Turbulência nem sempre é previsível, afirma Aeronáutica

Fenômeno, causado por flutuações aleatórias no fluxo do vento, é imprevisível em dias de céu limpo, afirmam pilotos e especialista

Juliana Kirihata, iG São Paulo |

Na noite da última segunda-feira, após uma forte turbulência, 21 pessoas ficaram feridas no voo JJ8085, da companhia aérea TAM. O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) investiga se a tripulação agiu corretamente e se poderia ter desviado da rota para evitar o acidente. Segundo o tenente Alexandre Spengler, do Centro de Comunicação Social da Aeronáutica, porém, nem toda turbulência pode ser prevista pelos pilotos.

A turbulência é causada por flutuações aleatórias no fluxo do vento. Ela pode ocorrer por correntes, diferenças no relevo, variação na velocidade do vento ao longo de uma zona frontal ou alterações na temperatura e pressão.

"Antes e após o voo, os pilotos verificam o radar meteorológico para saber de possíveis problemas pelo caminho. Mas a corrente de ar não é percebida pelo aparelho, e sim a existência de nuvens, que podem indicar tempestades. O radar detecta nuvens. Ele emite um pulso, bate na nuvem e detecta uma área mais densa", explica o tenente Spengler, aviador há 22 anos.

Apesar dos radares apontarem a presença de áreas mais densas, ele afirma que nem toda turbulência está vinculada a uma nuvem. Nesse caso, a detecção pode ser impossível. "Você desvia pelo radar. Quanto mais vermelho, mais perigoso. Mas quando é turbulência em céu claro às vezes não dá para desviar, porque ela não aparece no radar", afirma. De acordo com o tenente, isso pode ter sido o motivo do acidente no caso do avião da TAM, mas ressalta: "o que aconteceu só a investigação vai falar".

Céu de brigadeiro

Segundo o sargento Ricardo Miranda, meteorologista do Serviço Regional de Proteção ao Voo de São Paulo (SRPV- SP), o outono e o inverno são as estações com maior ocorrência de turbulências de céu claro. "Nessa época é bem frequente esse tipo de fenômeno, porque tem temperaturas mais baixas e um contraste entre a temperatura da região e a temperatura do Equador", afirma. O meteorologista explica, ainda, que pela falta de detecção de turbulências no radar, o chamado céu de brigadeiro também pode representar risco de chacoalhões inesperados.

Na maioria dos casos, os pilotos geralmente conseguem se prevenir contra consequências graves na hora das turbulências. "Quando o piloto está voando e sabe que existe uma condição de chuva, ou com nuvens carregadas, já sabe que vai passar por algum tipo de turbulência. Então o piloto pode tomar algumas providências para evitar. Mas esse tipo de turbulência [de céu claro] você não enxerga", diz o tenente coronel Demarchi, do SRPV.

De acordo com Demarchi, um procedimento que ajuda os pilotos é a comunicação de ocorrências. Um avião que já passou por uma área de turbulência avisa as coordenadas do local e os outros podem se preparar ou fazer o desvio. Porém, ele afirma que o risco de uma ocorrência ser forte a ponto de deixar feridos é baixo. "Já passei por turbulência de céu claro, mas nada que fosse perigoso suficiente para machucar."

Está no avião? Cinto de segurança

Para o tenente da Aeronáutica Alexandre Spengler, independentemente das causas do acidente da TAM, é fundamental que as pessoas se preocupem sempre com o uso do cinto de segurança durante a viagem. "Às vezes a luz do cinto está acesa e tem gente que não se preocupa. É importante ficar sentado com o cinto afivelado", orienta.

O comissário Sílvio**, que tem 29 anos de carreira, faz coro: "A gente faz um anúncio de bordo. Alguns passageiros não escutam, não obedecem, acham que não vai acontecer nada com eles. Por mais que a gente passe, cheque, alguns são reticentes." Segundo ele, apesar de haver o risco de acidentes, as pessoas não devem entrar em pânico caso o avião comece a balançar. "Não precisa ter receio nenhum, porque os comissários e os pilotos têm preparação para isso."

No caso do voo da TAM, o aviso para atar cintos foi feito pouco antes da turbulência, segundo passageiros. Ronald Psicopo lembra dos momentos de pânico dentro do avião: "Do meu lado um passageiro foi arremessado para o teto, ele ficou grudado no teto, não foi nem uma cabeçada, eu pude vê-lo deitado e alguns segundos depois ele foi arremessado para o chão." 

De acordo com o Sílvio, o ocorrido foi uma exceção. "Não é comum esse tipo de ocorrência, normalmente são turbulências previstas, o comandante avisa os comissários, é feito um anúncio de bordo e as pessoas afivelam os cintos." Apesar das aeronaves possuírem uma luz que indica a necessidade de usar o aparelho de segurança, o comissário destaca que o ideal seria que os passageiros mantivessem o cinto atado durante todo o tempo em que estivessem sentados. "Está no avião? Cinto de segurança!", alerta.

Feridos no ar

Segundo o último boletim divulgado pela TAM, a empresa dá assistência a duas passageiras do voo JJ 8095, que passou por turbulência em São Paulo. Uma delas está hospitalizada, com fraturas; a segunda, que está em casa, passou por consulta médica e ainda vai passar por exames.

Permanecem internados em hospitais de São Paulo, desde segunda-feira, outros dois passageiros, com fraturas. Ana Maria Lima, de 73 anos, sofreu fratura no fêmur e na coluna e foi operada no Oswaldo Cruz nesta quinta-feira. Segundo a assessoria do hospital, ela está em observação para recuperação pós-anestésica, e deve receber alta em seis dias.

Francisco Celestino Garcia Júnior, de 59 anos, foi operado na última terça-feira para a correção da fratura no fêmur no Hospital Albert Einstein, mas o hospital não informou se há previsão de alta.

A passageira menor de idade que também teve diagnóstico de fratura passou por cirurgia em um hospital de Ribeirão Preto e já está em casa.

O médico Paulo Ozon Monteiro da Silva, professor da Universidade Federal de São Paulo, explica que, quando sujeitas a movimentos bruscos, algumas pessoas podem sofrer distúrbio transitório da circulação sanguínea no cérebro provocando tontura e náuseas.

** A empresa aérea em que Sílvio trabalha não autorizou a divulgação do nome da companhia e do sobrenome do entrevistado

(*Com informações da reportagem de Danielle Ferreira e da Agência Estado)

Turbulência fere 21 pessoas em voo da TAM:

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