Três famílias, três tragédias

Em uma semana, três casos de tragédia familiar ganharam repercussão. No mais recente, pai matou três filhos no Rio Grande do Sul

Lecticia Maggi, iG São Paulo |

Nos últimos dias, três famílias de diferentes Estados do País, que não se conheciam e não tinham nada em comum, passaram a fazer parte do noticiário pelo mesmo motivo: a violência.

Vingança

O caso mais recente aconteceu nesta segunda-feira, no bairro Jardim Botânico, em Porto Alegre (RS). Assustados com a fumaça que vinha de uma oficina mecânica na rua Barão de Amazonas, vizinhos acionaram o Corpo de Bombeiros que, ao chegar ao local, encontrou quatro corpos. A causa das mortes, ao contrário do que se suspeitou inicialmente, não foi o incêndio, mas três homicídios seguidos por um suicídio.

Segundo o delegado Alexandre Vieira, diretor da Divisão Judiciária de Operação da Polícia Civil de Porto Alegre, o mecânico Osvaldo Salvador da Silva Tavares, de 42 anos, assassinou as filhas gêmeas de 5 anos e o filho de 4, ateou fogo à casa e, em seguida, atirou contra a própria cabeça. Para a polícia, ele quis se vingar da ex-mulher, de quem estava separado há cerca de 15 dias. “Ele queria que ela sofresse após a morte dele e das crianças”, afirma o delegado. Prova disso, segundo ele, é um vídeo deixado por Tavares, em que há imagens das crianças e ele explica a motivação do crime. “Ele ligou para um amigo avisando que tinha deixado um vídeo na caixa de luz da casa e pediu que ele encaminhasse para a imprensa. O amigo ligou para uma rádio e o repórter me avisou quando cheguei ao local do crime”, conta o delegado. “Não houve tempo de evitar”.

O crime, que assusta pela crueldade, ainda é inacreditável para quem convivia com a família. “Conhecia Osvaldo há 30 anos, ele sempre frequentava o restaurante e era uma pessoa tranquila e caseira”, afirma ao iG Luiz Sartori, dono de um estabelecimento na rua. O empresário faz questão de ressaltar que o amigo – a quem chamava somente de “Alemão” – era um bom pai e nunca pareceu ter qualquer tipo de distúrbio psiquiátrico. “As crianças eram lindas, pareciam de cinema. E ele era exemplar. Brincava com elas, dava tudo que pediam”, afirma. “Não consegui dormir e não tô acreditando”, lamenta.

Longe dali, na cidade de Águas de São Pedro, interior de São Paulo, outro crime passional acabou com a morte de inocentes no último domingo. Elenilton Fernandes dos Santos, de 38 anos, atirou setes vezes contra a ex-mulher, mas nenhum dos tiros a atingiu. Ele, porém, fugiu descontrolado do local e bateu de frente com um caminhão na SP-304, que virou na pista. Santos morreu no local. Um veículo de passeio que vinha logo atrás do caminhão não conseguiu frear e capotou. Cinco pessoas da mesma família morreram. A única sobrevivente, uma menina de 5 anos, sofreu fraturas no braço e na perna.

Um dias antes, no sábado, 24, outro caso de violência familiar já havia ganhado o noticiário. Segundo a polícia, o técnico contábil Flávio Martins de Lima, de 29 anos, confessou ter empurrado a mulher, a administradora Jaqueline Valadão Rios, de 44 anos, da varanda do apartamento onde moravam, na Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, durante uma discussão. A vítima caiu do segundo andar e morreu antes de ser socorrida pelos bombeiros.

"Desespero e egoísmo "

Para a psiquiatra forense Thatiane Fernandes da Silva, a característica comum em todos esses casos é o desespero. “A pessoa é tomada pelo desespero e não vê outra saída, ainda que tenha feito algo pensado e planejado. As ideias ficam desorganizadas, tudo que pensa tem relação com aquilo”, afirma.
O egoísmo é outra característica presente naqueles que cometem crimes como o do mecânico de Porto Alegre. “O desesperado e o deprimido são muito egoístas, ainda que pelo lado negativo de achar que ninguém gosta deles, ninguém se importa”, diz, e completa que matar os filhos é uma forma de causar dor profunda à companheira. Já o suicídio acontece para não ter que arcar com as consequências do próprio ato.

O psiquiatra e professor da Universidade de São Paulo (USP) Júlio Cesar Fontana Rosa explica que há dois pontos que favorecem crimes passionais: a paixão exagerada e intolerância à rejeição. “O homem ama demais e tem a ideia de que 'se não for dele, não será de ninguém' ou, mesmo sem qualquer afetividade pela pessoa, não suporta ser abandonado. Tem a posse”, diz.

Não há dados oficiais das polícias do País sobre homicídios somente entre familiares ou cônjuges. Eles são contabilizados junto aos demais. Júlio Rosa acredita que eles sempre ocorreram e, atualmente, só são mais divulgados. Já Thatiane considera que pode haver uma pequena relação entre o aumento dos crimes e dos casos de depressão e ansiedade na população. “O mundo está muito rápido e exige respostas rápidas, quem não consegue acompanhar se sente posto para trás”.

Os dois concordam, porém, que apesar de geralmente estarem relacionados a pessoas com históricos de distúrbios anteriores - como depressão, transtorno bipolar e esquizofrenia - crimes como os citados podem atingir qualquer um. “Teoricamente, todos nós poderíamos matar alguém. Todos têm um ponto em que explodem e têm uma reação desmedida”, diz Thatiane.

O grande problema, alertam os especialistas, é que pouco pode ser feito já que crimes familiares dificilmente são evitados. “Não há como prevenir e é impossível prever. Não há indícios. Muitos homens ameaçam, mas não matam, precisam de um momento, um ‘raptus homicida’ para que aquilo aconteça”, afirma a psiquiatra Thatiane.

    Leia tudo sobre: assassinatocrimes passionaishomicídio

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG