Transtorno de estresse pós-traumático: doença relacionada à guerra atinge as grandes cidades

*Daniela, de 22 anos, não anda mais a pé sozinha desde 2007, só de ônibus. E, mesmo assim, sempre acha que alguém vai assaltá-la. ¿Não tenho paz, acho que tem gente me seguindo¿, diz. Além disso, não consegue ficar mais do que um dia nos empregos que arruma. ¿Entro em pânico e começo a chorar desesperadamente. O diagnóstico de Daniela: Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).

Lecticia Maggi, repórter do Último Segundo |

Reconhecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 1980, o transtorno de estresse pós-traumático começou a ser estudado durante a 1ª Guerra Mundial, quando médicos e psicólogos perceberam que os soldados voltavam para a casa com sintomas de ansiedade, pânico e depressão. Hoje, a doença deixou os campos de batalha para atingir cada vez mais pessoas vítimas de violência nas grandes cidades. 

Era uma pessoa normal, agora não tenho paz

Moradora da cidade de Santo André, no Grande ABC, Daniela viu sua vida mudar após o supermercado em que trabalhava ser assaltado em 2005. Ela não estava no momento e, quando chegou, as colegas já estavam chorando e havia um cheiro forte de gasolina no ar. Jogaram gasolina em uma das meninas e ameaçaram atear fogo se ela não abrisse o cofre, afirma.

Daniela achou que tudo voltaria ao normal, mas começou a sentir dores pelo corpo, ter choros excessivos e a sensação de que todos os clientes iriam assaltá-la. Era uma pessoa normal, mas agora não tenho paz, lamenta. Desde o episódio, afirma não conseguir mais trabalhar em áreas que necessitam de contato direto com o público.

"Sou traumatizada com a violência"

O assalto que sofreu por um motociclista, em 2007, quando andava sozinha pela cidade, serviu para reforçar seus medos. Sou traumatizada com a violência. Tenho 22 anos, mas agora só saio se for com a minha mãe, afirma ela, que só este ano foi diagnosticada e irá tratar do transtorno.

Os crimes

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Fonte:Secretaria de Segurança Pública (SSP)

No ambulatório do Programa de Atendimento e Pesquisa em Violência (Prove), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), dedicado somente aos portadores de TEPT, 1/3 dos pacientes atendidos foram vítimas de assaltos. Justamente esse é um dos crimes que mais têm crescido na capital paulista.

De acordo com informações da Secretaria de Segurança Pública (SSP), os roubos passaram de 56.940 no 1º semestre de 2008 para 63.393 no 1º semestre de 2009. Os furtos também aumentaram de 75.944 para 86.203 e, os latrocínios (roubos seguidos de morte), de 29 para 52.

Outro índice que tem crescido, segundo a psicóloga Mariana Pupo, que faz parte do Prove, é o número de pessoas que procuram o laboratório após sofrerem abusos sexuais. Este ano percebemos aumento de 10 a 15% nesses casos, que já respondem por 12% dos atendimentos, afirma. No primeiro semestre de 2009 foram registrados 604 casos de estupro, contra 498 do mesmo período de 2008.

Menos de 1% se recupera naturalmente do transtorno"

De acordo com Mariana, a estimativa é que 80% da população passe por algum trauma ao longo da vida e cerca de 10% desenvolvam o transtorno de estresse pós-traumático. A psicóloga explica ainda que, dentro deste grupo, é raríssimo alguém conseguir se curar sozinho. Menos de 1% se recupera naturalmente, afirma.

Para as pessoas que vivem em cidades violentas - como São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo - a chance de desenvolver o transtorno é até cinco vezes maior, segundo José Toufic Thomé, coordenador da Comissão Técnica de Intervenções em Situações de Catástrofe e Desastre, da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Isso porque as pessoas fazem de conta que a violência já faz parte da vida. A gente finge que consegue conviver com ela e cria mecanismos de defesa contra as pequenas agressões cotidianas, como ter medo de parar no farol. Mas, no fundo, você já está desestabilizado.

Neste cenário de tensão, ele diz, quando algo violento realmente acontece a chance de adoecer é maior. Sobe para 40%, 50%, considera. Apesar de não ser uma doença recente, especialistas concordam que a violência urbana colocou-a em evidência.

Além disso, conforme os psiquiatras, o conhecimento dos profissionais sobre o assunto também aumentou nos últimos anos. Por normalmente vir acompanhado de outros transtornos, o TEPT era subdiagnosticado.

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Fonte:Secretaria de Segurança Pública (SSP)

O que é o TEPT

De acordo com os médicos, o transtorno ocorre quando as pessoas são expostas a eventos que envolvam risco de vida e sentimentos intensos de medo, terror, impotência ou desamparo. Quase sempre, é um trauma totalmente inesperado. Ele vem de forma tão violenta que rompe com a segurança e a crença que a pessoa tem do mundo, afirma Mariana Pupo, do Prove.

Além de situações violentas, o TEPT também pode aparecer após desastres naturais, como enchentes, terremotos e tsunamis, e situações não controláveis, como acidentes de trânsito. Este foi o caso da psicóloga Daniela Pieto, de 34 anos, que sofreu um acidente de carro em 1994. O motorista não se feriu, mas ela, que estava no banco do passageiro, precisou engessar as duas pernas e demorou um ano para voltar a andar.

É só entrar em um carro que fico em pânico

Até hoje, não consegue dirigir, mas não por sequelas físicas e sim por medo. É só entrar em um carro que fico em pânico, afirma. As mãos gelam, o rosto fica vermelho e o coração acelera. Não consigo relaxar, é incontrolável, tenho que ficar segurando em algum lugar e é como se todos fossem bater no carro da gente, diz, acrescentando que tomou remédios à época do acidente, ainda faz terapia, mas não sabe se um dia conseguirá se curar.

Os especialistas explicam que, muitas vezes, basta que a pessoa tenha presenciado uma situação violenta para desenvolver o distúrbio. Atualmente, Mariana Pupo afirma que cerca de 15% das pessoas atendidas no Prove são mães que tiveram os filhos assassinados.

* O nome da entrevistada foi trocado para preservar sua identidade

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