Marcelo Nagy. Budapeste, 15 dez (EFE).- As tradições cristãs e as heranças pagãs se misturam na Hungria para se transformar em algo tão particular quanto o próprio país: uma ilha lingüística e cultural no coração da Europa.

Os costumes populares nestas festas estão relacionados com ritos camponeses como a espera de uma boa colheita na próxima primavera e com os medos que seus cidadãos têm de bruxas, fantasmas e espíritos.

Nestes dias do ano começa nas aldeias húngaras a construção de uma cadeira muito especial na tradição do país, explicou à Agência Efe a etnologista Emese Szojka, do Museu de Etnografia de Budapeste.

Trata-se da cadeira de Luca, que serve para reconhecer as supostas bruxas da aldeia, que começa a ser criada justo agora com nove tipos diferentes de madeiras e ficará pronta em 24 de dezembro para a missa da meia-noite.

Segundo essa crença, aquele que constrói a cadeira, ao sentar-se nela durante a missa do Galo, passa a ser capaz de reconhecer as bruxas.

Quando se dão conta de que foram descobertas, as bruxas tentam pegar o proprietário da cadeira, que para escapar tem que se aproveitar de uma necessidade desses seres.

Não se sabe a razão, mas uma característica das bruxas, segundo estas crenças húngaras, é que elas recolhem todas as sementes que encontram em seu caminho.

Assim, a maneira mais fácil de fugir delas é jogar sementes de papoula em seus pés, o que permite à pessoa ganhar tempo já que "enquanto as bruxas as recolhem, é possível escapar", explica Szojka.

Estas são as noites mais longas do ano, quando, segundo estes mitos populares, os fantasmas e as criaturas da noite rodeiam aqueles que os temem.

No passado, os acusados de serem bruxos ou bruxas não eram castigados, já que após reconhecê-los "crescia o temor que se tinha deles, o medo de suas supostas capacidades", ressaltou a etnologista.

Outros costumes também se alimentam destes medos e esperanças, como é o caso das comidas servidas nas mesas natalinas dos húngaros.

Além do peixe, que é característico em toda Europa, os húngaros servem maçã ou alho com mel, assim como papoulas.

Cada membro da família come um pedaço da mesma maçã, fortificando assim os laços familiares, enquanto o alho com mel serve para afastar os fantasmas ou maus espíritos, assim como os vampiros, explicou Szojka.

O alho purifica e o mel adoça os dias do próximo ano, segundo a tradição.

Para evocar a cena bíblica do nascimento de Jesus, se colocava palha debaixo da mesa e muitas vezes inclusive as pessoas dormiam ali.

No que se refere às roupas, nestes dias de jejum predominavam as cores escuras, como sucede em outras regiões da Europa, acrescentou a especialista.

Um caso especial é o dos székely de Bucovina, um grupo de origem discutida, mas que falava húngaro e que habitava a Transilvânia, de onde emigraram para o leste. No século 20, alguns grupos se transferiram para a Hungria.

No Natal, eles apresentavam cenas de pastores de origem bíblica, nas quais misturavam o profano com o religioso, principalmente na forma de fantasias de origem animal, com máscaras que assustavam os moradores das aldeias.

"Além disso, este costume poderia ser considerado também como uma continuação dos dramas do barroco" que tinham chegado à Transilvânia, disse Szojka.

Trata-se de uma representação teatral, com uma métrica definida e que conta com paralelos espanhóis e europeus do barroco, concluiu a etnologista. EFE mn/ab/jp

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