Tragédia em Angra reforça papel de Pezão como principal executivo do governo do Rio

Para os detratores do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, o verdadeiro gestor do estado é mesmo o vice Luiz Fernando de Souza, o Pezão. Para muitos correligionários também. Cristalizada entre os críticos devido às sucessivas ausências do governador, decorrentes de viagens internacionais, a constatação ganhou ainda mais vigor com o drama das chuvas em Angra dos Reis, que deixaram 52 mortos no primeiro dia do ano.

Rodrigo de Almeida, iG Rio de Janeiro |

AE
prefeito de Angra dos Reis, Tuca Jordão (e), durante reunião com o vice-governador e secretário estadual de obras do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão
Prefeito de Angra, Tuca Jordão (e), em reunião com Luiz Fernando de Souza, o Pezão  

Há uma semana Cabral vem sendo duramente criticado por ter levado mais de 24 horas para comparecer ao cenário da tragédia, embora tenha informado que passara o réveillon em sua casa de veraneio num condomínio de luxo de Mangaratiba, a menos de 60 quilômetros de Angra. Deixou a tarefa para Pezão, que chegou ao local às 8h15 da manhã.

Abespinhado pelas críticas enquanto punha os pés na lama da destruição no segundo dia do ano, Cabral reagiu afirmando que não havia ido antes para não fazer demagogia.

Tenho discernimento e seriedade. Em uma situação de crise, quem tem que estar no local são as autoridades que de fato podem assumir o comando do problema. Você jamais vai me ver fazendo demagogia. No momento de crise, estavam aqui os dois secretários da pasta. Qualquer exploração política a respeito chega a ser um deboche com a população. Isso é ridículo., declarou, referindo-se a Pezão e a Sérgio Cortes (Saúde e Defesa Civil). Depois, questionou: Estão querendo plantar que eu estava fora do País?. Mesmo no Rio, Cabral também não havia interrompido os dias de descanso em função das 22 mortes causadas pela chuva no Estado nos dias 30 e 31 de dezembro.

O cochilo, no fim das contas, ajudou a reforçar a imagem do vice-governador como o principal executivo do governo e quem mais entende os meandros da gestão fluminense. Despojado, discreto e fiel a Cabral, Pezão desconversa. Sabe que a imagem é boa para si, mas acha que os recentes elogios buscam diminuir a musculatura do governador. O mérito é todo do Sérgio, sugere. Você já viu governador dar espaço para vice? Só ele, que é muito generoso comigo e com todos os secretários, completa.

Pezão defende o governador. Avalia que pegam em excesso no pé de Cabral. Fiquei indignado com as críticas ao episódio de Angra. Achei uma coisa meio orquestrada, cheia de preconceito, ataca. Uma sacanagem, deixa escapar. O vice-governador nega que Cabral tenha estado em Paris no réveillon, como foi cogitado por parte da imprensa. Conta que passou a noite do dia 31 ao lado do governador em Mangaratiba. Eu mesmo sugeri a ele que seria muito mais útil que ficasse ligando para o presidente Lula, para os ministros, para as empreiteiras, conseguindo reforços para o resgate.

Como resultado desse trabalho, Pezão cita o anúncio dos R$ 80 milhões liberados na quinta-feira pelo governo federal ¿ para a reconstrução de Angra e realocação de famílias que estavam em áreas de risco ¿ e a reunião que ele e o governador terão na quarta-feira, em Brasília, para discutir mais recursos emergenciais para o Rio. As notícias de socorro aplacam a crise, mas não chegam a resolvê-la.

Governo Pezão

Pezão divide sua exaustiva rotina entre a vice-governadoria, a Secretaria de Obras e as contínuas vezes em que precisou assumir o governo durante as viagens de Cabral ¿ a marca dos 100 dias de governo Pezão foi alcançada em abril de 2009. Na época, ao saber do feito, o governador brincou com o braço direito. Cem dias significam que você ficou menos de 10% no comando. Minha meta a partir de agora é dobrar esse índice, disse-lhe Cabral.

O vice-governador também defende as viagens do chefe. Ele tem mais é de viajar, afirma. Isso significa que está vendendo a imagem do Rio, atraindo investimentos para cá. Eu também, quando era prefeito, vivia no Rio, em Brasília, pedindo dinheiro. Sérgio tem feito isso com maestria.

Cabral e Pezão são aliados políticos e amigos íntimos. Integrantes do mesmo partido, o PMDB, eles se conhecem há 28 anos. Surpreenderam-se outro dia com uma foto de uma pelada que jogaram juntos em Piraí, em 1981, quando se conheceram. Pezão é 10 anos mais velho do que o chefe. Ele é um craque, elogia Cabral.

Os dois garantem que o perfil de Pezão como principal executivo do governo não constrange o governador. Em dezembro, durante inauguração de unidades habitacionais no Complexo de Manguinhos, o governador discursou ao lado do presidente Lula e da ministra Dilma Rousseff e apresentou, aos moradores, o papel de Pezão para as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) nas favelas do Rio. Ele é o homem que toca tudo isso aqui, disse Cabral.

Nesse mesmo dia, aliás, o iG acompanhou uma demonstração da confiança que o presidente Lula tem no vice-governador. Pezão, vem cá!, chamou Lula, pedindo ajuda para dar informações a uma moradora que recorreu ao presidente para saber como comprar um apartamento no programa Minha Casa, Minha Vida, do governo federal. Vê do que ela precisa, recomendou-lhe o presidente.

As intervenções em comunidades pobres como Manguinhos, Rocinha e Complexo do Alemão são a principal vitrine de Pezão no governo. O Rio será outro depois dessas obras, empolga-se o vice-governador e secretário, que trabalha agora no projeto da segunda versão do PAC. A nova fase incluirá comunidades beneficiadas pelas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Até o fim de 2010, o governo quer instalar mais 34 UPPs, além das cinco já existentes. A combinação entre urbanização e ocupação é a única forma de devolver segurança ao Rio, sugere Pezão. 

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