Tráfico expulsa operários e barra construção de ponte em São Paulo

SÃO PAULO - Traficantes da Vila Carmosina, em Itaquera, zona leste de São Paulo, expulsaram funcionários e engenheiros da Construtora Criciúma de uma favela do bairro no início da semana passada, quando começaria a ser construída uma ponte de seis metros sobre o Córrego Pintadinho, próximo à esquina das Ruas Arraial do Bonfim e Senador Georgino Avelino.

Agência Estado |

Reivindicação dos moradores da região há quase uma década, a obra foi aprovada em 2002 pela Secretaria Municipal de Infra-Estrutura e Urbanização, mas a execução do projeto, de R$ 156.441,02, ocorreria só a partir do dia 30 de maio. A licitação foi concluída em abril.

Segundo versão de funcionários da construtora, marginais que comandam ponto de venda de maconha não queriam a ponte porque a estrutura passaria a permitir que carros de polícia entrassem na favela para fazer rondas. Parte da comunidade que mora às margens do córrego da Vila Carmosina confirmou a versão da empresa. Eles contaram que três traficantes foram armados ameaçar os funcionários no dia 9.

Um dos engenheiros responsáveis pela obra disse que "houve intimidação com violência por parte de jovens traficantes da área". O problema também foi comunicado à Subprefeitura de Itaquera, onde haverá uma reunião entre a empresa, moradores e o subprefeito Laert de Lima Teixeira sobre a construção da ponte, na próxima quarta-feira, dia 25.

O engenheiro do projeto disse, contudo, que só vai voltar ao local quando houver garantia de segurança aos seus funcionários. "Não quero arrumar problema com os marginais."

Garantia de realização

Quem está em contato com os moradores e a empresa para resolver o impasse é uma das coordenadoras de gabinete do subprefeito, Alice Coutinho Magro. Ontem, o subprefeito, indagado sobre as ameaças, garantiu que a obra vai ser realizada. "Vamos tomar todas as providências necessárias para garantir a viabilização dessa reivindicação tão antiga da população", respondeu. "Vamos reunir a comunidade e a empresa para mostrar a importância da ponte e saber o que está acontecendo. Por enquanto, a construtora está no prazo. A partir do dia 30 de maio, tinham ainda 90 dias para iniciar os trabalhos."

Moradores da favela às margens do Córrego Pintadinho contam que traficantes tomam conta da esquina onde está prevista a construção da ponte e controlam quem entra e sai do bairro. "Eles sempre ficaram numa boa, desfilam com armas. Sem a ponte, nenhum carro pode entrar na favela. Desconhecidos também têm de se identificar antes de visitar alguém", contou um morador da Vila Carmosina que apóia a execução da obra. Ele pediu sigilo do nome, como outros moradores que conversaram ontem com a reportagem.

Ao lado da esquina onde ficam os traficantes, há um terreno baldio, com mato alto, de cerca de 2 mil metros quadrados. "Aqui eles (traficantes) tem um belo esconderijo. Ninguém chega de carro e ainda tem o matagal para eles saírem correndo", relatou outra moradora.

A favela ao longo do córrego tem habitações precárias de madeira, ruas de terra e pilhas de lixo espalhados por toda a parte. "Quando chove, entra lama com rato morto para dentro das casas", reclamou a dona de casa Rosália de Oliveira, de 48 anos, moradora na favela há sete.

Investigação

Titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG) da 7ª Seccional de Itaquera, o delegado Murilo Fonseca disse que vai abrir inquérito para investigar as ameaças. "Agora vamos convocar para depoimentos os envolvidos, como moradores e a construtora", afirmou.

Não é a primeira vez que traficantes promovem retaliações contra obras da Prefeitura na zona leste. Em março, o então subprefeito da Vila Prudente, Felipe Sigollo, foi ameaçado por traficantes após fechar bingos e remover favelas em áreas de risco.

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