Uma mulher à frente do Flamengo e seus 35 milhões de torcedores

Uma mulher à frente do Flamengo e seus 35 milhões de torcedores Por Cristiana Vieira São Paulo, 25 (AE) - Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, comemorado em 8 de março, Patricia Amorin é um bom exemplo de mulher bonita, bem preparada e, acima de tudo, competente. Aos 40 anos, ela enfrentou cinco concorrentes - todos homens - para chegar à cadeira da presidência do maior clube esportivo do Brasil, o Flamengo, com seus 35 milhões de torcedores fanáticos.

Agência Estado |

E venceu. Foram 792 votos contra 699 - de Delair Dumbrosck, o segundo colocado. Não foi fácil. Além da disputa, teve de lidar com o mundinho machista. Afinal, tornou-se a primeira mulher a chegar à presidência do clube. "Foi difícil, trabalhei duro e me dediquei muito", diz a poderosa, que não deixa de exaltar sua experiente equipe.

Durante a campanha, emagreceu seis quilos. "Não queria perder tempo fazendo uma refeição. Mas já recuperei uns dois", conta. Pior foi ter de ouvir que deveria se candidatar à vaga de vice-presidente, já que o cargo máximo não seria lugar para mulher. "Puro pré-conceito. Subestimaram minha capacidade. Mas o que me sustenta não é papel, é trabalho", responde. Seu grande desafio no clube é baixar a dívida de R$ 300 milhões, já que o orçamento para 2010 é de R$ 148 milhões. "Temos compromissos e não vamos fugir disso."

Sua rotina não sofreu grandes mudanças, pois sempre trabalhou muito e teve uma vida regrada, como todo atleta dedicado. Mas para dar conta de um clube dessa dimensão e de cinco homens dentro de casa - além do marido, ela é mãe de quatro meninos -, Patrícia conta com uma boa estrutura doméstica, além de ser uma pessoa superorganizada. Conta que não perde o foco, tem apoio do marido e procura sempre conversar e esclarecer as coisas com os filhos. "Trabalho muito, mas gosto do que faço."

Desafio é dar conta dos compromissos pessoais. Claro que, em algumas situações, ela não consegue estar presente. Só tem uma coisa da qual não abre mão: participar das reuniões escolares dos filhos. "Todos praticam esporte no clube. Foi a maneira que encontrei para conseguir encontrar com eles em algum momento do dia."

E o estresse ? Para conciliar o trabalho no clube com a família e a casa, Patricia tem uma receita que sempre deu certo. "O segredo é não se culpar nem sofrer. Se por acaso chego a uma situação extrema que beira o insuportável, me reprogramo", diz com simplicidade.

DOIS GUMES

Imaginar que há tantos milhões de fanáticos pelo time que passou a presidir desde o início do ano, pode assustar. Mas Patricia não tem medo do tamanho do clube e garante que sua relação com a torcida é saudável. "O que for melhor para o Flamengo vai ser feito. E o que depender de mim, também", assume.

O que ela quer é mudar a história do clube em relação à administração. "Nada melhor do que uma mulher para arrumar a casa", brinca. Para isso, dedica-se integralmente. Sua filosofia é não ser linha dura e confiar no "olho no olho". Como foi atleta e esteve do outro lado, tem facilidade de compreender, usando armas como a sensibilidade e bom senso, peculiaridades feminina. "Temos de lidar com a complexidade do ser humano, tentando convergir interesses e objetivos."

O fato de ter uma mulher à frente do clube trouxe um furor que ela realmente não esperava. Bom é ver a repercussão e o apoio da mulherada nas ruas, o que a deixa muito orgulhosa. Tanto que já pensa em alguma estratégia de marketing especialmente para o público feminino. "Temos de aproveitar a euforia." A única coisa que a deixa incomodada dentro do clube é algo que acompanha desde criança: a falta de manutenção das instalações, que estão muito degradadas.

CARREIRA

Patricia foi atleta de 1977 a 1994. Aliás, a primeira da natação brasileira a conquistar um patrocínio individual (da Kibon). O Brasil completava dez anos sem ter um nome nas Olimpíadas quando ela representou o País, em Seul, no ano de 1988. Aos 25 anos, carregava em seu currículo 28 títulos nacionais e 29 recordes sulamericanos.

Grande nome da natação feminina nos anos 1980, ela formou-se em Educação Física e mergulhou no comando dos esportes olímpicos do Flamengo, quando encerrou a carreira de atleta, em 1991. E passou por diversos departamentos no clube. Foi esportista, estagiária, professora, comandou equipes de polo aquático, basquete, ginástica e natação, diretora, vice-presidente... "Fui tudo o que poderia ser", orgulha-se.

E ainda tem a verve política. Patricia é vereadora do Rio pelo PSDB, no terceiro mandato. E sempre lutou pelo incentivo ao esporte.

O preconceito não pauta suas ações. "Quando sou espetada, transformo isso em motivação". E tem mais: "Quero falar pouco e fazer muito". Será que algum machão duvida?

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