normal, até policiais armados passarem pela rua e lembrarem que a favela em Campo Limpo, na zona sul de São Paulo, ainda está sob forte vigilância.

Juliana Kirihata, repórter do Último Segundo |

Juliana Kirihata/ Último Segundo
Moradores de Paraisópolis retomam a rotina

Moradores de Paraisópolis retomam a rotina após confrontos

Uma semana após os confrontos entre manifestantes e policiais que deixaram pelo menos seis feridos, a população de Paraisópolis ainda tenta retomar a rotina, apesar dos 400 policiais, 20 cavalos, quatro cães, um helicóptero e cem viaturas que patrulham a região, onde vivem cerca de 80 mil pessoas. 

Desempregado, o estudante Charles Santos Silva, de 19 anos, foi nesta segunda-feira à Associação de Moradores atrás de orientação sobre um curso profissionalizante. Hoje, com a presença ostensiva da polícia, o jovem se diz muito mais seguro, mas, no dia dos confrontos, lembra que ficou com o coração na mão. 

Naquele dia, a minha namorada estava sozinha na casa dela, morrendo de medo. Eu disse que iria até lá, mas no caminho eu tive que passar por toda a bagunça. Tinha fogueira, mulher chorando. O Choque já estava na rua e eu fiquei com medo de eles me confundirem com os baderneiros, lembra.

Charles, que mora há dez anos na segunda maior favela de São Paulo, foi um dos muitos que se assustaram com a violência, que, segundo ele, não batia tão forte na porta dos moradores de Paraisópolis há tempos. Quando eu cheguei aqui era mais violento, mas nos últimos cinco anos a coisa melhorou. A rotina daqui é calma, conta ele.

De acordo com Charles, os jovens da comunidade costumam sair à noite sem medo da violência: eu costumava ir às festas que tem por aqui. Tem pizzaria, forró, pagode. Agora não saio muito porque estou namorando sério.

Aqui não é violento. Houve um negócio desse tamanho e não houve uma morte

Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública de são Paulo, a taxa de homicídos na subprefeitura de Campo Limpo diminuiu de 74,6 ocorrências por cem mil habitantes, em 2004, para 40,84 em 2006.

Juliana Kirihata/ Último Segundo
Francinilda trabalha na associação

Francinilda trabalha na associação

Assim como o estudante, a costureira Francinilda Oliveira da Silva, de 56 anos, acredita que o incidente da semana passada foi uma exceção. Voluntária há 23 anos da Associação de Moradores, ela se orgulha do que a comunidade conquistou nos últimos anos. Quando cheguei era só barraco de madeira, não tinha luz, nem água encanada. Hoje está muito melhor, até menos violento, afirma.

Desde 2006, a prefeitura de São Paulo realiza o projeto de urbanização na região, que inclui ações como entrega de casas, pavimentação de vias, canalização de córregos, pinturas das fachadas, entre outras. Na 1ª etapa, foram gastos R$ 20 milhões e, na 2ª, ainda em andamento, o investimento previsto é de R$ 170 milhões.

No dia dos confrontos, Francinilda disse que não saiu de casa. Na terça-feira, porém, ela afirma ter trabalhado normalmente, sem medo. Aqui não é violento. Houve um negócio desse tamanho e não houve uma morte, justifica.

Um dia após os confrontos, muitos não tiveram a mesma coragem que a voluntária. Com a polícia em peso nas ruas e a incerteza de novas manifestações, muitos resolveram passar o dia dentro de casa. Se, todos os dias, cerca de 250 pessoas frequentam o Telecentro comunitário, na terça-feira ninguém compareceu.

Alguns estabelecimentos também não abriram. Os que resolveram tocar o comércio não encontraram muitos clientes. Na terça-feira não tinha ninguém na rua. Estava um clima chato, conta Pamella Nunes de Morais, de 20 anos, dona de um bar na rua Ernest Renan. Segundo ela, o estabelecimento teve redução de 90% nos lucros. A gente não vive mais em paz. Foi a primeira vez que aconteceu isso por aqui. Em 20 anos, o bar nunca foi assaltado, afirma.

De certa forma a polícia assusta os moradores, que ficam com medo de que aconteça briga de novo. Mas, também, se acontecer alguma coisa é bom, porque a polícia já está aqui

Polícia nas ruas

Por volta do meio-dia de segunda-feira, três viaturas da Polícia passam em frente ao bar de Pamella. Desde os confrontos da semana passada, a presença dos policiais é constante na região.

Segundo a comerciante, a ação ajuda a afastar os clientes: de certa forma a polícia assusta os moradores, que ficam com medo de que aconteça briga de novo. Mas, também, se acontecer alguma coisa é bom, porque a polícia já está aqui.

Para o presidente da Associação dos Moradores de Paraisópolis, Gilson Rodrigues, de 24 anos, a presença da polícia não pode assustar os moradores: o nosso conceito de segurança é a prevenção. Não queremos abusos sobre ninguém. Logo após os confrontos houve exageros, que estamos tentando consertar agora.

Na tarde de segunda-feira, a polícia abordou quase três mil pessoas, vistoriou 37 ônibus e prendeu dois suspeitos durante a Operação Saturação, que não tem previsão para acabar.

Rotina

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Rosângela atende cliente no salão em Paraisópolis

Rosângela atende cliente no salão em Paraisópolis

Mesmo com a ação da polícia, o salão de beleza de Rosângela de Jesus Santana já tinha movimento normal na segunda-feira, segundo ela. Por volta das 14h, a cabeleireira cortava o cabelo de uma cliente, ao som de forró. O assunto não era violência, mas a chuva, que havia inundado casas da região no fim de semana.

O presidente da associação acredita que a rotina em Paraisópolis já está sendo retomada: na terça-feira as pessoas estavam mais tensas, na quarta a situação começou a melhorar e agora já está normal.

Para os moradores, a rotina pode estar sendo retomada aos poucos, mas a de Rodrigues foi alterada nos últimos dias. "Tive que dedicar toda minha agenda para representar a associação, diz ele, que após os confrontos atendeu diariamente jornalistas, autoridades e até artistas.

Juliana Kirihata/ Último Segundo
Supla com moradores de Paraisópolis

Supla com moradores de Paraisópolis

Nesta segunda-feira, por exemplo, além da reportagem do Último Segundo, apareceram na sede da associação os cantores e apresentadores Supla e João Suplicy. Eu vim como cidadão , disse Supla, que também elogiou os projetos sociais da comunidade.

Segundo a voluntária Juliana Oliveira, de 25 anos, a associação serve diariamente cerca de 80 refeições, distribui cestas básicas, oferece aulas de curso pré-vestibular e de computação. Eleito em dezembro do ano passado, Rodrigues diz que o grupo luta, principalmente, por três bandeiras: urbanização com garantia de moradia, educação da alfabetização à universidade e trabalho com carteira assinada.

Queremos que o mal tenha vindo para o bem, e esses encontros virem parcerias. A associação já conseguiu muitas, são 60 organizações que atuam em Paraisópolis, afirma. Para ele, porém, a ajuda ainda não é suficiente. Os projetos só conseguem atingir 50% da demanda. Ainda temos cinco mil crianças fora das escolas, 13 mil analfabetos, só temos um campo de futebol. Precisamos melhorar, ressalta o jovem presidente.

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