Um ano depois, moradores do prédio onde Isabella Nardoni morreu retomam a rotina

A palmeira de 60 centímetros que amorteceu a queda de Isabella Nardoni, de 5 anos, no dia 29 de março de 2008, foi arrancada do jardim. No local, plantaram uma primavera branca. Moradores do Edifício London, na zona norte de São Paulo, tentam apagar tudo que possa lembrar que, há um ano, uma criança morreu após ser jogada da janela do apartamento 62, no 6º andar do prédio.

Lecticia Maggi, repórter do Último Segundo |

AE
Polícia em frente ao prédio no dia da morte de Isabella
Polícia em frente ao prédio há um ano
Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, pai e madrasta da menina, são acusados pela morte de Isabella. Eles respondem por homícidio triplamente qualificado e fraude processual e aguardam o julgamento em penitenciárias de Tremembé, no interior de São Paulo

O porteiro Valdomiro da Silva Veloso, o primeiro a ver a garota caída no jardim e uma das principais testemunhas do caso, continua com a mesma função no edifício, mas quer esquecer o que viveu. Eu fui depor, fiz a minha parte de cidadão, mas não quero me envolver na desgraça dos outros, afirma.

Valdomiro diz que temeu pelo que pudesse acontecer com ele, já que, segundo o porteiro, o pai de Alexandre, Antônio Nardoni, pedia para investigar todos do prédio. Foi Deus mesmo quem livrou porque podia complicar para mim. Ele (Alexandre Nardoni) queria que eu subisse lá. Ainda bem que não tentei resolver sozinho, constata.

Agora, ele se diz um pouco mais tranquilo com o rumo das investigações. Está mais comprovado, fizeram reconstituição, não acharam indício de nada. A quebra de sigilo mostrou que a primeira ligação foi nossa, nós que pedimos o resgate, afirma, sem querer se estender no assunto. Fiquei chateado, triste, mas continuei aqui. Estou tentando seguir a vida, diz.

Mesma opinião tem a sua colega de portaria Patrícia de Souza, no local desde a entrega do prédio: é difícil, mas a gente procura não se lembrar do que aconteceu.

Antes, para entrar no Edifício London, era preciso apenas anunciar o nome na portaria. Após o crime, todas as áreas comuns, como garagem, escadas e elevadores, foram equipadas com câmeras.

Apesar dos entrevistados não acreditarem que um estranho invadiu o local, a segurança foi reforçada e uma cerca elétrica instalada em volta do prédio. Se aparecer alguém, ficará tudo gravado no hall de cada andar, afirma o ex-sindico e morador do 1º andar, professor Antônio Lúcio Teixeira.

Foi para ele que Valdomiro interfonou assim que viu Isabella no jardim. Segundo a polícia, foi também do apartamento de Teixeira a primeira ligação para o Centro de Comando da Polícia Militar, às 23h49, para pedir ajuda.

Lecticia Maggi
Silêncio predomina na rua Santa Leocádia, do edifício London

Para o professor, os moradores já se habituaram a tristeza que passaram. Às vezes vêm algumas lembranças. Embora aquela planta de espinho onde ela caiu tenha sido cortada, esses detalhes nos dão muita tristeza, conta.

Para aqueles que conheciam de perto o casal, o crime parece ainda mais sem explicação. Ele brincava com a menina na piscina, jogava bola, fazia cavalinho... Parecia um pai carinhoso. Ninguém entendeu, afirma Daniel da Silveira, pai de uma das moradores.

Vizinhos também acham difícil acreditar no que se passou. É uma coisa que não me conformo até hoje. Foi um absurdo, afirma a diarista Vanda Gerônimo, de 67 anos, que trabalha no Edifício Wagner, ao lado esquerdo do London. Para outros, é inevitável não olhar para a janela do 6º andar, onde tudo ocorreu. É esquisito. Toda vez que eu chego aqui eu lembro. Gravou na mente da gente, completa a dona de casa Maria Alcides, de 54 anos.

Segundo ele, os três primeiros meses após a morte de Isabella foram os piores em razão do número de curiosos que se aglomeravam em frente ao edíficio.

Como as ruas paralelas concentram alguns bares, ainda é possível ouvir jovens passarem de carro, sexta-feira e sábado à noite principalmente, e gritarem assassinos.

Aos finais de semana, vez ou outra, o local também é visto como ponto turístico. Tem caravana que para e as pessoas tiram foto com o nome do edifício. Como se fosse uma capela, diz.

Teixeira conta que, apesar do choque, não pensou em vender seu apartamento. Além dos dois apartamentos da família Nardoni no 6º andar - um que petencia a Alexandre e outro a sua irmã Cristiane - só há mais um imóvel desocupado no local. Isso porque o dono mudou para outro Estado. Quando tudo aconteceu tinha muitos apartamentos vazios, mas todos foram vendidos, acrescenta o professor.

Os apartamentos dos Nardoni, conforme moradores, está sempre vazio e fechado.

Veja a cronologia do caso


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