Tradição dos alunos de Direito de não pagar a conta perde sua força

RIO DE JANEIRO - Em 11 de agosto se comemora o dia do advogado. Neste dia, em 1827, Dom Pedro I criou os primeiros cursos de ciências jurídicas e sociais no Brasil, abrindo a Faculdade de Direito de São Paulo e de Olinda. Para uns, essa é somente uma data dedicada aos profissionais da área de Direito. Para outros, esse dia tem um significado a mais, já que nesta data também se comemora o tradicional ¿Dia do Pendura¿. Estudantes de Direito e advogados costumam se reunir neste dia para ir a restaurantes, consumir e não pagar a conta. Ou seja, fica valendo o lema: ¿Devo, não nego. Pago quando puder¿.

Anderson Dezan, repórter do Último Segundo no Rio |

A tradição começou no início do século 20. Na época, os comerciantes costumavam homenagear os estudantes de Direito deixando-os comer de graça. Segundo as regras, o pendura não vale para o consumo de bebidas alcoólicas e as pessoas que participam da brincadeira não podem estar com um centavo no bolso. Para a advogada Márcia Amaral, essa data traz boas recordações. Ela lembra que uma vez lotou um restaurante de dois andares com um grupo de amigos.

Nos primeiros anos de faculdade eu e meus amigos esperávamos ansiosamente por esse dia. Quando a data caía no final de semana era uma tristeza geral. Uma vez o pessoal da minha turma lotou um restaurante de dois andares que existia em Ipanema. Ninguém pagou a conta. Tempos depois o estabelecimento fechou. Até ficamos com dor na consciência, relata a advogada.

O desfecho para situações como essa costumam ser o mesmo: delegacia. Lá, os participantes da brincadeira geralmente entram em acordo com os donos dos estabelecimentos. De acordo com Bruno Pires, estudante de Direito do 9º período, esse é um dos motivos que vem fazendo com que a tradição perca sua força.

A última vez que teve o Dia do Pendura na faculdade foi em 2003. De lá pra cá não aconteceu mais. As pessoas hoje ficam com receio de no final ter confusão e, por isso, preferem não organizar nada. Da última vez que participei fui parar na delegacia com alguns amigos. Fizemos um acordo com o dono do restaurante e pagamos somente metade do valor da conta. Como os delegados são formados em Direito e, portanto devem ter dado calote nos tempos de faculdade, eles entendem o nosso lado, diz o estudante.

Para evitar o pendura, os restaurantes costumam tomar precauções extras nesta data. Alguns estabelecimentos que oferecem rodízios pedem que a conta seja paga antes. Outros restaurantes recolhem a identidade das pessoas assim que elas chegam. Já Alexandre Reis, gerente desde 2000 de um restaurante no Centro do Rio, localizado próximo ao Tribunal de Justiça e a duas faculdades de Direito, evita colocar mesas na calçada nesse dia.

No Dia do Pendura evito colocar mesas na calçada, ou seja, fora do restaurante, porque assim tenho mais controle. Em oito anos de casa apareceram algumas pessoas querendo sair sem pagar, mas no final elas arcaram com a despesa. Peço que se coloquem no meu lugar e uso argumentos. Pergunto se eles gostariam de defender uma causa, recusar outras por causa dela e no final o cliente não pagar porque seria o dia do cliente, conta Alexandre.

Mesmo existindo a tradição, alguns universitários são contra a prática. Eles consideram a brincadeira de extremo mau gosto e dizem que ela desrespeita a classe dos advogados. Segundo as universitárias Regiane Pitilo e Thatiany Azevedo, que cursam o 4º período, na faculdade delas não houve nenhum movimento ou organização para a data.

Sou contra a prática do pendura. É uma brincadeira de mau gosto e desrespeita a nossa classe. Recebemos inclusive a orientação dos professores para não praticá-la. Não podemos agir contra o ideal que defendemos: a ordem pública, afirma Regiane.

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