Inaugurada em três etapas, a partir de 1975, e concluída em 1986, numa obra executada à revelia das condições apresentadas pela Serra do Mar, a Rodovia Rio-Santos está definhando. Há sinais claros de erosão, acelerada em alguns casos por causa da ação do homem.

O mais alarmante, porém, está oculto em meio à vegetação densa de boa parte da encosta: são os blocos de rochas soltos, os matacões, armadilhas invisíveis à espera de um movimento de solo para descer até a via e deixar um rastro de destruição.


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Trecho da rodovia BR-101, a Rio-Santos, na estrada de acesso para Angra dos Reis, que foi interditado por conta de desabamento de encostas no local

Trecho da Rio-Santos interditado por conta de desabamento de encostas

"Alguns trechos são como uma bomba-relógio sem hora para disparar", alerta o professor Jefferson Martins, do Instituto de Geociências da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Convidado a percorrer a rodovia - do Rio até Angra dos Reis -, ele mapeou durante a semana 39 áreas onde o risco de novos deslizamentos é alto numa faixa de apenas 25 quilômetros, entre Conceição de Jacareí (Mangaratiba) até a entrada principal de Angra. "A concepção da Rio-Santos foi equivocada, com um traçado que priorizou rampas e curvas, em vez da construção de viadutos e túneis", afirma.

As cidades litorâneas entre Rio e Santos não sobreviveriam hoje sem a rodovia, fundamental para o turismo da região e estratégica como rota de fuga em caso de vazamento nas usinas nucleares de Angra.

A Rio-Santos teve um custo inicial de R$ 3,6 bilhões - valores corrigidos a partir de dados do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), responsável por mais de 30% do financiamento.

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Trecho inicial da Rodovia Rio-Santos, na região de Bertioga, Litoral Norte do Estado. Foto de 1975
Trecho inicial da Rodovia Rio-Santos, na região de Bertioga. Foto de 1975

Na fase inicial da obra, engenheiros e operários traduziram com um leve toque de humor e alguma resignação qual seria a relação do homem com a rodovia. A frase mais repetida por eles, naquele período, continua atual: "A cada metro cavado, um morro desaba."

"Não existe investimento em previsão de área de risco, isso é o pior", observa o geólogo Nelson Fernandes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), autor de vários trabalhos sobre escorregamentos (deslizamentos) em encostas.

Há quase um consenso entre os especialistas ouvidos pelo Estado de que a Rio-Santos vai ter de aprender a lidar com as cicatrizes abertas na serra e a instabilidade de quase toda a região.

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