Um novo olhar para o ensino de música nas escolas

Um novo olhar para o ensino de música nas escolas Por Giuliana Reginatto São Paulo, 11 (AE) - Uma algazarra infantil na sala do 4º ano calava o som do alfabeto, repetido à exaustão pela professora. O ano estava no fim quando vimos que os alunos precisavam de reforço.

Agência Estado |

Métodos tradicionais de alfabetização não funcionavam, as crianças estavam agressivas", diz a educadora Isa Stavracas, da E.E.Professor Joaquim Torres Santiago, na zona leste de São Paulo.

Um rádio virou instrumento pedagógico naquele 4ª ano como medida de emergência. "Para que recuperassem o interesse propus uma alfabetização por meio das músicas", lembra Isa. Bem-sucedida, a empreitada subsidiou uma pesquisa aprofundada sobre o tema, documentada na dissertação de mestrado "O Papel da Música na Educação Infantil", deste ano. O momento não poderia ser mais oportuno para o assunto: o Governo acaba de decretar o retorno da educação musical à grade curricular do ensino público.

Isa lembra que usar música como recurso pedagógico eventual é diferente de criar um processo de musicalização que permeie toda a educação infantil. "Os professores não têm consciência da importância da música. Ela pode ser usada para trabalhar várias áreas. Um piano é matemática pura! Na alfabetização é possível usar elementos musicais similares ao som das letras. A música favorece até o convívio social das crianças", garante.

No campo da neurociência, não faltam dados que vinculam o estudo da música ao desempenho intelectual. "A música desenvolve novas habilidades cognitivas e ajuda a lidar melhor com as emoções, a diminuir comportamentos agressivos. É usada para tratar crianças com hiperatividade, distúrbios de atenção e de linguagem", enumera a musicoterapeuta Sandra de Moura Campos Oliveira, da Faculdade Paulista de Artes.

Em São Paulo, uma pesquisa com 48 mil alunos do Projeto Guri - programa musical da Secretaria Estadual de Cultura - atestou que 62% dos participantes tiveram melhor rendimento escolar após o contato com a prática musical. Não é à toa que a rede particular tem investido na área há décadas. Nas escolas da pedagogia Waldorf, aplicada no Brasil há mais de 50 anos, música é disciplina de base, com três aulas semanais.

"Na pedagogia Waldorf a música está no currículo desde o 1º ano do fundamental. Ela tem uma amplitude formativa, não é atividade recreativa. A música interage com outras matérias, por meio dela se trabalha os processos acústicos do som, a história dos instrumentos, as diferenças culturais", sugere o professor Luciano Jelen Filho, que leciona há 26 anos no Colégio Waldorf Micael de São Paulo, sobretudo no ensino de flauta. "No 3º ano introduzimos as cordas, por meio do violino, e só depois trabalha-se com teoria musical", completa.

Na opinião da maestrina Erika Hindrikson, do Instituto Callis , a educação musical pode aprimorar o gosto musical no País. "Cresce o interesse por ‘pseudomúsicas’, mas ninguém pode gostar de outra coisa se não conhece outra coisa. O objetivo não é formar músicos, assim como não se espera que a educação física gere atletas. A música é uma linguagem universal, deveria estar ao alcance de todos, e não ser vista como elitista", diz. Ela participa do Camerata Callis, projeto que leva concertos grátis até a rede pública.

A educadora musical Teca de Brito, que trabalha no ramo há 32 anos, critica a preocupação com o aspecto funcional da música na educação. "Os benefícios que ela traz, como a percepção auditiva, a coordenação e essa integração entre corpo, intelecto e emoções são conseqüências. A música deve ser buscada com um fim em si mesma, não como elemento secundário, trabalhado em função de outras habilidades", conclui.

Boxe:
LEI
3 anos - É o prazo que as escolas públicas do ensino fundamental terão para cumprir a lei que determina o retorno da educação musical à grade curricular

Assinada pelo presidente do País no último dia 18, a lei foi criticada por vetar a obrigatoriedade de
profissionais específicos no ensino da disciplina

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