Três perguntas para Marco Bechis, o defensor dos guaranis em Veneza

VENEZA ¿ O cineasta italiano Marco Bechis, considerado em Veneza o representante da América Latina por ter crescido no continente, entre São Paulo e Buenos Aires, e diretor do assustador Garagem Olimpo, arrancou aplausos com Birdwatchers, uma denúncia contra o genocídio dos índios guaranis no Brasil.

AFP |

Rodado no Mato Grosso do Sul, "Birdwatchers" é o segundo filme "brasileiro" na disputa pelo Leão de Ouro em Veneza. Tanto ele quanto "Plastic City" são co-produções da brasileira Gullane Filmes com parceiros internacionais. No caso de "Birdwatchers", a maior parte dos recursos é proveniente da Itália, apesar do longa ser falado em sua maioria em guarani e da equipe e do elenco serem essencialmente do Brasil. Leia abaixo a entrevista do diretor.

"Os índios não têm uma vida feliz, é preciso
ajudá-los", alerta diretor Marco Bechis / AP

Como você acredita que o governo brasileiro e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vão reagir a um filme tão duro, que retrata a rebelião dos índios contra a exploração como atração turística e por serem confinados em reservas?
Não falei com o presidente Lula. Não acredito que tenha visto o filme, que será lançado em dezembro no Brasil. Gostaria de poder conversar com ele sobre este tema. Se eu fosse brasileiro, teria votado nele. Lula tem grandes intenções, mas, para poder governar, precisa do consenso do poder econômico, dos grandes proprietários de terras. Sua política para os indígenas não tem sido clara e o que eu peço é que seja claro, diga o que pode ou não pode fazer por este povo.

Você dirige atores não profissionais, muitos deles índios. Também trabalha com poucos profissionais italianos. Por que não selecionou atores célebres brasileiros e como foi trabalhar com os próprios índios?
Em "A Missão", de Rolan Jeffe, os índios colombianos Waunana, que interpretavam os guaranis no filme, serviam como decoração para as cenas protagonizadas por Robert de Niro e Jeremy Irons. Quis mudar isto e os indígenas são os protagonistas, os atores "brancos" são adorno.

Quase todos os atores vêm do lugar, os que perderam suas prerrogativas originais. Com a ajuda de um diretor de teatro, expliquei a eles algumas coisas básicas da atuação, sem esquecer que possuíam uma capacidade inata para atuar. Eles improvisavam e conseguiam as emoções. Utilizei todos os instrumentos do cinema e cheguei a projetar para eles cenas de filmes de Hitchcock e Sergio Leone para que entendessem os silêncios. Aprenderam tão rápido que diante da câmera nunca aconteceram confrontos entre eles.

Para obter a colaboração dos mais jovens tive que pedir permissão aos pais e aos avôs e explicar o que fariam. Não aceitaram facilmemte e primeiro quiseram saber o contexto do filme e o que seria feito.

Seu filme denuncia a situação dos índios, as plantações de soja destinadas à produção de etanol. Acredita que pode ter algum efeito?
Os índios do filme vivem agora em uma reserva, muito pequena. Há 15 anos estavam cercados pela selva, agora por enormes extensões de campos cultivados. Os índios não têm uma vida feliz, é preciso ajudá-los, é terrível cultivar soya para produzir etanol. Além disso, são usados pesticidas. Toda a água que os índios usam está contaminada com pesticidas. Uma situação perversa.

Os índios não querem retornar à situação de antes e também não aceitam ficar presos em uma reserva. Com a agricultura atual, tão avançada tecnologicamente, são necessários poucos trabalhadores. Os índios não têm nem sequer trabalho: estão roubando a terra deles, as expropriam e não recebem nenhum benefício.

Não acredito que o filme vai ser bem recebido no Brasil, mas tentei estar no meio, evitar que o espectador tome partido, permitir ver as razões de uns e outros.

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