¿Turistas¿ da célula-tronco colocam a saúde em risco

América do Sul já está na rota de clínicas que oferecem tratamento sem comprovação científica aos viajantes doentes

Fernanda Aranda, iG São Paulo |

A terapia com célula-tronco ainda é só uma “promessa”, não pode ser incorporada na rotina dos consultórios, mas de forma perigosa já fomenta o turismo médico irregular e estimula pessoas do mundo a viajarem em busca de milagres para doenças sem cura, afirmaram os principais nomes da pesquisa sobre medicina regenerativa do Brasil.

O encontro dos pesquisadores aconteceu na Faculdade de Medicina da USP nesta sexta (13), na cidade de São Paulo, e a proposta era discutir “a nova era” do uso da técnica, já que os ensaios científicos começaram há 10 anos. Os turistas das células-tronco foram apontados como uma das problemáticas atuais.

“Existem empresas que oferecem turismo médico para tratamentos com células-tronco sem nenhuma evidência científica comprovada. Isso merece toda a nossa atenção”, puxou o assunto Reinaldo Guimarães, secretário de Ciência e Tecnologia e Assuntos Estratégicos do Ministério da Saúde. “A China, de fato, é um dos grandes pólos que recebe estes viajantes, assim como o Oriente Médico. Mas é importante ressaltar que os países que abrigam estas clínicas irregulares não estão localizados só abaixo da linha do Equador. A Alemanha já despontou como destino e atuação destes charlatões”, completou.

Em junho deste ano, a Sociedade Internacional de Pesquisa em célula-tronco (ISSCR, sigla em inglês) fez seminário para especialistas do mundo todo para também abordar a questão dos viajantes que procuram ajuda nas células-tronco oferecidas por centros chineses e indianos.

Segundo Guimarães, ainda não há evidências de que o Brasil esteja na rota do turismo das células-tronco, mas a América do Sul sim. Nos últimos dois anos, foram fechadas duas clínicas que faziam este tipo de serviço na Argentina. Eduardo Moacyr Krieger, idealizador do evento e pesquisador da área do Hospital das Clínicas de São Paulo, acrescentou que o turismo médico para tratamentos é centrado, principalmente, em pacientes que têm doenças sem cura, sem opções terapêuticas

“O que piora o cenário é que, se ao menos a aplicação de células-tronco tivesse efeito nulo, ou seja, não fizesse mal nem bem, seria menos grave”, completou o secretário do Ministério. “Mas temos relatos e evidências de que alguns pacientes submetidos aos procedimentos desenvolveram tumores ou outros efeitos colaterais sérios”.

Fiscalização

Se ainda faltam indícios de que o Brasil é destino destes turistas, já existem relatos de que os brasileiros estão juntando dinheiro e viajando em busca destas técnicas. No ano passado, as agências internacionais noticiaram o caso de uma menina de Recife, 1 ano e 9 meses, que deixou a cidade natal para fazer tratamento com células-tronco na China. Ela nasceu com paralisia cerebral e os pais, sem nenhuma opção no Brasil, juntaram dinheiro entre os amigos e campanhas de doação (R$ 83 mil) para custear o tratamento.

“No País, não identificamos a vinda de turistas, mas já tivemos problemas com serviços de saúde e de estética que ofereceram as técnicas com células- tronco de maneira irregular” afirmou o diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Dirceu Barbano. “Estamos muito atentos a essas questões, em acompanhamento constante que envolve todas as vigilâncias sanitárias do País.”

Uma das providências tomadas, diz a Anvisa, foi uma resolução nacional publicada este ano. O texto regulamenta as clínicas e bancos de embriões que oferecem o serviço de armazenar o cordão umbilical dos bebês, cobrando taxas, como se isso fosse uma garantia de tratamento de saúde efetivo em caso de doença futura da criança. O armazenamento não é ilegal, mas a forma de apresentá-lo sim. Por isso, defende a agência, as regras foram criadas. O descumprimento pode render interdição do local.

Fórmula mágica

Para Marco Antônio Zago, vice-reitor da área de pesquisa da Universidade de São Paulo (USP), por trás do turismo da célula tronco está o “destaque desproporcional” que a técnica ganhou, sendo apresentada como “fórmula mágica “para todos os problemas de saúde existentes na face da terra. É fato que estas células – que podem ser de três diferentes tipos – mostraram em ratos e nos laboratórios que têm potencial de regenerar órgãos vitais e podem ser em um futuro próximo opções de tratamento para doenças tabu, como câncer, Parkinson ou transplante por exemplo.

“Mas para virar uma opção terapêutica é preciso de evidências sólidas e seguras”, afirma Zago. “E hoje, apesar de todas as nossas pesquisas, só existem evidências para o transplante de medula óssea e para o tratamento de lesões oculares. O restante creditado à célula-tronco não pode ser apresentado como uma terapia”, completa.

Fôlego

A ausência de evidências sólidas sobre os benefícios das células-tronco não desanima os pesquisadores. No Brasil, segundo os dados apresentados no encontro de sexta-feira, diabetes, doenças renais, o sistema cardiovascular e o sistema nervoso são as áreas mais pesquisadas. Em curso, são 97 projetos totalizando R$ 903 milhões, levando em conta apenas as linhas de estudo financiadas pelo Ministério da Saúde.

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