Um ano depois dos roubos, Masp mira recuperação na iniciativa privada

SÃO PAULO ¿ Passado um ano do incrível roubo dos quadros de Candido Portinari e Pablo Picasso, avaliados em R$ 100 milhões, o panorama do Museu de Arte de São Paulo (Masp) está diferente, mesmo sem mudanças drásticas. Um novo diretor-presidente ¿ apesar da aparente continuidade na administração ¿, o aniversário de 60 anos do prédio na avenida Paulista e a implantação de um moderno sistema de segurança, antes inexistente, são as principais novidades que devem repercutir em 2009. Para o curador do Masp, Teixeira Coelho, as inovações serviram, mais do que tudo, para recuperar parcialmente a arranhada credibilidade da instituição e conseguir algo fundamental: o apoio da iniciativa privada.

Marco Tomazzoni |

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O número de visitantes também é considerado uma vitória: 550 mil pessoas de janeiro a novembro, que deve avançar em dezembro, quando tradicionalmente a visitação aumenta, e alcançar o total atingido em 2007 (624 mil), que também é a meta para o próximo ano. Segundo o curador, a diversidade de exposições em cartaz, misturando mostras de arte clássica e contemporânea, tem atraído frequentadores diferenciados ao museu e garantido o bom público, mesmo com o ingresso custando R$ 15.

Mas Teixeira Coelho não deixa de ressaltar que, por maior que seja o sucesso de visitação, ele ainda é ofuscado pelos recursos oriundos das empresas. Claro que o público é importante, porque com ele o museu cumpre seu objetivo. Mas a atração de novos apoiadores é fundamental, eles ajudam a instituição a se manter, defende. Até porque a bilheteria nunca é suficiente. Costumo dizer que os museus são as únicas entidades do mundo em que quanto mais consumidores, maior é a despesa. Nem o Louvre, com cinco milhões de visitantes, consegue se manter só com os ingressos.

Tanto temor com o orçamento se justifica. Uma crise que se agravou ao longo da década de 1990 fez com que o museu acumulasse uma dívida milionária, que chegou ao auge em 2006, quando linhas telefônicas e o fornecimento de energia elétrica chegaram a ser cortados. Situações como essa motivam os defensores de uma administração mista, pública e privada ¿ atualmente, o Masp é uma instituição de caráter privado.

Não há uma tradição de apoio aos museus, pública ou tampouco privada, afirma Teixeira Neves. O curador não é favorável à presença exclusiva do Estado, tendo em vista a experiência desastrosa da ditadura, e destaca a agilidade e flexibilidade do formato privado. Por isso acho que a única forma dos museus continuarem a cumprir sua função é a manutenção mista, aposta, apesar de não prever que o estatuto do Masp mude a curto prazo. Mesmo assim, acredita que há uma predisposição às negociações. Tenho a impressão de que os poderes do Estado perceberam que acossar o museu não é uma boa tática e estão dispostos a conversar.

Clube da arte

A eleição do Masp, em novembro, sofreu diversos ataques por ter sido realizada com uma chapa única e, principalmente, por ser fechada, restrita aos associados. Teixeira Coelho admite que a escolha da diretoria de fato funciona como se fosse em um clube, mas rebate a validade das críticas. Primeiro é preciso olhar para a estrutura social do país. A USP, por exemplo, só permite a eleição de um reitor que seja da própria universidade, e não da Unicamp. As associações se definem assim, tem suas regras e princípios, não é um plebiscito.

Essa estrutura permitiu que o arquiteto Julio Neves ficasse 14 anos à frente do museu, uma administração tão criticada que até hoje o Ministério Público de São Paulo move um processo contra ele e sua diretoria por má gestão. A imagem chegou ao fundo do poço no final do ano passado, época do roubo de Picasso de Di Cavalcanti, quando se descobriu que o museu não tinha alarme, sensor ou seguro para as obras, em um acervo avaliado em R$ 100 milhões.

Para o curador do Masp, o principal problema da era Julio Neves foi a comunicação com a sociedade. Segundo ele, a opinião pública não imagina a dimensão da reforma realizada no museu, orçada em R$ 20 milhões, que incluiu das fundações à pintura e ar-condicionado. Mexendo nisso, se está contribuindo para a preservação das obras. É um legado extremamente importante, não reconhecido, sustenta.

A nova diretoria, que tem mandato até novembro de 2010, é encabeçada pelo advogado e colecionador João da Cruz Vicente de Azevedo, de 83 anos, antigo secretário-geral de Neves. Por isso mesmo, a chapa é vista como de situação, e Teixeira Coelho não nega, apesar de afirmar ser muito cedo para tirar conclusões. O primeiro projeto de fôlego da nova gestão é a ampla reforma do prédio ao lado, que deve abrigar o setor administrativo e outros departamentos do museu. Depois de anos de impasses, o projeto arquitetônico foi aprovado pela prefeitura e as obras podem começar em janeiro.

Para isso deve contribuir a aparente boa saúde financeira da instituição. A dívida que se acreditava ser superior a R$ 20 milhões, é, segundo a assessoria do museu, de R$ 5 milhões, mais da metade com a Eletropaulo, e está renegociada até 2010. Teixeira Coelho confirma o balanço positivo e faz a ressalva de que esse é o objetivo, não mais do que isso. Um museu não é uma companhia que visa dar lucro. A função é captar para gastar o mesmo, manter as contas equilibradas.

Para 2009, o calendário de exposições já está cheio. Os destaques são a mostra do brasileiro Vik Muniz, radicado em Nova Iorque, prevista para abril, e de Vera Chaves Barcelos, em julho. Os pontos altos, no entanto, que devem atrair maior número de visitantes, são Arte na França 1860-1960: O Realismo, também em abril, com obras de Pablo Picasso e Salvador Dalí, e, em novembro, Rodin e a fotografia, com esculturas e fotos do artista francês.

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