Última dia da Flip termina com clássicos, futebol e homenagem a Machado de Assis

PARATY ¿ A 6ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, terminou, neste domingo (06), dando um gostinho de como começou. O último compromisso do dia contou com a presença de autores convidados, que leram trechos de seus livros favoritos, e relembrou pouco antes Machado de Assis em sua derradeira homenagem no evento.

Marco Tomazzoni |

Oito dos principais autores da festa dividiram o palco para repetir o que fizeram na ocasião de seus debates, ler em voz alta, mas desta vez não seus próprios trabalhos. A variedade foi ampla. O holandês Cees Nooteboom e o italiano Alessandro Baricco leram clássicos, respectivamente "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust, e "O apanhador no campo de centeio", de J.D. Salinger.

Aplaudido como um verdadeiro astro, Neil Gaiman escolheu um livro de sua infância, "The 13 clocks", de James Thurber, enquanto Tom Stoppard optou por minicontos de Ernest Hemingway, presentes em "In our time". O cardápio ainda contou com os preferidos de Chimamanda Adichie, Zoe Heller e Nathan Englander, momentos em que platéia pode conhecer um pouco mais da personalidade dos convidados.

Olhos de ressaca

Sergio Paulo Rouanet discute correspondência de Machado / Divulgação

Na mesa anterior, "Papéis avulsos", o homenageado Machado de Assis foi novamente lembrado abaixo de elogios superlativos e, assim como na conferência de abertura de Roberto Schwarz, "Dom Casmurro" dominou a maior parte da conversa. Sérgio Paulo Rouanet, Ana Maria Machado ¿ ambos imortais da Academia Brasileira de Letras ¿ e o diretor Luiz Fernando Carvalho abordaram suas ligações com a obra machadiana.

Rouanet apresentou brevemente as conclusões a que chegou depois de compilar as correspondências do escritor, que serão publicadas em dois volumes neste ano e em 2009. A partir delas, identificou uma mudança de personalidade evidente no textos: no início, Machadinho, rapaz boêmio e irrevente, crítico literário de renome já aos 25 anos, e a de Machado como ficou famoso, funcionário público, homem respeitável, mas com cerne subversivo capaz de escrever obras como "Memórias Póstumas de Brás Cubas".

Celebrada autora de livros infantis, Ana Maria Machado também tem diversos romances publicados, sendo que o recente "A Audácia Dessa Mulher" parte do mistério da personagem Capitu para desenvolver sua história. Carvalho, responsável por celebradas adaptações literárias para o cinema e televisão ("Os Maias", "Lavoura Arcaica", "A Pedra do Reino"), também vai levar para as telas uma versão em minissérie de "Dom Casmurro", batizada justamente de "Capitu".

O diretor, no entanto, tem uma visão bastante clara sobre seu papel atrás das câmeras. "Não acredito em adaptação ou versão, sou contra esse tipo de assassinato", disparou. "Prefiro entrar na obra como leitor e tirar uma resposta criativa. Eu me entrego aos textos." Além disso, foi bastante contudente ao comentar como vai lidar com o final aberto do romance, já que a dramaturgia televisiva raramente adota esse procedimento. "Esse é um problema da televisão, não meu. Não sou fã de tevê ¿ para assistir é um preço e para fazer, outro bem diferente."

Futebol e balanço

José Miguel Wisnik no meio do bate bola / Divulgação

Em meio a ruas quase desertas e cheias de lixo resultante da alongada noite de sábado, tradicionalmente a mais animada (e extremada) da Flip, o domingo começou com duas mesas diversas, mas igualmente interessantes. Marcelo Coelho e o psicanalista francês Pierre Bayard debateram a importância dos clássicos, questão bastante interessante para uma festa literária. Autor de "Como falar dos livros que não lemos", Bayard afirma que é uma "opressão" ler certos clássicos da literatura, mesmo contra a vontade. Segundo ele, essas obras são necessárias, mas devem ser lidas por iniciativa própria, não impostas pelo sistema escolar ou pela sociedade.

Pouco depois, José Miguel Wisnik e Roberto DaMatta não economizaram no jargão futebolístico para traçar, como DaMatta sugeriu, uma aula de "sociologia do futebol". Os dois tentaram identificar as origens de por que o esporte bretão virou uma paixão no mundo e no Brasil, atravessando culturas, faixas etárias e classe social. Sem apelar para o academicismo e muito bem humorado, DaMatta lembrou a introdução do esporte do País, pelas mãos (ou melhor, pés) de filhos de donos de fábricas, que viajavam ao exterior. Para Wisnik, que acaba de lançar um livro sobre o assunto, "Veneno-remédio", a razão da preferência nacional reside nas variações que o jogo proporciona, devido à bola e a dificuldade de jogar com pés, o que torna o esporte mais parecido com a vida.

Em coletiva pela manhã, a organização da Flip comemorou o sucesso da transmissão das mesas pela Internet e a presença do público de cerca de 20 mil pessoas, número idêntico ao ano passado, mesmo sem a presença de autores com maior projeção midiática. "O objetivo não é fazer um festival de celebridades nem trazer mais pessoas, mas provocar o encontro de quem escreve e quem lê, favorecido pelas características físicas de Paraty, além da relação entre habitantes e visitantes", reforçou Mauro Munhoz, diretor geral da Flip e presidente da Associação Casa Azul.

A presidente do conselho diretor da Flip, a inglesa Liz Calder, confirmou o interesse da festa em continuar trazendo escritores de regiões e países distantes. "Há uma fome dos brasileiros de ouvir coisas diferentes e de outras culturas", disse. O Japão, por exemplo, já é uma aposta para o próximo ano. "A Flip é a prova viva de que pode ser a porta entrada de autores no Brasil", continuou o diretor de programação, Flávio Moura, já assegurado em 2009. "Tenho certeza que a partir da semana que vem muita gente vai começar a pensar sobre Tom Stoppard, o que talvez não aconteceria se ele não estivesse aqui."

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