Uma escola preparatória aparentemente agradável em Cannes

O jovem nova-iorquino Antonio Campos, filho do jornalista brasileiro Lucas Mendes, descreve com conhecimento de causa o universo inquietante de uma escola preparatória americana em Afterschool, exibido neste domingo na mostra Un Certain Regard (Um Certo Olhar) do Festival de Cannes.

AFP |

De cara, Campos já mostra o que deseja, com uma sucessão de imagens, a maioria violentas, retiradas da internet, desde brigas anônimas em escolas até a morte de Saddam Hussein, passando por seqüências pornô que beiram o estupro.

Estas imagens são assistidas no monitor de seu computador por um jovem de aparência angelical, que filmou por azar a morte trágica de duas irmãs, colegas de estudo do exclusivo internato onde ele se prepara para entrar na universidade.

A filmagem fortuita, que esconde um segredo escabroso, e o filme que o grupo de estudantes deve preparar por iniciativa da diretoria para acelerar o processo de luto coletivo após a tragédia acabam por prejudicar o ambiente na venerável instituição.

Além desta história concreta, Antonio Campos propõe uma reflexão sobre esta fase da vida, como já fizeram diretores como Gus Van Sant, Larry Clark, Sofia Coppola e outros cronistas da adolescência americana.

Campos faz isto com a compreensão da adolescência que seu 24 anos permitem, assim como a vontade de apresentar mais perguntas que respostas. Ele não é um "voyeur" como Clark, ao contrário do que pode dar a entender o início do filme.

Ele prefere as sugestões apenas formuladas. De forma voluntária, recorre a enquadramentos descentralizados ou a imagens desfocadas, não multiplica os ângulos da câmera. O ritmo segue os movimentos dos jovens e seu modo de falar. Ao dar e retirar seu tempo, Campos se situa no campo oposto de uma estética cheia de adrenalina que a televisão atribui à juventude.

"Sempre considerei que um plano fixo está muito mais próximo de minha maneira de ver o mundo", declarou o diretor.

"Afterschool" tem muitas possibilidades de interpretação, pinceladas muito acertadas sobre os alunos e sobre os professores, o universo da internet, a vida neste ambiente educacional. Em resumo, muitas voltas que enriquecem um relato de aparência minimalista.

Campos gosta de temas fortes, como demonstrou com "Buy it now", um dos 20 curtas que já dirigiu, premiado em Cannes em 2005, protagonizado por uma jovem que decide leiloar sua virgindade no eBay.

No curta, que abriu as portas do Festival de Cannes para que pudesse escrever o roteiro de seu primeiro longa, Campos falava de internet e do consumo de drogas pelos jovens, temas que desenvolve em "Afterschool".

O diretor apresentou "Afterschool" neste domingo ao lado dos três protagonistas do filme na sala Debussy do Palácio dos Festivais, que estava completamente lotada (900 espectadores). Entre os presentes estavam seu pai e a mãe, americana.

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