Tom Zé mostra vigor de garoto em show anárquico no Teatro Municipal

SÃO PAULO ¿ Com o passar dos anos, Tom Zé está ficando cada vez mais radical. Se o caráter interativo e informal já era uma constante em seus shows, na apresentação que o músico baiano fez nesta madrugada no Teatro Municipal de São Paulo, quanto tocou as faixas de seu álbum de estreia, Grande Liquidação (1968), virou anarquia ¿ no palco mais nobre da Virada Cultural, o inquieto Tom zé não enxergou barreiras em sua frente.

Marco Tomazzoni |

Marco Tomazzoni

Tom Zé começou show no Teatro Municipal
usando máscara de "bandido"

Para começar, cantou vestindo uma inexplicável máscara negra, que só deixava à mostra orelhas, olhos e boca. A roupa, também preta, era sobreposta por um colete carregado de ferramentas, também usado por seus companheiros de palco, os mesmos músicos que o acompanharam nas turnês mais recentes. A explicação para o figurino veio eventualmente mais tarde: "Quando esse disco foi gravado, o povo só falava em trabalho. Se falasse em preguiça, ia preso".

Sem qualquer preocupação em ser fiel ao original, Tom mudou os arranjos e não raro as letras originais. Nem mesmo a famosa "São São Paulo", conhecida por vencer o 4º Festival da TV Record, escapou. O cantor passava o vocal para os outros membros da banda, mudava o andamento, alternava gritos e sussurros, parava e começava a música do início. A plateia acompanhava quando podia e se era solicitada. Nos momentos de silêncio, se ouvia um protesto insistente vindo das poltronas: "tira a máscara!".

Não adiantava, e Tom Zé seguia o baile. Em "Namorinho de Portão", conhecida também na voz de Gal Costa e transformada em sucesso radiofônico pela banda Penélope, o cantor continuou inovando: acrescentou uma homenagem às músicas de Roberto Carlos e ao próprio Rei, além de inventar uma estranha harmonia vocal para o refrão. "Ficou uma merda", disse sincero ao final. "Será que se eu tirasse a cara de bandido melhorava?" Foi a deixa para ele mostrar o rosto e motivar uma enxurrada de urras e aplausos.

A noite ainda teve diversas pérolas e timing incrível, dignas de um comediante stand-up desbocado. Tom convidou os fotógrafos para subir ao palco e tirarem uma foto com ele, fez uma ode à burrice ("Graças a Deus, ela é uma das maiores vocações nacionais, principalmente dos políticos"), à boa educação ("Minha mãe bem que tentou, mas não tive jeito, sou um perdido") e um comentário proibido para menores da relação entre Rita Lee e Roberto de Carvalho. Nada inédito, mas fulminante para arrancar gargalhadas do público.

Marco Tomazzoni

Mais tarde, Tom mostrou o rosto e recebeu uma enxurrada de aplausos

Humor à parte, brilharam forte as composições de Grande Liquidação . Músicas como "Sem Entrada e Sem Mais Nada", "Curso Intensivo de Boas Maneiras" e "Não Buzine Que Eu Estou Paquerando" ainda mantêm a relevância e acidez de quando foram escritas. No meio delas, uma faixa do último disco ("Filho do Pato") e uma inédita: "Tropicalia Jacta Est", que, se tinha gerado a expectativa de ser uma bordoada nos integrantes do movimento que condenaram Tom ao ostracismo na década de 1980, se revelou um punhado de citações a Caetano, Gil e clássicos como "Domingo no Parque" e "Alegria, Alegria".

Nessas alturas, o público, que havia atendido prontamente aos pedidos de colaboração de Tom, não se fez de rogado ao ouvir ele pedir para todo mundo "levantar e dançar". Foi a deixa para o Municipal, lotado da plateia às galerias, ficar de pé e acompanhar o músico. Na volta para o bis, não foi diferente, ainda mais que o retorno se deu com "Parque Industrial", uma das favoritas do repertório do cantor.

A recepção foi forte o suficiente para carregar as baterias e deixar Tom esfuziante, com energia de sobra para o senhor de 72 anos pular sem parar, dar poderosos chutes no ar e sair apertando as mãos de todo mundo que se dispusesse a colocá-las na beirada do palco. "Isso é que é alegria", disse, antes de sair saltitando para os bastidores.

Veja a lista de músicas do show:

"Profissão Ladrão"
"Quero Sambar Meu Bem"
"São São Paulo"
"Não Buzine Que Eu Estou Paquerando"
"Namorinho de Portão"
"Sem Entrada e Sem Mais Nada"
"Sabor de Burrice"
"Curso Intensivo de Boas Maneiras"
"Glória"
"Filho do Pato"
"Tropicalia Jacta Est"
"Parque Industrial"

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